Cáritas de Lisboa leva apoio aos migrantes para mais perto das comunidades

Cáritas de Lisboa leva apoio aos migrantes para mais perto das comunidades

  • 05/07/2026 04:50
  • Redação

Quando a brasileira Pollyana da Silva precisou de renovar a autorização de residência, viu-se confrontada com um emaranhado de regras que só conseguiu desfazer com a ajuda da Cáritas, num dos pontos de atendimento itinerantes da instituição, em Cascais.

Natural de Minas Gerais, Pollyana deixou o Brasil com o marido e a filha ainda pequena, depois de uma decisão amadurecida durante anos. Técnica de enfermagem, trabalhou durante uma década num ambulatório de apoio a vítimas de violência sexual, instalado numa zona marcada pela criminalidade, em Belo Horizonte.

"Queria dar mais segurança à minha filha", conta. A preocupação com a violência acabou por pesar mais do que qualquer outra razão na decisão de emigrar. O marido viajou primeiro, já com uma proposta de trabalho, e ela chegou nove meses depois, em 2019, quando a filha tinha apenas um ano e oito meses.

Os primeiros tempos foram marcados pelas dificuldades comuns a muitos recém-chegados: encontrar casa, conseguir vaga numa creche e equilibrar a vida familiar enquanto ambos procuravam estabilidade profissional. Apesar disso, recorda uma integração tranquila. "Sempre fui muito bem recebida. Gosto muito de viver aqui", afirma.

Ao contrário de muitos migrantes, Pollyana nunca tinha recorrido a estruturas de apoio. Foi tratando sozinha da legalização da família, estudando a legislação, acompanhando publicações oficiais e insistindo junto dos serviços públicos até conseguir regularizar a situação.

Mas a recente alteração dos procedimentos de renovação das autorizações de residência mudou esse cenário.

"São tantos documentos, tanta burocracia, que, se eu não tivesse orientação no sítio certo, ia dificultar ainda mais o processo", explica.

Foi através do passa-palavra que soube do atendimento da Cáritas no Centro Social e Paroquial de São Domingos de Rana (CESPA). Ali encontrou apoio para recuperar os acessos à plataforma da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), reunir toda a documentação necessária e submeter os pedidos de renovação da sua autorização de residência e da filha.

O atendimento que ajudou Pollyana resulta de uma parceria iniciada em 2024 entre o CESPA e a Cáritas Diocesana de Lisboa, precisamente para aproximar este tipo de respostas de uma zona do concelho mais afastada do centro de Cascais.

A diretora técnica do CESPA, Laura Corte-Real, explica que a instituição já trabalhava diariamente com famílias migrantes, através do apoio social, emprego, infância e distribuição alimentar, mas faltava conhecimento especializado sobre os processos de regularização documental.

"A Cáritas trouxe um conhecimento muito aprofundado sobre legalizações e documentação que nós não tínhamos", afirma.

Essa especialização permite responder de forma integrada às necessidades das famílias. Uma pessoa pode chegar à instituição à procura de emprego, de uma vaga em creche ou de apoio alimentar e, ao mesmo tempo, precisar de resolver questões relacionadas com a autorização de residência ou outros documentos indispensáveis para aceder a esses direitos.

"Acabamos por trabalhar em conjunto, percebendo todas as necessidades daquela família e atuando nas várias vertentes", resume.

Segundo Laura Corte-Real, desde o início da parceria aumentou o número de migrantes que procuram o CESPA, muito por efeito do passa-palavra entre quem consegue resolver os seus processos.

A responsável estima que, em cada momento, a instituição acompanhe entre 20 e 30 migrantes, embora o número varie constantemente à medida que os processos são concluídos e chegam novos pedidos. A principal procura continua a centrar-se na regularização documental, seguida das questões relacionadas com emprego, creches e integração.

Para a diretora técnica, a parceria veio preencher uma lacuna importante. "É uma mais-valia para a instituição e para a comunidade", sublinha, admitindo que faria sentido alargar o atendimento para mais dias por semana, caso existissem recursos humanos suficientes.

O trabalho desenvolvido em São Domingos de Rana integra uma estratégia mais ampla da Cáritas Diocesana de Lisboa, que este ano assinala 50 anos de atividade e que, em Cascais, acompanha migrantes desde 2008 através da rede CLAIM, Centros Locais de Apoio à Integração de Migrantes.

A coordenadora dos projetos da instituição, Joana Henriques, explica que a aposta dos últimos anos passou por criar pontos de atendimento itinerantes, em parceria com entidades locais, para aproximar os serviços das comunidades e evitar que as pessoas tenham de percorrer longas distâncias ou repetir sucessivamente a sua história perante diferentes técnicos.

Embora cerca de 70% dos atendimentos estejam relacionados com documentação, o trabalho vai muito além da burocracia, envolvendo mediação com escolas, centros de saúde, serviços públicos e outras respostas sociais.

"Quando trabalhamos a integração de migrantes, estamos a trabalhar inclusão social", resume.

Em 2024, a Cáritas Diocesana de Lisboa acompanhou cerca de 700 migrantes em Cascais. Até ao final de maio deste ano, já tinha apoiado 382 pessoas, cada uma com uma média de cinco atendimentos, reflexo, segundo Joana Henriques, da complexidade dos processos de integração.

"As pessoas têm multivulnerabilidades. O emprego, a habitação, a documentação, a escola ou a saúde acabam por estar todos ligados. Às vezes, precisam apenas de alguém que as ajude a perceber por onde começar", conclui.

  • Fonte: Rádio Renascença
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