Valter Hugo Mãe: “Devia levar a poesia a apanhar sol, mas nunca tenho tempo”
- 09/07/2026 11:35
- Redação
O autor que está a lançar o romance “O Século dos Imbecis” (ed. Porto Editora) diz a rir que numa altura em que a “poesia está nas ruas”, ele “devia levar a poesia à rua, a apanhar sol”, contudo admite: “Nunca tenho tempo”.
Embora não escreva poesia por agora, Valter Hugo Mãe considera que os seus “romances são poéticos”. De 1996, ano em que se estreou na edição de livros, o autor que já venceu entre outros o Prémio José Saramago, considera que muito mudou.
“Gostaria talvez, por algum resto de candura, achar que o escritor de 1996 é o mesmo de 2026, mas não é. Acho que virei uma pessoa completamente diferente. A literatura permitiu que eu visse o mundo de um modo muito diferente. Na altura, talvez fosse um poeta espantado com a maravilha e hoje serei um poeta mais espantado com o horror”.
Talvez esse espanto com o horror lhe tenha levado à escrita do novo romance em que explora a história de Agilulfo, um Marquês que vive em tempo de República.
“É com alguma perplexidade que escrevo hoje, a partir de um ponto de vista mais fantasioso e mais encantado, mas é certamente a denúncia de um ponto de partida menos seguro de que a realidade é prestável”, indica.
Sobre a história do novo livro, Valter Hugo Mãe conta que a personagem de Agilulfo “é uma sobra de uma nostalgia qualquer de um regime que não existe mais”.
“Ele é um ser fantástico que quando sobe a montanha fica brilhante, absolutamente inteligente, maravilhoso e até saudável. E quando desce a montanha fica burro e destituído, inclusive fisicamente porque vai adoecendo”.
Esta é uma metáfora que serve ao autor para falar sobre a questão da ignorância que atravessa o romance. “O Agilulfo acaba por ser uma espécie de unidade de medida para verificarmos nos outros uma escolha mais ou menos leviana que ao invés de tender para o conhecimento, tende para o lúdico”, aponta.
Num século de informação como o que vivemos, até que ponto preferimos resistir ao conhecimento? A questão inquieta Valter Hugo Mãe que traz isso para o livro em forma de satírica.
Nas palavras do autor “a questão da ignorância e do conhecimento é uma questão premente da nossa época”. “Atravessarmos um tempo absolutamente privilegiado no acesso à informação e por isso nunca como agora se pôde massificar a informação”, diz.
Valter Hugo Mãe dá como exemplo “todo o tipo de gadget e de maquinetas” que compara a “próteses nas mãos” que deveriam “potenciar” o Homem como “indivíduos sapientes”, mas reconhece que geram o contrário.
“Parece que nos demite de possuir de verdade o conhecimento. Acho que isto é um é dos grandes paradoxos da contemporaneidade. Esta fortuna mirabolante, absolutamente maravilhosa de termos todos acesso ao que se sabe, mas ainda assim, parece que, afinal, não é um propósito da humanidade”.
O autor vai mais longe nesta reflexão sobre o tempo presente. “Eventualmente não somos detentores de um caminho para o conhecimento. Parece que isso é suficiente e é triste”, classifica.
“Correram-se estes séculos para que chegássemos a essa grande fortuna de saber tudo o que é possível saber, e, no instante em que podemos saber tudo o que é possível, preferimos o lado lúdico e ridículo da existência e não o lado erudito”, remata.
Qual o poder da arte, e em particular da literatura foi o que questionamos a Valter Hugo Mãe. O escritor considera que “a literatura não poderá demasiado, mas poderá testemunhar”
“A arte retrata as épocas com uma fidelidade que nem os documentos burocráticos e administrativos conseguem. A arte carrega um lado profundamente subjetivo, onde vem inscrita a emoção e uma dimensão mais intuitiva daquilo que é ser-se gente”, diz.
Na opinião de Valter Hugo Mãe, “ao longo dos tempos, a arte é uma prova que serve de testemunha da subtileza do ser humano, mas a subtileza está a perder-se e vai-se percebendo uma certa desumanização”, onde diz o escritor há uma “condição mais superficial”.
Tal como em outros livros de Valter Hugo Mãe, também em “O século dos Imbecis” a figura feminina assume um papel redentor.
“Essa inscrição do feminino é absolutamente essencial para um equilibro e para uma salvação da humanidade”, refere, acrescentando que “a história dos homens, a partir de um ponto de vista masculino está num beco sem saída, num fim de História e de tempo”.
O livro que conta com uma capa com ilustração do artista Albuquerque Mendes marca o início de uma tetralogia. “Eu funciono muito por ciclos de quatro livros e este dei-lhe o nome ‘Crimes e Vindouros’ – terão algo que ver com o crime que cometemos hoje e deixamos de herança para as próximas gerações”.
“Eu talvez seja muito estranho a escrever. Comecei a escrever as primeiras páginas de ‘Século dos Imbecis” há 20 anos e o livro que estou a escrever agora já teve algumas páginas publicadas num jornal há cerca de 16 anos”, explica o autor.
Sobre o seu processo de escrita, Valter Hugo Mãe confessa: “Os livros plantam-se na minha imaginação por alguma razão e depois acabam por ser escritos, porque me assombram. Perduram no meu pensamento. Não me permitem ignorá-los e chega a um instante em que se torna essencial materializá-los, para que eu me possa desassombrar”.