Migrantes chegam a Lampedusa "a precisar sobretudo de cuidados psicológicos”. Mais de 860 morreram ou desapareceram este ano

Migrantes chegam a Lampedusa "a precisar sobretudo de cuidados psicológicos”. Mais de 860 morreram ou desapareceram este ano

  • 03/07/2026 17:50
  • Redação

Desde o início deste ano, mais de 860 migrantes morreram ou desapareceram no Mediterrâneo central. Janeiro foi o mês mais mortífero, com cerca de 430 registos – mais do dobro do mesmo período no ano anterior.

O tema já raramente faz manchetes, mas está longe de desaparecer para quem vive na pequena ilha italiana de Lampedusa. “É importante ter noção dos que chegam e dos que não conseguem chegar”, sublinha Francesca Basile, responsável pelas migrações da Cruz Vermelha italiana. "De todos os que perdem a vida, não só no Mediterrâneo, mas no deserto do Sahara e ao longo das outras rotas migratórias.”

Os vários acordos que a União Europeia fez com países de trânsito como a Líbia, Egito ou Tunísia tiveram como efeito um controlo mais apertado das travessias no norte de África, com milhares de migrantes a ficarem retidos em centros de detenção nesses países.

Quem consegue arriscar tem agora de procurar percursos ainda mais perigosos. Além disso, as operações de resgate e salvamento no Mediterrâneo, ainda operadas por várias Organizações Não Governamentais, têm sido fortemente restringidas e dificultadas pelo governo de Georgia Meloni.

“Por vezes recebemos pessoas que ficaram presas antes de atravessarem o Mediterrâneo. A viagem começou antes. Chegam com necessidade de muitos cuidados de saúde, materiais e sobretudo cuidados psicológicos”, adianta Francesca Basile.

Ao centro de recepção de Lampedusa, gerido pela Cruz Vermelha desde 2023, os migrantes chegam com “altos níveis de stress” – causados pela viagem e pelo que lhes aconteceu antes. A responsável da Cruz Vermelha refere casos de vítimas de tráfico, de violência motivada por questões de género, mulheres grávidas e muitos menores não acompanhados.

“Quando falamos de menores não acompanhados, não são apenas crianças, mas também adolescentes, que começaram a sua viagem há muitos anos, quando eram crianças. Chegam sem saber o que lhes vai acontecer e têm de ser apoiados.”

Em Lampedusa, ficam apenas o tempo indispensável para os primeiros cuidados, procedimentos de identificação e para receberem informação básica sobre o que se segue. Depois são transferidos para outras zonas, sobretudo para a Sicília, para iniciarem o processo de pedido de asilo.

Francesca Basile não tem testemunhado conflitos com a população local. “Desde que começámos a gerir o centro de acolhimento, em 2023, tentámos estar próximos da população local e mostrar-lhes que estamos ali para prestar cuidados aos migrantes, mas também para não deixar que se tornem um problema para a ilha”, sustenta.

“Lampedusa tornou-se o símbolo do fenómeno migratório, mas é também símbolo de uma comunidade que é muito resistente e acolhedora”, refere. A Cruz Vermelha mantém um contingente permanente na ilha, para o caso de haver um grande número de chegadas ao mesmo tempo, e há representantes da comunidade que integram as suas equipas. “É muito importante, porque quando saem do trabalho continuam a partilhar com a família e com a comunidade o que viram e como fazem o seu trabalho.”

Francesca trabalha com migrantes desde 2011 e já ouviu incontáveis histórias – de sofrimento, mas também de esperança. Quando o Papa Leão XIV aterrar na ilha, às 8h da manhã deste sábado, espera ouvir um apelo a que “nenhum migrante seja deixado sozinho" e um reconhecimento do esforço da comunidade e dos agentes humanitários para “apoiar qualquer ser humano em necessidade, independentemente do seu estatuto legal”.

A visita do Papa, acredita a responsável da Cruz Vermelha, será fundamental para voltar a colocar na agenda um problema que nunca deixou de existir.

  • Fonte: Rádio Renascença
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