"Lefebvrianos excomungaram-se a eles próprios", diz D. Manuel Clemente
- 02/07/2026 18:43
- Redação
"Talvez para algumas pessoas, que não estivessem bem conscientes do que é que estava em causa, este seja um momento de clarificação. É triste que isto aconteça, não devia ser nunca desta maneira. Mas, a Santa Sé esteve sempre disponível para continuar a conversar, desde que não se pusesse em causa esta base doutrinal, que também teve expressão no Concílio Vaticano II. Não aceitaram, quiseram ir por aí, olha... vão por aí."
D. Manuel explica que não está só em causa os lefebvrianos defenderem que a Missa deve ser em latim. Seis décadas depois do Concílio Vaticano II, o grupo fundado por monsenhor Lefebvre recusa-se a aceitar, e a reconhecer como válidas, todas as reformas então aprovadas, e que transformaram a forma como a Igreja hoje celebra e se relaciona com o mundo e com as outras religiões.
"Às vezes, as pessoas pensam que é sobretudo a ligação à maneira de celebrar a Eucaristia e os sacramentos do Missal anterior ao atual, ou seja, o Missal que vinha de S. Pio V, do século XVI, a seguir ao Concílio de Trento – e por isso também se chama 'tridentino'. Mas, não é isso o essencial. A recusa do diálogo ecuménico entre os cristãos, a recusa do diálogo inter-religioso, até o desejo de que houvesse na ordem política uma confessionalidade total – no fundo, todos os Estados teriam de ser católicos. Este tipo de atitudes é que torna as coisas muito complicadas."
D. Manuel Clemente lembra que esta não foi a primeira vez que houve uma ruptura com a Fraternidade Sacerdotal Pio X, e que, em particular o Papa Bento XVI, fez um esforço de aproximação.
"Quando monsenhor Lefebvre, contra a autorização papal, ordenou os primeiros bispos, também já incorreram em excomunhão [decretada pelo Papa São João Paulo II]. Depois, com muito boa vontade, o Papa Bento levantou a excomunhão a esses bispos. Mas, agora voltou tudo para trás porque, efetivamente, não querem prosseguir neste caminho de comunhão na Igreja."
O cardeal conclui, por isso, que ao ordenarem novos bispos sem a necessária autorização do Papa – pondo em causa a sua autoridade, que é central na Igreja –, os lefebvrianos "escolheram ser excomungados", apesar dos apelos ao diálogo feitos pelo atual Papa Leão XIV.
"Quando se atinge um ponto de ruptura, como agora aconteceu, em que cortam com este centro da comunhão católica, e esta ligação ao sucessor Pedro, Bispo do Roma, já entramos no campo mais essencial, que não devia ser nunca posto em causa. Portanto, excomungaram-se a eles próprios, ainda antes de receber uma excomunhão formal, que é apenas a verificação do que infelizmente aconteceu. E o Papa Leão, como sabemos, até à véspera disto acontecer, sempre esteve pronto a continuar, a conversar, a aceitar, mesmo com estas particularidades, desde que não pusessem em causa este princípio básico de comunhão, que é a ligação ao sucessor de Pedro, ao Papa", sublinha D. Manuel Clemente.
Um dia após as ordenações, o Vaticano anunciou a excomunhão quatro sacerdotes ordenados bispos à revelia do Papa, assim como dos e dois bispos que presidiram à celebração, que decorreu na Suíça.