Aumento da despesa nos hospitais privados "não resulta apenas de fragilidades no SNS”, diz Ana Jorge

Aumento da despesa nos hospitais privados "não resulta apenas de fragilidades no SNS”, diz Ana Jorge

  • 07/07/2026 05:20
  • Redação

A antiga ministra da Saúde Ana Jorge considera que o aumento da procura dos hospitais privados, identificado no relatório de monitorização da Entidade Reguladora da Saúde, não se explica apenas com fragilidades do Serviço Nacional de Saúde.

De acordo com a monitorização do regulador, nos oito anos estudados a despesa corrente em saúde nos hospitais privados aumentou 56,6%, o equivalente a mais 1.050 milhões de euros gastos em consultas, exames, cirurgias, internamentos e outros tratamentos.

Ana Jorge aponta vários fatores para este crescimento. Desde logo, o aumento dos seguros de saúde, muitos deles contratados pelas próprias pessoas, outros disponibilizados pelas empresas. A antiga governante lembra também o papel da ADSE, o subsistema dos funcionários públicos, que mantém acordos com o setor privado.

“As pessoas podem recorrer muito ao privado, nomeadamente para consultas, exames complementares, alguns internamentos e até intervenções cirúrgicas. São, no fundo, opções das pessoas”, sublinha.

A antiga ministra admite, ainda assim, que os tempos de espera no SNS contribuem para esta maior procura da hospitalização privada.

“Uma parte é imputável ao SNS, obviamente”, mas também há utentes que recorrem ao privado “mesmo quando não há muita urgência”, simplesmente porque “não querem esperar muito”.

Ana Jorge lembra que o SNS “sempre teve alguns tempos de espera maiores do que o setor privado”, mas admite que essa diferença se agravou nos últimos anos.

Outro fator apontado pela antiga ministra é a saída de profissionais do SNS para o setor privado, que estará relacionada com o maior desequilíbrio entre os dois setores.

“É evidente que corresponde também ao período em que há maior desequilíbrio e uma fuga, de certo modo, dos profissionais do setor público para o setor privado, que é mais atrativo”, refere.

O relatório da ERS alerta também para a concentração territorial da oferta hospitalar privada. A maior presença destas unidades verifica-se na Área Metropolitana do Porto, na Grande Lisboa e na região de Coimbra, zonas que concentram 43% da população considerada no relatório.

Para Ana Jorge, “é evidente” que esta concentração traduz uma desigualdade no acesso.

“O setor privado é um setor lucrativo. Qualquer empresa de saúde, maior ou menor, tem como objetivo prestar cuidados de saúde, mas tem também um objetivo lucrativo, contrariamente ao serviço público”, afirma.

A antiga ministra explica que, por essa razão, os grupos privados tendem a instalar-se nos locais onde existe maior procura, maior poder económico, mais seguros de saúde ou maior presença de beneficiários de subsistemas como a ADSE.

“Vão localizar-se nos locais onde têm a certeza, ou a maior probabilidade, de ter maior procura. E isso acontece nos grandes centros”, sustenta.

Ana Jorge considera, por isso, que o setor privado “cria sempre alguma iniquidade no acesso”.

“É a regra do mercado”, admite. Embora conclua que “isso não quer dizer que [o setor privado] não seja preciso ou que não possa existir. Mas não tem os mesmos princípios nem os mesmos objetivos do serviço público, que é prestar cuidados de saúde de forma equitativa a toda a população.”

  • Fonte: Rádio Renascença
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