Papa em Lampedusa: "Os mortos neste mar são vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram"

Papa em Lampedusa: "Os mortos neste mar são vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram"

  • 04/07/2026 05:44
  • Redação

“Há quem opte por não ser próximo e há quem decida não decidir. Os mortos neste mar são vítimas tanto das decisões tomadas como das decisões que faltaram”, lamentou o Papa esta manhã, em Lampedusa.

Na homilia que celebrou no campo desportivo desta cidade, refletindo sobre a parábola do Bom Samaritano, Leão XIV afirmou que “o desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos lugares de origem, um sistema económico mundial que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta preconceitos e desprezo, a ideia de que tais problemas não nos dizem respeito, os cálculos criminosos de quem lucra com o drama alheio, a lenta e difícil passagem de uma mera gestão de emergências à elaboração de políticas orgânicas e partilhadas: tudo isto reproduz hoje a pressa de ‘passar adiante’, da narrativa evangélica”.

O Papa afirmou que, antes de qualquer consideração intelectual ou convicção ideológica, o embate com quem jaz diante de nós, despojado de tudo, convida à proximidade e agradeceu ao povo de Lampedusa o seu exemplo de acolhimento aos necessitados.

“Aqui vistes não apenas um, mas milhares de seres humanos que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram tudo, os espancaram cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos. Os outros, aqueles que não conseguiram chegar onde desejavam, acolheu-os o mar. Sentimos, no entanto, a sua presença, que nos interpela tanto como a daqueles que desembarcaram, necessitados de atenção e socorro”, recordou.

“Infelizmente, em todas as épocas há quem tenha medo de se contaminar no contacto com os outros, negando assim, mesmo perante o sofrimento e a morte, a origem comum em Deus, a dignidade infinita de cada ser humano e o chamamento ao amor sem limites”, afirmou.

“É tempo de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa nunca deve tornar-se motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras e não fosse, pelo contrário, um chamamento universal à salvação. Onde havia muros de separação, Cristo derrubou-os.”

“A partir desta extremidade da Europa, no Mar Mediterrâneo, percebe-se melhor o apelo histórico que o fenómeno migratório dirige às sociedades europeias”, disse o Pontífice. “Também neste aspeto, tal como nos da transição ecológica e da promoção da paz, a Europa possui um potencial único, decorrente da sua história e da sua cultura e, por conseguinte, possui uma responsabilidade única.”

O Papa disse ainda que, devido à sua localização geográfica e estrutura institucional, “a Europa é capaz de enfrentar a crise de forma orgânica, inserindo os primeiros socorros num plano estratégico de longo prazo, que permita acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhar em prol do desenvolvimento, para que ninguém seja obrigado a emigrar; tudo isto, zelando pelo respeito da dignidade de cada pessoa”, frisou.

Interrompido por aplausos, Leão XIV desafiou também os habitantes da ilha, que é igualmente um destino turístico: “Para muitos, as férias representam somente diversão, descontração e despreocupação, por isso, parece que é necessário erguer um muro invisível entre o mar dos náufragos e o dos turistas.” E, neste contexto, pediu a ousadia de pensar de forma diferente: “Pouco a pouco e com criatividade, conseguireis fazer que quem transcorre um período, mesmo de descanso, nesta ilha, se possa tornar mais humano ao confrontar-se com a vossa caridade, com o que o mar vos ensinou, com os encontros que vos educaram. Efetivamente, existe autêntico descanso onde se redescobre o sentido da vida; e existe bem-estar verdadeiro quando a economia é justa e fraterna. Nesta economia, o cuidado pela criação e pela amizade social fundem-se numa síntese, que hoje a humanidade procura.”

Antes da missa, quando aterrou na ilha, Leão XIV deslocou-se ao Cemitério de Lampedusa para depositar uma coroa de flores junto dos túmulos de vários migrantes. Depois, dirigiu-se ao "Portal da Europa", onde encontrou uma família de migrantes. Um rapaz de 10 anos que, na travessia do mar, perdeu tudo, incluindo a mãe, leu-lhe uma carta na qual refere que só deixou de chorar quando lhe deram uma bola feita de cordas. Ofereceu agora essa bola ao Papa, “para a entregar a outro menino e fazê-lo feliz como fez a mim”.

Leão XIV dirigiu-se depois ao cais "Molo Favaloro", onde benzeu uma placa comemorativa com o nome do Papa Francisco, saudou um grupo de migrantes e, depois, afastou-se sozinho, caminhando em direção ao mar. Apesar do vento intenso e de algumas dificuldades provocadas pelo esvoaçar da batina, permaneceu alguns minutos em silêncio, olhando para o mar.

  • Fonte: Rádio Renascença
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