Ter mais natureza e menos alcatrão "arrefece" cidades em dias de calor, diz especialista
- 02/07/2026 11:38
- Redação
A introdução de espaços verdes e de pavimentos mais permeáveis são formas de "arrefecer" as cidades nos dias de calor, segundo a arquiteta Teresa Calix, que considera que em Portugal têm sido dados alguns passos, mas ainda lentos.
De acordo com Teresa Calix, especialista em Arquitetura Urbana e docente na Universidade de Arquitetura da Universidade do Porto, atualmente os estudiosos defendem que "renaturalizar" as cidades sempre que for possível, com "soluções de base natural", é "fundamental para arrefecer os espaços urbanos" e combater as denominadas ilhas onde o calor se concentra.
Tradicionalmente uma cidade é cinzenta, construída de materiais "que apontam para dimensões muito rígidas e impermeáveis", pelo que há que "introduzir soluções à base da natureza", como parques, jardins e árvores, para gerir bem as temperaturas nos espaços onde são colocadas, e ter menos alcatrão, um material bom em termos de ruído, mas "péssimo em termos de recuperação da temperatura", dificultando a infiltração de águas no solo, disse à Lusa.
"É fazer, muitas vezes, o contrário do que fizemos ao longo do século anterior", considerou, acrescentando que estas são as soluções mais genéricas, embora existam outras dimensões a ter em consideração, como, por exemplo, a arquitetura e os materiais dos edifícios.
Outra tendência atual para arrefecimento urbano é destapar as linhas de águas que no passado foram enterradas para construir as cidades, tendo em conta o contexto envolvente e a estética dos lugares, mas também o conforto, muitas vezes associado a modos de mobilidade suave, e a qualidade que os cidadãos podem encontrar nos espaços.
A este nível, internacionalmente há alguns bons exemplos de projetos: em Seul, o rio Cheonggyecheon, que tinha sido coberto com uma autoestrada, foi completamente descoberto e voltou a estar disponível como um grande espaço público de referência da cidade; o projeto Madrid-Rio, que recentemente redesenhou autoestradas para disponibilizar uma área ribeirinha de qualidade na capital de Espanha; e a High Line, "reconhecidamente uma boa solução de espaço público, de qualidade", com "soluções de base natural muito interessantes" em Nova Iorque.
"[Em Portugal] acho que estamos a andar devagarinho, muito devagarinho por vezes, porque já temos, muitas vezes, o conhecimento de certas soluções que são mais eficazes e nem sempre optamos por elas", afirmou a especialista, sublinhando que, como "é complexo desenvolver todos os sistemas ao mesmo tempo, há que estabelecer prioridades e compromissos".
No Porto, a realidade que conhece melhor, Teresa Calix realçou "esse bom exemplo, ainda em fase de implementação", que é a "arborização de todas as ruas que têm condições" para isso, a inclusão de um índice ambiental no Plano Diretor Municipal, beneficiando com a redução de taxas os edifícios que respondam com maior eficácia às exigências ambientais da cidade, e projetos como os recentes parques da Asprela e da Alameda de Cartes.
No seu entendimento, a questão crítica em Portugal é ainda a "dependência muito forte do automóvel", que ocupa muito espaço nas cidades ao nível do estacionamento e das faixas de circulação, "por ausência de uma resposta eficaz do transporte público", e acaba por criar "dificuldade adicional a essa transformação que é necessária".
"Esse também é um compromisso difícil, que está a atrasar a entrada [...] nesse outro paradigma urbano. Portanto, estamos a entrar devagarinho, com dificuldades", defendeu, sublinhando que existe "uma opinião pública que ainda não está completamente disponível para aceitar esta mudança".
A especialista considerou que encontrar um compromisso de intermodalidade eficaz entre o espaço do automóvel e o espaço que não pode ser do automóvel "vai ser o grande desafio" para a organização metropolitana.
"Basicamente todos os assuntos que tocam à forma como nós temos que trabalhar com as cidades no século XXI obrigam a compromissos e a equilíbrios, por vezes difíceis. Nunca conseguiremos a melhor solução para tudo", resumiu.