O marcador de Petar Musa em Dallas é português. Álvaro Augusto foi de Portimão para os EUA

O marcador de Petar Musa em Dallas é português. Álvaro Augusto foi de Portimão para os EUA

  • 06/07/2026 04:35
  • Redação

Em plena Pioneer Plaza, parque conhecido pelas dezenas de estátuas de touros que invadem o jardim, foi fácil reconhecer Álvaro Augusto. O luso-brasileiro do Dallas FC tem 1,93 e via-se bem ao longe. Correção: "Já não tenho 1,93, agora já cresci um pouco mais, devo estar nos 1,95", diz-nos mal chega.

A crescer também numa espécie de equipa B do clube, nos North Texas SC, Álvaro só perdeu uns centímetros por estar ligeiramente cabisbaixo: tinha vindo de uma tarde com dezenas de brasileiros para ver o Brasil-Noruega, mas o resultado não foi simpático.

Álvaro, obrigado por nos receber aqui. Acabou de vir do jogo do Brasil, não foi?

Foi difícil, foi difícil. Ainda mais porque eu gosto muito do Neymar. E pensar que é o último Mundial dele e vê-lo a perder assim, desta forma... foi difícil, claro.

Eu até acho que hoje estivemos muito bem na primeira parte. Na segunda talvez tenhamos começado a jogar muito recuado. Foi uma pena, mas é assim, é o futebol.

Então falemos de coisas mais alegres. O Álvaro tem nacionalidade portuguesa, apesar de ter nascido no Brasil. Como é que foi ter a Portugal?

Eu fui com dois anos para Portugal, para a cidade do Porto. Os meus pais vieram à procura de melhores condições de vida e eu fui com eles, claro. Fiquei até aos meus seis anos e meio.

Ah, isso eu acho que tenho desde sempre. Eu nasci prematuro. E desde sempre que gostava de chutar as coisas, de jogar. Desde que nasci que a minha mãe já me punha a bola nas mãos, foi quase natural. Eu cresci juntamente com ela.

A minha mãe amou sempre Portugal. E morou no Brasil, morou em França também. Mas Portugal é o amor dela.

Ela é brasileira também, sim. É como eu, luso-brasileira, tem dupla nacionalidade. Também já veio aqui várias vezes para os EUA também, mas diz que Portugal não tem igual. Os portugueses trataram-nos sempre com muito carinho, sentimo-nos sempre em casa. E eu acho incrível, é um país incrível.

Nossa, são muitas. Há uma memória de que eu gosto muito: quando tinha 10 anos, fui a Espanha para jogar uma espécie de "copinha do mundo". Isso foi incrível.

Não, já foi depois. Em Portugal comecei a jogar numas escolinhas do FC Porto. Eu morava na cidade do Porto na altura. Também morei em Setúbal, mas a maior parte do tempo fiquei no Porto.

Depois, com seis anos, fui para França. Fiquei lá dos seis aos dezesseis. Aí, voltei ao Brasil e fiquei um ano e meio lá. Com dezoito anos, voltei para a França, onde joguei uma temporada na equipa onde já tinha estado [USM Saran]. Joguei na Liga Sub-19 Nacional, e até fui capitão o ano inteiro. Foi muito bom. Só depois disso é que apareceu um teste lá no Portimonense, em Portugal. E voltei para lá.

Foi através do meu empresário. Ele tinha contatos lá, mandou o meu perfil, eles ficaram interessados e chamaram-me.

Sim, eu fiquei no Portimonense por oito meses. Depois apareceu logo o Dallas FC e a maneira como isso aconteceu é uma grande história [risos].

Eu acredito muito em Deus, e para mim foi um milagre de Deus. Eu estava no Portimonense, a meio da temporada 2024/2025. E o Dallas FC estava a fazer a pré-época em Portugal, no Algarve. Até que um central deles, o Nkosi Tafari, recebe uma proposta para ir jogar para Los Angeles.

Eles tinham planeado fazer um jogo teste interno, mas com a saída do Tafari faltava-lhes um defesa. Então pediram ao Portimonense um central, só para aquele treino. E eu lá fui. Era só para um treino, mas graças a Deus que treinei bem. Correu tão bem, que depois disso pediram-me para voltar, ficar com eles até ao final da pré-temporada, e acabaram por me contratar.

No Portimonense eu tinha um contrato de dois anos, mas fiquei lá oito meses e mudei-me para Dallas.

Foi curta, mas foi bem rica em emoções. Nos primeiros jogos em casa, estivemos invictos. Fora de casa foi um pouco mais difícil, mas mantivemos sempre a paixão.

Quando eu cheguei ao Portimonense, fiz a pré-época toda com a equipa profissional, a principal. E na minha cabeça tinha essa expectativa de integrar a equipa definitivamente.

E como é se reage a isso? De repente salta-se de uma equipa de juniores em França para se treinar com uma equipa profissional em Portugal...

Para mim foi incrível, porque é um sonho desde criança, foi chegar onde queria... não tenho palavras para explicar. É lindo. E ainda tenho o contato de alguns deles, ainda falamos. Às vezes reagimos aos stories um dos outros no Instagram, é bom.

Caso venha uma proposta que seja interessante e boa para mim, não teria problema nenhum em regressar, claro.

Sim. Eu acho que o tempo que tive lá foi um tempo bom. Foi um tempo que me agradou muito. O futebol português foi um futebol que me agradou. Acho que não teria problemas em regressar, mas mais para a frente. É um país que eu tive sempre no coração. É um país que eu acho lindo, a temperatura, as paisagens, as pessoas. Sempre me trataram muito bem lá.

E agora lançando um dilema: imaginando que um dia o convidavam a representar uma seleção. Qual das duas é que preferia representar: Portugal ou Brasil?

Eu acho que essa é uma pergunta para a qual eu não tenho resposta, porque eu carrego essas duas seleções no meu coração. Acho que ficaria muito feliz se fosse para representar qualquer uma delas.

Agora que o Brasil foi eliminado, vai torcer unicamente por Portugal. Quais são as suas expectativas para a seleção?

Eu sou um fã do 'robozão' [Cristiano Ronaldo], não é... e eu sei que vai ser o último Mundial dele. Para mim, a minha expectativa seria ver Portugal a chegar o mais longe possível. E, se Deus quiser, ganhar a "Copa".

Não consegui arranjar bilhete... mas há um barzinho perto da minha casa que passa os jogos, acho que vou assistir ao jogo lá.

É um orgulho. Um dos meus ídolos é o Cristiano Ronaldo. Para mim, ele é uma máquina. Não tem há outra forma de o descrever que não seja essa. Quer seja em mentalidade, disciplina... não há palavras para descrever. É um exemplo.

Não, até porque não sabia em que hotel que é que eles estavam. Agora que já sei, talvez tente ir lá espreitar. Ontem [sábado] também não pude porque tive jogo.

Ontem foi um jogo incrível. Ganhámos por 3-0. Foi contra uma equipa que está muito bem posicionada na classificação, os Saint Louis City. Foi maravilhoso. Ainda por cima foi a estreia no estádio novo, que é o Mansfield Stadium. E foi incrível.

O que é que pode dizer aos portugueses e à seleção sobre Dallas? Vamos ter muitos por cá nestes dias...

Eu cheguei a Dallas há um ano e três meses. Posso dizer que é bastante quente, ainda mais nesta altura do ano. Eles têm de ter bastante cuidado com o calor, se bem que o estádio é fechado e têm as pausas para hidratação. Mas o calor aqui é muito diferente das outras cidades, aqui é bastante seco.

A seleção tem treinado aqui nos últimos dias. Como é que é treinar com este calor?

No início é muito complicado até te habituares. Eu cheguei numa época de frio, por isso habituei-me aos poucos. Fui do frio para o calor e isso ajudou-me bastante. Mesmo assim, acho que demorei uns dois meses para me acostumar.

Ah, eu acho que a hidratação é tudo. É beber água o máximo que conseguirem, assim que der. Eu gosto de ir molhando a cara, para refrescar a mente.

E como é que estão as suas perspetivas para ficar na equipa principal do Dallas FC? Essa oportunidade vai chegar?

Eu já me estreei com o Dallas FC na época passada. Aliás, cheguei a fazer três jogos como titular. No total já fiz sete jogos pela equipa principal. Foi uma experiência incrível. E foi muito inesperado, houve um central que se lesionou, outro levou um vermelho e, de repente, de quarto central passei a primeiro do nada. Mas tenho treinado sempre com o Dallas, treino com eles e jogo com o North Texas [equipa B do Dallas FC].

Bem, eu vi a sequência das coisas a acontecer, já sabia que podia acontecer. No início dessa semana o treinador veio falar comigo e disse-me: "Álvaro, prepara-te que deves ser titular". Então lá fiz a minha preparação. No dia do jogo, o mister chamou-me e disse: "Álvaro, agora é contigo, está no teu colo, agora é abraçar a oportunidade".

O primeiro jogo foi contra o Kansas. O segundo jogo foi contra o San José. E o terceiro contra o Saint Louis.

Há um que é bastante conhecido no Brasil, que é o João Klauss, que jogou no Grêmio.

Já teve certamente é de marcar o Petar Musa nos treinos... como é a sua relação com ele? Falam do Benfica?

Sim, sim, bastante. Ele é incrível também. É uma pessoa que no início parece meio assustadora, porque ele é muito cara fechada, sabe? Quando não conhece as pessoas, não é muito de se envolver, de interagir. Mas, quando aprendes a conhecê-lo, ele abre-se e gosta de brincar bastante.

Nós gozamos bastante com ele, brincamos muito com ele sobre isso [risos]. Mas ele sabe que é tudo só na brincadeira.

É assim... eu sou um central agressivo e ele é um avançado que não se pode se lesionar. Então, nos treinos, tentamos sempre conversar bastante para ter cuidado um com o outro. E eu acho que ele me faz progredir bastante, porque é bastante inteligente. A mentalidade dele, quando entra dentro de campo, eu acho que é diferente. Quando ele entra, já não está para brincadeiras. Aí é só o foco mesmo, e eu acho isso incrível.

  • Fonte: Rádio Renascença
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