"A música é um tempo de louvor a Deus". Padre João Caniço é maestro há 60 anos
- 07/07/2026 08:41
- Redação
Quando, a 29 de junho de 1973, foi ordenado sacerdote na Companhia de Jesus, a música já fazia parte da sua vida. João Caniço formou-se em Direção de Canto Gregoriano e Direção Coral Polifónica no Instituto Gregoriano de Lisboa. O seu percurso como padre esteve sempre ligado à comunicação, mas a música ocupou sempre um lugar importante, mesmo quando esteve em missão em Timor-Leste, Roma ou Luanda.
Com 83 anos de idade, irá celebrar os 60 de maestro a dirigir um concerto, que junta um grupo de cantores antigos com o coro de Santo Inácio, do qual ainda é o responsável. O concerto está marcado para sábado, 11 de julho, às 16h00, na igreja do colégio de S. João de Brito, no Lumiar. A entrada é livre.
Está a celebrar 60 anos de maestro ininterruptos. É uma vida dedicada à música e à música litúrgica.
Maestro foi quando comecei na faculdade de filosofia, em Braga. Logo no primeiro ano, como já vinha de trás com alguns estudos de música, os meus superiores acharam que eu era a pessoa indicada para dirigir o coro. Desde aí - setembro de 1963 - que fiquei sempre, até sair da faculdade e ir para Timor, onde fui professor três anos. Aí é que expandi, digamos assim.
Sim, mas não sacerdote ainda. É o estágio do magistério. Tinha terminado os estudos de filosofia na faculdade e ia começar a ensinar.
Ali tinha os seminaristas, tudo o que era de seminário. Tinham missa diária, com cânticos, e ao domingo era sempre um dia de festa. Depois tinha as cerimónias da catedral, que era o coro do seminário que assegurava. Logo ali tive até missas novas, em terras de lá, e coisas assim. Os timorenses não são muito expansivos, mas gostam muito de cantar. Quando se puxa por eles, cantam com muita força.
Sim, a Agência Eclésia foi já no fim dos cinco ou seis anos em que fui diretor do Secretariado de Comunicação Social dos Bispos. Já quase a terminar, no último ano, houve um grande boom de informação religiosa, e tinha de se transformar o boletim do Secretariado s Bispos, transformá-lo em Agência Eclésia. Que foi uma alegria! Estive seis meses a dirigir, mas depois os meus superiores deram-me trabalho em Angola, e eu tive que ir.
O Coro Adulto 14 anos, e o Coro Infantil 13 anos. O coro infantil tinha duas partes: uma de crianças, que estavam ainda no ensino, da primeira à quarta classe, como diziam naquela altura. E outros que estavam nos dois ciclos. Havia 40 mais 40, eram um coro de 80 vozes.
Mais tarde, já em 1993, quase dez anos depois, formou-se o Coro Juvenil, com alguns dos que tinham estado no Coro Infantil e amigos deles. Chegaram a fazer alguns concertos, inclusivé foram a Bruxelas fazer um espetáculo!
Uma das coisas que fizemos muito foi a gravação de discos, que vinham muito sobre mim, porque eu é que ficava a fazer as montagens com os técnicos e com os músicos, primeiro a gravar o piano, depois os violinos, depois os instrumentos de sopro, etc. E depois de tudo gravado, gravar o coro, e no fim de tudo gravar os solistas. Isto significava noitadas, até às três da manhã, no meio de dias de trabalho. Eram duas ou três semanas de gravação, que para mim eram terríveis, mas que eu fazia com muito gosto. E, naquela idade, à volta dos 40 anos, em que a energia dá para tudo e para mais alguma coisa.
Estes 60 anos, como maestro, vão ser comemorados de uma forma especial. O que é que está previsto?
Tenho pena, porque há uns 10 que tiveram de desistir, porque não aguentaram os dois meses de ensaios - uma vez por semana no primeiro mês, e depois duas vezes por semana no segundo. Não aguentaram e não vão estar presentes. Mas, os que vão estar, um grupo de 30, 32, é muito bom o ensaio geral.
De vários coros. Do coro que tenho atualmente, o Coro de Santo Inácio, que são 18 pessoas, e outros tantos, ou ainda mais, de antigos cantores.
Vamos, sobretudo, fazer a oratória Jefté, de Giácomo Caríssimi (para coro de seis vozes, quatro solistas e órgão). É uma obra que escolhemos, que eu só tenho visto executada pelo Coro Gulbenkian. É uma espécie de arrojo fazer uma coisa destas, mas felizmente temos feito já o ensaio geral com o órgão e com os solistas e, graças a Deus, tem ação! Tenho confiança de que vai sair bem, e os cantores estão entusiasmados, isso é muito bom!
Vai ser na Igreja do Colégio de São João de Brito, no Lumiar (Lisboa), com o órgão da Igreja, que é muito bom, e com o organista António Duarte, o organista da Sé, de grande renome; com solistas orientados pela Ana Paula Russo, uma cantora de nomeada (na música clássica), que com muito gosto e com muita amizade se ofereceu para escolher os solistas e os orientar. Será um concerto aberto a toda a gente.
Tenho muito gosto nesta obra, porque Giácomo Caríssimi é um grande mestre, foi o maior músico da Europa, na sua altura, teve alunos como Antoine Charpentier. Trabalhou no Colégio Germânico dos Jesuítas - para as pessoas que conhecem Roma: a Igreja de Santo Apolinário, que fica bastante central, era a Igreja do Colégio Germânico, e foi aí que ele fez as obras todas dele, que são a transição da Idade Média para o Barroco, onde está obra já se insere. É uma das suas obras mais célebres.
É evidente, não fosse o canto sempre na igreja o elemento preferido do grande louvor.
Eu estudei seis anos de canto gregoriano. Nos tempos de hoje, as pessoas nem querem imaginar, mas graças a Deus estudei desde toda a história, à minúcia da paleografia , como é que se escrevia nos manuscritos (medievais), como é que se interpretam os grupos melódicos, etc. E depois, a direção de Canto Gregoriano, que tem uma especialidade própria. E ao fim de seis anos fiz o exame de direção, maestro de Canto Gregoriano.
Depois, quando já me estabeleci em Lisboa, quando estudava Teologia, tudo o que tinha aprendido de direção polifónica veio para o Instituto, que agora é o Instituto Gregoriano, e estudei os três anos de Direção Polifónica, Direção de Coro, e um pouco de composição clássica também.
A partir daí, a minha vida não dava para mais, porque fui para Timor, e outros lados...
Nunca me podia sentar a estudar semanalmente música num sítio em que me pudessem ensinar, porque também não é em todos os sítios que há escolas superiores de música. E a vida também era muito ativa, não dava para estar a partir muita coisa.
Essa pergunta eu não devia responder, porque é tão claro! É tão triste onde descemos atualmente, entra pelos olhos dentro, o esforço que as pessoas fazem, mas o pouco que conseguem nos coros que há atualmente nas paróquias, comparando com há 20 ou 30 anos.
Regrediu-se muito por culpa da própria igreja, por culpa dos superiores dos seminários, por culpa dos bispos. Porque o Papa São João Paulo II, por exemplo, no tempo dele, ainda escreveu coisas muito sérias para que esta decadência não avançasse.
Hoje em dia faz-se um esforço mínimo nos seminários, mas não é nada do que se devia fazer. Eu falo assim claramente porque sinto que é uma pena o que existe. Honra seja f eita ao Santuário de Fátima, que faz um bom trabalho, e honra seja feita a algumas dioceses, como Braga, Porto, alguma diocese do interior.
Mesmo a nossa rádio, as nossas televisões que transmitem as missas, não estão a dar um exemplo. Merecem parabéns todos os que atuam, mas quem quiser fazer um exame crítico, vai notar que o que eles fazem é muito digno de louvor, mas - não por culpa deles, evidente, é a estrutura, é o mundo em que vivemos - o que fazem é muito pouco em relação ao que se fazia há poucos anos atrás, e aquilo que a Igreja está a mandar.
Por aqueles que são responsáveis pela pastoral. Hoje em dia há maestros nas igrejas que nem têm fé. Há uma boa vontade muito grande da parte desses maestros, talvez porque ganham dinheiro, coisa que antigamente nós não ganhávamos, nunca. Mas, também não é por aí que me bato, acho que devem ganhar quando é justo que ganhem. Mas, não têm formação... têm uma formação de boa vontade, talvez, mas não têm uma formação de fé profunda que os leva a cantar o som da Igreja.
Faz uma diferença muito grande. Porque uma coisa é um maestro que vem ali fazer aquelas horas porque lhe pagam, ou coisa parecida, outra coisa é aquela pessoa que de manhã até à noite, em toda a sua vida, se dedica de alma e coração a um serviço que para ela é um tempo de oração, é um tempo de louvor a Deus, é um tempo de união com Deus, é um tempo da sua vida espiritual muito importante. Isso é tudo.
Melhorar as Eucaristias desta forma também ajudaria, eventualmente, a atrair mais as pessoas?
Evidente. Sei que estamos a precisar de ter uma solução e precisar de fazer um caminho, mas eu não sei dar a solução. Agora, com 83 anos, podem-me pedir o que eu posso fazer de boa vontade, porque graças a Deus ainda tenho um coro, e ainda continuo a cantar com frequência.
O Coro de Santo Inácio. A música continua a fazer parte da sua vida diariamente?
Sem dúvida. Não é só para agora, porque o Coro de Santo Inácio tem uma missa por mês numa igreja, e uma vez por mês, às vezes duas, canta em lares de terceira idade que nos convidam, a que nós nos propomos a cantar, a animar um serão, geralmente sempre àquela hora a seguir à sexta e antes do lanche, entre as três e meia/quatro e meia, ou entre as quatro e as cinco, conforme os tempos do ano, e que é uma hora que é muito prática para eles. Às vezes, ao domingo ou sábado, quando têm os familiares a visitar também aproveitam este tempo de convívio.