Dez anos depois do referendo, qual o peso da desinformação no Brexit?
- 23/06/2026 02:44
- Redação
Um dos exemplos é o que se passou nas eleições locais no Reino Unido, que "reacenderam o alarme em relação à desinformação e à manipulação dos eleitores". A própria Comissão Eleitoral do Reino Unido alertou que as informações falsas ou enganosas podem espalhar-se rapidamente durante as eleições e as ferramentas de Inteligência Artificial tornaram mais rápida e barata a produção de deepfakes convincentes (vídeos, imagens ou áudios criados ou alterados para fazer parecer que uma pessoa disse ou fez algo que, na realidade, nunca aconteceu). Mas a Europa está, também, ameaçada pela desinformação que promove narrativas anti-sistema que ameaçam a democracia.
O referendo de 2016 no Reino Unido revelou uma nação profundamente dividida, com 51,9% dos eleitores a optar por abandonar a União Europeia. Embora o referendo tenha decorrido sem grandes problemas, a Comissão Eleitoral do Reino Unido informou ter recebido mais de mil queixas sobre material de campanha. De acordo com o think tank grego Demotrust, "o caso do Brexit demonstrou que a desinformação direcionada tem o potencial de manipular os processos políticos e minar o funcionamento institucional, mesmo nas democracias mais desenvolvidas". Estudos constataram que os bots no Twitter impulsionaram mensagens políticas durante a campanha, particularmente a favor da saída, para depois desaparecerem após o fecho das urnas. Outros estudos mostraram que a Rússia esteve na origem de muitas destas contas.
Vários anos após a votação, as alegações desmentidas persistem. “Dois terços do público já ouviram a afirmação de que o Reino Unido envia 350 milhões de libras por semana para a UE e 42% deles ainda acreditam que é verdade”, de acordo com um relatório de 2019 do UK in a Changing Europe.
O Brexit foi um dos vários escândalos globais de interferência estrangeira e de manipulação eleitoral que os especialistas consideram, de um modo geral, um alerta para a Europa no combate à desinformação, encarando-a como uma questão de segurança. O Brexit contribuiu para o impulso político por detrás de iniciativas de governação digital, como a Lei dos Serviços Digitais e o Código de Práticas da UE sobre Desinformação. Mas mesmo com toda a legislação produzida, os métodos de interferência e influência estrangeira na política expandiram-se através das redes sociais - como no referendo de 2016 - para “veículos mediáticos pseudocientíficos” mais complexos, ou seja, sites que imitam o jornalismo tradicional, segundo o departamento de Assuntos Globais da Universidade de Navarra. “A quantidade avassaladora de desinformação, meios de comunicação pseudocientíficos e informações falsas amplificadas por inteligência artificial representa uma séria ameaça à integridade e à democracia”, alertou o mesmo departamento.
Partilhando ameaças comuns, particularmente através da Rússia, o Reino Unido e o bloco comunitário assinaram também, no ano passado, uma nova Parceria Estratégica de Defesa, que, de acordo com o Centro de Política Europeia, inclui colaboração tecnológica, como a ciberdefesa. A Comissão Eleitoral do Reino Unido testou uma ferramenta de deteção por IA para combater a desinformação antes das recentes eleições locais. A UE financiou projetos de verificação de factos, como o Observatório dos Media Digitais da Hungria, que desempenhou um papel fundamental no combate às notícias falsas relacionadas com as eleições hungaras. Apesar destes esforços, a BBC noticiou que os chatbots com IA estavam a fornecer informações enganadoras aos eleitores antes das eleições. E a UE afirmou que quase 80% dos europeus temem o impacto da desinformação e da influência estrangeira nas eleições futuras.
No seu relatório, a Euranet Plus assinala que, para a maioria do público britânico, "as consequências do Brexit estão a tornar-se impossíveis de ignorar". Um relatório parlamentar da UE, de junho de 2025, "constatou que o Brexit levou a um aumento da imigração para a Grã-Bretanha — o oposto do efeito desejado", enquanto uma "análise do National Bureau of Economic Research (NBER) revelou que o Brexit reduziu o Produto Interno Bruto do Reino Unido até 8% até 2025, enquanto o emprego caiu 4% e o investimento, até 18%". É neste quadro que "uma sondagem da YouGov, realizada em Fevereiro deste ano, apurou que 55% dos britânicos apoiariam o regresso à UE".