Portugal-Croácia, a crónica: um sensor e um senhor 9 metem os portugueses nos oitavos do Mundial
- 02/07/2026 22:25
- Redação
Vivia-se um cenário incomum, quase a sugerir o apocalipse. Em campo já não se viam Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes e Vitinha. O jogo, um carrossel delirante, obrigou a meter os olhos no horizonte com quem sabe mais coragem do que habitualmente e depois, perante o desvario e brava reação alheia, a povoar aquele território central.
Rafael Leão, influente no jogo como poucas vezes permitiu testemunhar, recebeu a bola enquanto pisava o cal. O cronómetro gemia o quarto minuto para lá dos 90. Estranhamente, Josip Stanišić deu espaço ao futebolista do AC Milan como se ele fosse canhoto. Mas Leão é destro e, após acomodar a ferramenta de trabalho como queria, tocou mais três vezes na bola. Tac, tac e… o derradeiro tac. Bola na área. Ali, entre Marin Pongračić e Joško Gvardiol, Gonçalo Ramos armou-se no 9 que é e que Martínez lhe pediu para ser naqueles minutos.
O desvio de cabeça foi de avançado, claro. Os tiros que lhe saíam das pistolas invisíveis cantavam certezas. O agora jogador mais caro da história do AC Milan, que teve Van Basten e Inzaghi e Shevchenko e Zlatan e Weah, fez o que fazem os bicampeões da Europa: estava lá e mudou a história. Segundo a Opta, Gonçalo Ramos tem média de um golo a cada 47 minutos em campo em Mundiais (quatro golos em 187 minutos). É o melhor registo da história de Portugal no torneio.
Esta vitória de Portugal contra a Croácia, em Toronto, coloca a seleção portuguesa nos oitavos de final do Campeonato do Mundo, que vai prosseguir para os nossos compatriotas na segunda-feira, contra a Espanha.
Mas este encontro foi quase como ir ao dentista. Longe daquele 3-0 de 1996 – Figo, João Pinto e Domingos –, viveram-se as dores e as angustias do Euro 2016, em que Ricardo Quaresma meteu um golo tardio no prolongamento.
Com Rafael Leão e João Neves na equipa titular, a seleção portuguesa entrou bem no jogo, havia propósito na troca de bola, nas ideias. Havia veneno, uma bela notícia. E as promessas de felicidade começaram com um remate de Bruno Fernandes, dentro da área, para boa defesa de Dominik Livaković. O criativo do Manchester United voltou a cumprir um jogo irreconhecível, tal é a ausência de impacto no jogo. Às tantas parece um segundo avançado esquecido.
Nos primeiros 35 minutos, Portugal somou cinco ocasiões de golo flagrantes, o que acontecera apenas nove vezes nos três jogos anteriores, segundo a Goal Point. Esta voracidade levou os croatas a corrigirem a forma de defender, pois ia sendo uma matança, estéril é certo, mas uma matança nos corredores. Com uma linha de cinco, os rapazes de Zlatko Dalic entraram no jogo. Modric sofreu na primeira parte com tão pouca bola.
Os portugueses ameaçavam até de bola parada. Renato Veiga podia ter tido uma tarde memorável. Os cruzamentos em que ninguém tocava continuavam a intimidar a baliza croata. Com o 5-4-1 da Croácia, tornou-se mais difícil fazer chegar a bola com vantagem aos bons. O intervalo transformou os senhores dos Balcãs.
Modric começou a tocar mais na bola, com aquele seu jeito lento perfeito, a arrastar os pés como se deslizasse, com trivelas mansas, com a sola a dizer à bola que a ama. Com 40 anos, continua a ser admirável o que faz num relvado. No aquecimento parecia um menino encantado. Um senhor singular.
Também Kovacic apareceu e apareceu tanto que, após uma daquelas suas correrias tradicionais, quase meteu golo. Foi uma grande defesa de Diogo Costa, que teve aqui laivos do jogo com a Colômbia, onde foi o melhor em campo ou, em termos informais, o maior. Kovacic voltaria a tentar o golo e quase fez um golaço, mas as pontas dos dedos de Costa atiraram a bola para o poste. Que Mundial está a fazer o guarda-redes do FC Porto.
Uma falta de agressividade atroz, com distâncias pecaminosas para os rivais e uma apatia incompreensível, originou o golo de Perisic, aos 53’. Bola de Stanisic na área, corte de Rúben Dias, mas a bola sobrou para o eterno Perisic, que não perdeu muito tempo para fazer o 1-0.
Se a reação de Rafael Leão foi assombrosa com uma bola na trave com tanta violência quanto beleza… se a reação de Cristiano Ronaldo, na melhor ação no jogo, foi soberba, com uma receção e uma picadinha por cima do guarda-redes croata que pertenciam aos deuses (golo anulado)… nenhuma se aproxima do que fez Roberto Martínez pela primeira vez na história dos Mundiais: quatro substituições. Podia sugerir que o treinador catalão estava perdido, até porque, já sabemos, é difícil os jogadores entrarem em campo num jogo destes, mas o que importa será o resultado.
Entraram então, aos 62’, Bernardo Silva, Francisco Conceição, Gonçalo Ramos e Nélson Semedo por Vitinha, Pedro Neto, Bruno Fernandes e João Cancelo. Talvez a versão mais arrojada do sempre mui criticado por conservadorismo Roberto Martínez. O golo do empate pouco depois recompensou o arrojo: penálti sofrido por Renato Veiga numa bola parada, Cristiano bateu para o meio da baliza (foi a única ação na área adversária). É o primeiro golo do ‘7’ em jogos de mata-mata em Mundiais. Na carreira são já 976 golos para o mais velho futebolista a atuar a titular num jogo a eliminar neste torneio.
As duas seleções entraram num certo pugilismo futebolístico, bates tu, bato eu, jab jab para manter distância, mas raramente se pôde ser calculista. Portugal não tinha meio-campo. João Neves parecia estar sem pilhas, um mal de que padecia Nuno Mendes. Kovacic atentou contra a baliza de Diogo Costa duas vezes. Matanovic enganou Mendes e disparou para a cara de Diogo Costa. Cheirava a golo…
Martínez chamou Rúben Neves, era necessário equilibrar as coisas no miolo. A placa exibia o número 7. A surpresa foi mundial, ouviu-se o queixal planetário a salpicar o chão. Cristiano Ronaldo balbuciou com os olhos. Antes de ensaiar um gesto do qual se arrependesse, caminhou como os grandes, alentou o companheiro e sentou-se ao pé dos outros, para ser um homem como os outros, expectante e inútil.
A Croácia marcaria por Sucic, mas um fora de jogo dava mais uma vida a Portugal, que já não sofria tanto apesar do pugilismo futebolístico assumido. Renato Veiga ameaçou outra vez. Drake via tudo na bancada. Pasalic quase quase fez mais um golo. Nuno Mendes já estava em agonia. A Croácia entrava por ali… Talvez por isso tenha ficado em campo Rafael Leão, para a eternização da energia pela esquerda.
Mas também porque meteria a tal bola na cabeça de Gonçalo Ramos, depois da hora, o 11º golo do avançado pela seleção em 27 jogos. Cristiano abraçou o benjamin, afagou-lhe o cabelo como os tios orgulhosos fazem. Este golo permite manter um sonho de pé. Estava a ser um belo jogo de Mundial, muito mais para os que parlam o idioma de Pessoa… até que Gvardiol meteu a bola na baliza. Outra vez.
Os homens de farda branca e outros tons respiraram de alívio. Ouviu-se então a “A minha casinha” de Xutos & Pontapés para inaugurar o apito final. Esta rapaziada, que deixou o rosto triste nos Estados Unidos, está nos oitavos de final do Campeonato do Mundo. É já segunda-feira, em Dallas (às 20h de Lisboa). Segue-se o bom do Lamine Yamal e a companhia que não é nada de deitar fora…