Wagner Moura considera “uma tragédia” o Brasil voltar a ter um Bolsonaro no poder
- 02/07/2026 14:25
- Redação
De passagem por Lisboa, onde esta sexta-feira estreia, no Centro Cultural de Belém (CCB), a peça “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”, Wagner Moura diz-se pronto para arregaçar as mangas nessa mobilização.
O artista alerta para a “perspetiva desses caras ganharem, sobretudo com os americanos trabalhando para que eles ganhem”. Moura tem esperança, no entanto, que “o apoio de Trump a Flávio Bolsonaro saia pela culatra”.
O filho de Bolsonaro é o principal adversário do atual presidente, Lula da Silva que se recandidata nas presidenciais de outubro. Wagner Moura considera mesmo “perigoso”, um regresso da extrema-direita ao poder.
Já não é segredo, porque é Wagner Moura o revelou. “A verdade acabou e isso me assusta” é a primeira frase o ator diz na peça “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”.
Este é uma peça que no epicentro do enredo levanta a questão da verdade. “Talvez tenha sido essa a coisa que mais me deu vontade de fazer a peça. É discutir esse aspeto da pós-verdade. A ideia de que os factos não importam mais”, explica o ator.
Ele que tem formação em jornalismo diz que hoje “o trabalho do jornalista é fundamental”, porque “as pessoas se informam pelas redes sociais”. O jornalista é treinado para fazer o “fact check” e a “ouvir os dois lados”, sublinha Moura. “É uma coisa fundamental. É a responsabilidade com a verdade”.
No CCB, Wagner Moura vai partilhar o palco com atores como Danilo Grangheia e Julia Bernat. Como nos vários países onde representaram a peça, também em Portugal será integrado no elenco um artista local. Neste caso será Cleo Diára, nascida em Cabo Verde e que vai fazer a ponte entre os atores e o público.
A encenadora brasileira Christiane Jatahy vai colocar 11 elementos do público no palco. Eles serão os “jurados”. À dramaturga e cineasta não lhe interessou “trazer respostas com esse texto, mas mais fazer perguntas”.
“Aí surgiu a ideia desse tribunal. Não é um tribunal no sentido preciso da palavra, porque não tem advogados e não tem juízes. É um tribunal público, em que as próprias pessoas se defendem, como a gente muitas vezes vê hoje em dia, nas redes sociais. Todo o mundo vira juiz e tem direito a dizer o que está certo e o que está errado”, explica.
Christiane Jatahy recria no palco do CCB essa ideia de tribunal. “Cada noite 11 espectadores vão decidir se Thomas Stockman é ou não é o inimigo do povo”.
Representado por Wagner Moura, Thomas Stockman, é um médico de uma estância balnear de uma pequena cidade cuja economia depende do turismo termal. Ele descobre que a água está contaminada o que leva a peça a um dilema, com o confronto entre o dever moral e os interesses económicos.
Este é um texto que parte da obra de Henrik Ibsen, mas não é uma adaptação, diz a encenadora. Christiane Jatahy escreveu a peça com Wagner Moura. Este foi um projeto que começou “há 20 anos”, indicou a encenadora.
Wagner Moura que no último ano venceu no Festival de Cannes o prémio de Melhor Ator pela sua interpretação no filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho e foi nomeado para os Óscares já não faz teatro desde 2009.
A última peça foi Hamlet, de Shakespeare, recordou. Para ele o teatro “é uma coisa sagrada”. “Considero-me um ator de teatro”, disse.
“Comecei a trabalhar como ator numa época em Salvador e nos anos 90, atores de Salvador, a única coisa que podiam fazer era teatro. Estava muito longe do eixo Rio de Janeiro, São Paulo. Havia muito ainda preconceito com a forma com que os nordestinos falavam. Um ator nordestino quando ia fazer uma novela era sempre relegado a um papel periférico”, recorda.
Mas isso mudou com um governo de direita, reconheceu e começou “uma ebulição muito potente”. “Eu sou fruto desse movimento. O teatro é um compromisso muito importante para mim, muito sagrado, só faço quando é uma coisa que me mobilize muito”.
A peça “Um Julgamento” vai estar em cena até domingo. As sessões desta coprodução entre o CCB, o Holland Festival (dos Países Baixos), o Festival d'Avignon (França), o Edinburgh International Festival (Reino Unido) e o centro de artes DeSingel (Bélgica), estão quase esgotadas.