José Gomes, o treinador que lançou Olise. "Faltava às aulas para ficar a dar toques"

José Gomes, o treinador que lançou Olise. "Faltava às aulas para ficar a dar toques"

  • 03/07/2026 11:00
  • Redação

O avançado Michael Olise deslumbra no Mundial de 2026, é uma das figuras de um ataque que conduz a França rumo às fases decisivas da competição e há até quem o coloque na na corrida pela Bola de Ouro. À distância, o treinador português que o lançou, José Gomes, não esconde o orgulho.

Foi o técnico português que deu a Olise a primeira oportunidade no futebol profissional, no Reading, em 2018.

Na altura, o talento de Olise não era consensual, mas José Gomes garante que nunca teve dúvidas: "Vi talento, magia, arte, uma visão de jogo e uma execução totalmente diferenciadas", recorda, em entrevista a Bola Branca.

Porém, lançar Olise na equipa principal esteve longe de ser uma decisão pacífica. Na academia do Reading, o jovem acumulava problemas disciplinares e a direção da formação aconselhava José Gomes a não abrir uma exceção.

"Os diretores da academia diziam-me para não o fazer, porque ele não cumpria as regras. O clube tinha professores, sobretudo de Matemática e Inglês, e ele, estando no centro de treinos, não ia às aulas. Eles estavam completamente furiosos. Diziam-me que, se eu o levasse para a primeira equipa, estava a destruir as regras da academia", conta.

O treinador português ouviu os argumentos, mas decidiu confiar naquilo que via dentro das quatro linhas: um jovem "completamente absorvido pelo jogo".

"Muitas vezes faltava às aulas e estava atrás dos edifícios a dar toques na bola, a jogar contra a parede, a imaginar as coisas dele com a bola", relembra.

Foi essa obsessão pelo futebol que convenceu o treinador de que o talento de Olise merecia ser protegido, mesmo contrariando a posição da estrutura do clube.

"Chamei-o para a primeira equipa e disse que ele não iria ser mais um problema. Tecnicamente tinha coisas fabulosas e eu achava que o clube podia tirar partido daquele talento, potenciá-lo e valorizá-lo ao colocá-lo a jogar connosco", explica.

A partir desse momento, Olise passou a integrar regularmente os treinos da equipa principal e estreou-se na mesma época frente ao Leeds, numa partida do Championship.

Vários anos depois, José Gomes continua a acompanhar atentamente a evolução daquele jogador que ajudou a lançar e diz não estar surpreendido com aquilo que tem mostrado no Mundial.

"É um motivo de orgulho, porque é um bom menino. Gostei muito de trabalhar com ele. É um excelente miúdo, super tranquilo, discreto, está no canto dele, respira futebol, só pensa em futebol, imagina futebol, imagina dribles e jogadas."

Para o treinador português, a grande diferença de Olise não está apenas na qualidade técnica, mas sobretudo na capacidade de pensar o jogo antes dos restantes.

"Muitas vezes não é a execução em si. Arrisco-me a dizer que quase todos os jogadores profissionais conseguem fazer aquela execução. A questão é quanto tempo antes conseguem ler o jogo para depois executar."

É precisamente aí que, na sua opinião, nasce a diferença entre os bons jogadores e os verdadeiros génios.

"Essa é a grande diferença entre o génio, o craque, o bom jogador e o medíocre: a velocidade com que leem tudo o que os rodeia", afirma.

"Queremos é que no futebol existam equipas e jogadores a fazerem coisas para ganhar, para marcar, para criar problemas à organização defensiva do adversário. É aí que se destaca a magia, e neste caso, é aí que se destaca o Olise", afirma.

Depois da época realizada pelo francês no Bayern Munique e do impacto que está a ter no Campeonato do Mundo, José Gomes acredita que Olise reúne todas as condições para conquistar a Bola de Ouro.

"Eu acho que, por aquilo que fez e pelo tributo que deu ao futebol, pela magia que trouxe ao jogo, seria justo se assim acontecesse", conclui.

José Gomes não ficou muito mais tempo no Reading. Olise fez mais duas temporadas antes de dar o passo em frente para a Premier League.

Jogou no Crystal Palace durante três temporadas e o Bayern pagou mais de 50 milhões de euros para contratar o avançado em 2024.

Depois de uma temporada com 21 golos e 26 assistências, é uma das figuras do ataque da França no Mundial 2026. Ainda não marcou, mas soma já cinco assistências em quatro jogos.

  • Fonte: Rádio Renascença
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