E se a guerra puder ser lida pela roupa que os líderes usam? Do bikini ao Hijab

E se a guerra puder ser lida pela roupa que os líderes usam? Do bikini ao Hijab

  • 05/07/2026 03:15
  • Redação

Há peças de roupa que servem apenas para vestir. E há peças que, mesmo pequenas, acabam por despir uma época inteira das suas convenções. O biquíni pertence a esta segunda categoria.

Este domingo celebra-se o Dia Mundial do Biquíni, data que assinala a apresentação pública da peça criada pelo designer francês Louis Réard, em 1946, na Piscine Molitor, em Paris. Na altura, o modelo foi recebido como uma provocação. Mostrava o que até então era escondido, desafiava regras sociais e colocava o corpo feminino no centro de uma discussão que ia muito além da praia.

O nome também não foi escolhido ao acaso. "Bikini" foi buscar inspiração ao atol de Bikini, no Pacífico, onde os Estados Unidos tinham realizado testes nucleares poucos dias antes. Réard queria impacto, choque, explosão mediática. E conseguiu. O biquíni não rebentou no mar, rebentou nas mentalidades.

Para Anita Gonçalves, professora da Escola Superior de Arte e Design do Porto, chamar-lhe revolução não é exagero. Mas a revolução, explica, não esteve apenas na pele que ficou à mostra. Esteve, sobretudo, no significado cultural da peça.

"Costuma-se dizer que foi uma revolução. A expressão faz muito sentido, não tanto porque mostrava mais a pele. O seu verdadeiro impacto foi cultural. O biquíni simboliza uma nova forma de viver o corpo feminino no espaço público", afirma Anita Gonçalves.

A praia, acrescenta, deixou de ser apenas o lugar onde se ia "a banhos" e passou a ser também um espaço de lazer, sociabilidade e afirmação de novas feminilidades. O corpo feminino começava a sair da sombra das normas sociais para ocupar, com mais liberdade, o espaço público.

Mas o biquíni não surfou sozinho a onda da mudança. Surgiu numa época em que a juventude começava também a afirmar-se como força cultural. Anita Gonçalves lembra que é nesse contexto que nasce uma nova categoria social: os jovens enquanto grupo com identidade, voz e poder de consumo próprios.

"Vamos ver, pela primeira vez na história, os jovens afirmarem-se como um grupo com identidade própria, já com poder de consumo e com capacidade para influenciar a moda, a música e, claro, os estilos de vida", sublinha Anita Gonçalves.

A partir daí, o biquíni deixou de ser apenas uma novidade ousada. Passou a fazer parte de uma mudança maior: a afirmação de novas formas de viver, consumir, aparecer e escolher.

Para Rafaela Norogrado, professora de Design de Moda e responsável pelo doutoramento na área na Universidade da Beira Interior, o maior impacto do biquíni foi também político. A peça mostrou que a roupa não é neutra e que vestir o corpo pode ser uma forma de falar do tempo em que se vive.

“Essa grande revolução que o biquíni causou foi mais pela abordagem política que teve, como demonstração da importância de outras formas de falar e de fazer política. Demonstrou também como é forte a relação da nossa indumentária com o nosso tempo”, explica Rafaela Norogrado.

O biquíni significou liberdade, sobretudo para as mulheres. Mas essa liberdade continua desigual. Ainda hoje, em várias zonas do globo, o corpo feminino no espaço público permanece sujeito a regras, vigilância e negociação.

Anita Gonçalves lembra que “há muitas partes do globo em que ainda estamos no início, ou se calhar nem aí, de sentirmos essa ocupação positiva” do corpo da mulher no espaço público. Essa negociação, diz, faz-se sentir de forma mais intensa em regiões como o Médio Oriente.

É aqui que a conversa sobre o biquíni se abre a outros símbolos. Porque o que se veste pode significar emancipação, tradição, pertença ou imposição. O hijab é um desses exemplos. Para algumas mulheres, pode representar controlo. Para outras, identidade e escolha.

“Para algumas mulheres, o hijab pode ser sinónimo de prisão, porque lhes é imposto. Mas, quando vemos mulheres em grandes cidades europeias a usarem hijab, percebemos que muitas o usam como uma escolha, que representa uma cultura, um ideal e uma crença religiosa”, refere Anita Gonçalves.

A roupa, afinal, nunca fala apenas de moda. Fala de poder, religião, guerra, cultura, protesto e liberdade. Até os conflitos internacionais podem ser lidos através da indumentária. Cores, lenços, t-shirts ou símbolos usados no corpo transformam-se, muitas vezes, em mensagens políticas.

“Infelizmente, de novo, estamos com guerra e há diferentes manifestações também pela indumentária, com relação às questões políticas que decorrem no mundo”, observa a professora Rafaela Norogrado. “As nossas sociedades vão-se movimentando e, muitas vezes, é através desse símbolo tão rotineiro, que é vestir o corpo, que se tenta quebrar algumas barreiras e causar mudanças.”

Foi isso que o biquíni fez. Não mudou apenas o guarda-roupa de verão. Mudou a conversa sobre o corpo. Obrigou a sociedade a discutir o que podia ser mostrado, quem decidia o que era aceitável e até que ponto a liberdade feminina podia caber, ou não, nas regras impostas pelo olhar dos outros.

Hoje, quase 80 anos depois, o biquíni continua a viver entre contradições. É símbolo de autonomia, mas também objeto de consumo. Representa liberdade, mas convive com pressões estéticas. Pode ser uma escolha individual, mas continua preso a julgamentos sobre corpos, idade, beleza e exposição.

O Dia Mundial do Biquíni não celebra, por isso, apenas uma peça de verão. Celebra uma mudança cultural. Recorda que a moda também faz história e que, por vezes, uma revolução pode começar com apenas duas pequenas peças de tecido.

  • Fonte: Rádio Renascença
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