Gustavo Alfaro, o selecionador que dá aulas de filosofia nas conferências de imprensa
- 04/07/2026 06:45
- Redação
Há treinadores que explicam o jogo através de números e esquemas táticos. Gustavo Alfaro prefere fazê-lo através de Aristóteles, Maquiavel, Einstein ou Hemingway.
As conferências de imprensa do atual selecionador do Paraguai são, muitas vezes, mais próximas de uma palestra que de uma análise ao jogo.
O futebol serve-lhe de ponto de partida para falar sobre literatura, filosofia, política, ciência, cinema. Em vez de recorrer aos lugares-comuns habituais, constrói discursos repletos de metáforas e citações que rapidamente se tornam virais.
Antes de se dedicar em definitivo ao futebol, Alfaro estudou Engenharia Química. Foi precisamente nessa fase que percebeu que dominava as ciências exatas, mas conhecia pouco da história, da literatura ou da filosofia. A partir desse momento, debruçou-se no estudo dessas áreas, lendo e tirando notas sobre tudo o que lia, algo que segue sendo um hábito até hoje.
Hoje em dia, é difícil encontrar outro treinador que cite Maquiavel, Fangio ou Aristóteles com tanta naturalidade como o técnico argentino, de 63 anos.
Após a vitória nos penáltis frente à Alemanha, explicou, com a classe habitual, o pensamento por trás do jogo.
A carreira começou em 1992, no Atlético Rafaela, e passou por praticamente todo o futebol argentino. Arsenal de Sarandí, Quilmes, Belgrano, San Lorenzo, Rosario Central, Huracán, Gimnasia e Boca Juniors fazem parte de um percurso marcado por equipas sem grandes recursos, mas competitivas.
Foi precisamente no Arsenal de Sarandí que construiu o maior capítulo da carreira. Conquistou a inédita Copa Sul-Americana em 2007 e, anos mais tarde, levou um dos clubes mais modestos da Argentina ao histórico título do campeonato nacional, transformando uma pequena equipa numa referência do futebol sul-americano.
Levou o Equador ao Mundial 2022 contra praticamente todas as previsões e cunhou uma expressão que passou a defini-lo: "Caçadores de utopias impossíveis". Uma frase que acabou por dar nome ao livro que escreveu sobre essa campanha.
Quando assumiu o Paraguai, em agosto de 2024, encontrou uma seleção afastada dos Mundiais desde 2010 e mergulhada numa longa crise de identidade. Em poucos meses devolveu competitividade à "albirroja", recuperou a confiança do grupo e recolocou o país entre as grandes seleções sul-americanas.
No fundo, Alfaro acredita que o futebol começa muito antes do pontapé de saída. Para ele, ganhar um jogo passa primeiro por convencer os jogadores de que são capazes de o ganhar.
Será importante acreditar muito, este sábado, para ultrapassar a França, um dos adversários mais temíveis do Mundial 2026. O primeiro encontro dos oitavos de final está marcado para as 22h00, em Filadélfia.