Olhando com atenção (e encanto) para a última dança mundialista de Luka Modric

Olhando com atenção (e encanto) para a última dança mundialista de Luka Modric

  • 02/07/2026 23:40
  • Redação

Os companheiros esperavam por ele no túnel, interessados em saber como cheirava aquela relva mundialista. Luka Modric, meio atrapalhado, lá acelerou o passo, alcançou o grupo e diluiu-se entre os lobos, alguns com memórias de infância duras.

No aquecimento estava com aquele semblante de homem sério, comprometido. Mas os pés diziam outra coisa: a infância cantarolava a cada toque. O realizador da transmissão televisiva preferia lamber aquela imagem. Já na parte da posse de bola, exercício que divide defesas e avançados normalmente, destapou alguns segredos da sua magia. Trivela com o pé esquerdo? Por favor, que futebolista.

No 202º jogo pela seleção, foi ele que deu o toque inaugural. Jogavam-se os 16 avos de final contra Portugal de Cristiano Ronaldo, um companheiro com quem partilhou lutas eternas e conquistou o céu demasiadas vezes para ser verdade. No final de mais um dia no escritório, Modric tocaria 67 vezes na bola, acertando 44 dos 52 passes tentados, sendo que 23 brotaram no meio-campo português. Percorreu quase 175 metros em progressão com a bola junto às botas. E se fossem quilómetros, ai senhores os derradeiros quilómetros, quem não comprava essa pelicula?

Que corte ao quase anónimo Bruno Fernandes. Ainda ali mora o cão que morde, mas que corre menos atrás da bola, fareja à distância. Veem-se os dentes das botas a acomodar a bola nos raros momentos em que se lembram que está ali a maior lenda do futebol croata. E trivelas, com aquele descaso dos que são maiores do que os grandes.

Ora tocava de primeira, ora tentava respirar com a bola para os companheiros inspirarem confiança. Mas estava difícil. Foi uma boa primeira parte de Portugal. Uma bola longa mal medida levou-o a chocar uma mão contra a outra mão, como quem diz “eh, pá, ó Luka, que mal”.

É um jogador singular. Em 2024, depois de estar praticamente eliminado no Europeu e de até ter falhado um penálti, um jornalista italiano pediu-lhe para nunca se reformar. Modric, muitíssimo honesto e quase comovido, agradeceu as palavras “do fundo do coração” e alertou que, embora gostasse de jogar para sempre, chegará esse dia em que vai pendurar as botas. Felizmente, esse dia ainda não chegou.

Falamos do homem que interrompeu a ditadura da mitologia em 2018, o primeiro a ganhar uma Bola de Ouro depois do ping pong entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, que rolava desde 2008. Tinha 33 anos e acabava de ganhar a terceira Champions seguida com o Real Madrid e de levar a sua querida Croácia à final do Mundial, melhorando assim o que o seu ídolo, Zvonimir Boban, vivera em 1998.

Ia batendo os raros livres que a Croácia ganhava. Certa vez, naquele seu jeito de correr aparentemente desequilibrado mas lento e veloz ao mesmo tempo, sabe-se lá como, corria na direção da sua baliza. Atrás, a beijar-lhe a testa da sombra com cinismo, tinha um português maçador a pressionar, mas Modric tinha uma surpresa para ele: aquela simulação brusca, quase embrutecida, passando a perna por cima da bola. E saiu pelo outro lado, o oposto do infeliz ladrão que saiu dali de pés a abanar. Mago.

Mostrava-se sempre, procurava o espaço, pedia a bola numa localidade mínima onde só pedem os que não têm medo de jogar. Também apareceu na zona do lateral-esquerdo para receber a bola, como tantas vezes fez no Real Madrid, onde chegou do Tottenham com 27 anos, em 2012. Em 13 temporadas, cumpriu 590 jogos e 43 golos no palco dos palcos. Superou Ferenc Puskas e tornou-se no mais velho ser a disputar um jogo pelo Real.

Luka Modric teve responsabilidade na melhoria da Croácia no jogo contra Portugal, ainda que tenha sido alimentado pelo crescimento assombroso de Mateo Kovacic. Ora tentava dar passes para desbloquear situações, ora segurava a bola atrás para atrair rapazes de branco.

Levou um amarelo, por uma pantufada a Vitinha, aos 59’. Foi sempre o futebolista que esteve mais perto do árbitro quando ia comunicar os golos anulados ou o penálti para Portugal, que permitira a Cristiano Ronaldo empatar o encontro. Modric sentia-se impotente, abria os braços, gesticulava, queixava-se, ria-se. Irritava-se mansamente.

Estava e não estava, as pernas não acompanhavam a ambição cega, como se fosse o prelúdio para o que viria aí, para nos habituarmos a estar num Mundial sem Luka Modric. Nunca mais. Que imagem miserável.

O caráter foi forjado na infância, quando a família fugiu da guerra. Os balcãs transformaram-se no inferno quando a Jugoslávia começou o processo de esfarelamento. Luka foi para um campo de refugiados em Makarska, depois Zadar. No Hotel Kolovare, um lugar para exilados do conflito, dava toques na bola. “O meu coração parte-se sempre que me lembro do meu avô a morrer, literalmente à porta de casa”, confessou ao “The Guardian”, em 2020. Luka é Luka como avô.

Certa vez, um professor pediu às meninas e aos meninos da turma de Luka para escreverem uma história sobre algo que os tenha marcado. Ele escreveu um texto sobre granadas a cair do céu e a morte do avô.

Claro, alguém assim não podia ter medo a jogar futebol. A guerra pode quebrar-te… ou permitir-te ser mais forte, chegou a dizer por outras palavras. Ele decidiu ou acha que decidiu ter um coração de aço, que obviamente se emociona e se torna mole quando tem de se tornar mole.

A classe e a qualidade com bola entre a floresta lusitana mantinham-se apesar do galgar do tempo do jogo, que parece jogar noutro tabuleiro quando falamos do tempo da sua idade. “É indescritível, o nosso sentimento quando jogamos pela Croácia, o quão orgulhosos nos sentimos, o tipo de responsabilidade que temos”, chegou a dizer em tempos idos, completamente enamorado e comprometido pela ideia de representar o seu povo.

O genial pequeno croata acenou negativamente quando viu Gonçalo Ramos, futuro avançado do AC Milan (agora ex-clube de Luka), meter a cabeça na bola e a bola na baliza da Croácia.

Às tantas parece que não levanta os pés, desliza no tapete verde que cheira tão bem. Trivelas lentas. Acabou a ouvir Xutos & Pontapés, o pobre, enquanto apoiava as mãos nos joelhos. De rastos, de coração partido. O primeiro a reconfortá-lo foi precisamente Gonçalo Ramos. Falaram um bocadinho. Depois veio Bernardo Silva, de 10 para 10. Cumprimentou todos os portugueses, talvez tenha ganho água nos olhos quando surgiu Cristiano Ronaldo.

Quem o resumiu bem foi Carlo Ancelotti, que o comparou a Paolo Maldini. “Acho que os dois podem ser comparados em termos do que um jogador de futebol deve ser. Eles são exemplos fantásticos. Não é coincidência que tenham chegado aos 40 anos. A genética desempenha um papel importante, mas, acima de tudo, trata-se de seriedade, profissionalismo, compromisso e atitude. É a única maneira de chegar até aqui.”

  • Fonte: Rádio Renascença
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