Mão Morta, Pedro Abrunhosa e Sérgio Godinho nos 50 anos do Bando dos Gambozinos
- 09/07/2026 04:24
- Redação
Começaram em 1975, logo a seguir à Revolução, e já ensinam há cinco décadas sob o mote da “arte ao serviço das crianças”. O Bando dos Gambozinos, uma associação cultural sediada no Porto, apresenta este sábado, no Teatro Rivoli, o “Concerto dos Amigos” com a participação de vários artistas, como os Mão Morta, Sérgio Godinho ou Pedro Abrunhosa. O programa celebrativo arrancou esta terça-feira e prolonga-se até dia 11 de julho com várias outras apresentações, antes do encerramento, no Rivoli.
A banda vai subir a palco com "os alunos da escola", uma "participação" que pode ser encarada por alguns como inusitada. Para o vocalista, no entanto, faz parte da aprendizagem. "É muito importante que uma escola utilize a arte como forma de aprendizagem, não só de aprendizagem artística, mas de aprendizagem como ser humano”, sendo disso exemplo o Bando dos Gambozinos, diz Adolfo Luxúria Canibal.
“Utilizar a arte para fazer crescer esses seres humanos, com essa abertura ao outro, eu acho extraordinário e essencial”, acrescenta.
O Bando dos Gambozinos é uma associação cultural sem fins lucrativos que teve como atividade fundadora, na altura do pós 25 de abril em 1975, a música, numa altura em que “aquilo que se fazia do ponto de vista artístico, especialmente musical, era muito pobre em Portugal”, explica Suzana Ralha, uma das fundadoras.
O nome da associação não surgiu do acaso. “O Gambozino é uma coisa que não existe e, ao não existir, existe apenas na nossa cabeça e, portanto, é diferente de pessoa para pessoa”, explica Suzana Ralha, diretora e cofundadora do Bando dos Gambozinos, que acredita que este foi, precisamente por isso, o melhor nome que se poderia ter dado à associação há 50 anos. “Só quando somos pequenos é que conseguimos acreditar em coisas impossíveis”, comenta Suzana, que sublinha ser “uma pena perdermos” esta capacidade com a idade.
Suzana e outros fundadores — Manuel António Pina ou José Luís Borges Coelho, por exemplo — olharam para as crianças com menor acessibilidade a este mundo e perguntaram “como é que a arte ajuda essas crianças" e "como poderia ser útil" para começarem a desenhar aquilo que, mais tarde, batizaram como Bando dos Gambozinos.
Hoje, os “gambozinos” têm à sua disposição um leque de propostas que vão muito mais além da música: teatro, ballet, xadrez, escrita e poesia são apenas algumas das atividades oferecidas.
São muitos os que já passaram pela instituição durante estas cinco décadas, fosse exclusivamente pelas atividades extra-curriculares, ou por serem alunos da escola primária que o Bando dos Gambozinos também integra. Suzana Ralha explica a principal diferença do método de ensino que o bando dos gambozinos adota em comparação às escolas tradicionais. "Na educação artística, a criança está ao serviço da arte. Na educação pela arte, é a arte que está ao serviço das crianças”, explica.
“A arte é um ingrediente fundamental no crescimento das crianças”, afirma a diretora, para quem é importante explorar as diversas formas de expressão ainda durante a primeira infância. “Temos muitas línguas dentro de nós. Se elas não forem exploradas, vão-se encolhendo em detrimento daquelas que são.” Desta forma, Ralha acredita que as crianças crescem “mais robustas” e desenvolvem melhor a capacidade de observação e o olhar crítico, bem como as suas habilidades sociais.
Apesar do contexto da fundação da associação, Suzana Ralha garante que "a questão partidária não se coloca" na escola. Os valores que fundaram o Bando dos Gambozinos continuam, no entanto, a ser os mesmos, assegura Suzana Ralha, sem deixar de sublinhar a importância da adaptabilidade ao presente e às mudanças.
“Há valores que, se calhar, são um paralelo ou um denominador comum entre um comunista e um cristão, justiça, igualdade, bondade, gratidão, capacidade de insurgência. Por outro lado, nós não temos nos Gambozinos qualquer mistura entre as opções político-partidárias dos seus professores, que são muito variadas, e o trabalho com as crianças”, garante a diretora.
Entre os valores que caracterizam a associação, a “cooperação versus competição”, a empatia e a responsabilidade são alguns dos sublinhados por Suzana Ralha. O ato de errar é também um dos mais importantes. “O erro é muito importante, o fazer disparates é muito importante para percebermos a consequência”. E é assim que as crianças vão aprendendo, não só a matemática e o português, mas também as artes, com o objetivo de “abolir” o “sentimento de culpa, da gravidade do erro”, conta a cofundadora.
E o que mudou nas crianças em 50 anos? As crianças de agora serão muito diferentes dos primeiros “gambozinos”? Suzana Ralha acredita que são gerações muito diferentes. “As crianças de hoje são crianças da era da imagem. Para elas, é menos intuitivo o trabalho, as tarefas prolongadas, os tempos de concentração e aquilo que tem a ver com a manualidade”, exemplifica a cofundadora, que assinala, igualmente, outros fatores que podem explicar essa diferença. "As famílias também vivem situações diferentes. Há muitas famílias com problemas financeiros, precárias, assustadas e as crianças também são filhas disso”, admite.
Por outro lado, há outras habilidades que a nova geração desenvolveu em relação às crianças de antigamente. “São inteligentes, são muito precoces. Individualmente muito precoces. Socialmente parece-nos que talvez não”, refere Ralha. “Há mais lentidão em incluírem o grupo, incluírem os outros todos com a mesma importância que se impõem a si próprios ou a sua família mais próxima”, explica.
Este encontro no Rivoli é, no entanto, uma prova de que o contrário também é possível: vai reunir o grupo dos "gambozinos", juntando séniores, adultos e crianças. "A música tem esta fantástica capacidade de unir pessoas de qualquer parte do mundo e de qualquer estética”, remata.