Como Portugal escapou ao "anticiclone ómega" e ao aumento das mortes na onda de calor
- 10/07/2026 01:30
- Redação
Rita Sá Machado também fez uma declaração que apontava para a necessidade de esperar ainda alguns dias, porque os efeitos das ondas de calor, em termos de excesso de mortalidade, demoram algumas semanas. O agravamento do estado de mobilidade cardiovascular e respiratório, muitas vezes não é síncrono com a onda de calor.
A diretora-geral da Saúde referiu-se a esse aspeto e os números do excesso de óbitos ainda são provisórios. Desejo que tenhamos excessos de mortalidade baixos, mas a severidade da onda de calor na Europa Ocidental nos países que referiu foi diferente.
A onda de calor em Portugal foi intensa, provocou este excesso de mortalidade e de hospitalizações, mas não foi tão severa como nos outros países. Voltando ao relatório do Copernicus , e para os recordes de temperatura de junho associado a essa onda de calor, vemos que eles se manifestaram precisamente mais em Espanha, em França e em Inglaterra.
Em Portugal, tivemos a entrada da depressão a noroeste que nos trouxe algum ar marítimo e que fez com que a severidade das temperaturas se atenuasse. E tivemos o anticiclone dos Açores a impor-se sobre o nosso território, principalmente na zona litoral, onde vive a maior parte dos portugueses.
Temos temperaturas no interior muito díspares face às temperaturas do litoral, mas temos muito mais gente a viver no litoral. Por isso, sempre que temos este contraste de temperaturas muito grandes no interior e no litoral, há temperaturas mais amenas, com origem nos fluxos atmosféricos impostos pelo anticiclone dos Açores, com o vento de norte mais marítimo, que aligeira e mitiga os impactos sobre a saúde pública, felizmente para os portugueses.
Quando comunicamos esta informação, é muito importante dizer que isto deve-se a este mecanismo. Se tivéssemos a cúpula de calor mais sobre o nosso território, se este anticiclone estivesse um pouco mais para sudoeste, poderíamos ter tido exatamente a mesma severidade da onda de calor de junho que tiveram os países que nomeei, com maiores excessos de mortalidade.
Na onda de calor de junho, tivemos um anticiclone – que não era o anticiclone dos Açores, é preciso dizer isso claramente – como um bloqueio em forma de ómega, que esteve ali estacionário bastante tempo na Europa Ocidental, trazendo-nos aquecimento. O grande aquecimento da superfície, não só pela compressão do ar descendente, foi também ele realimentado – porque não temos nebulosidade – pela chamada "retroação positiva", devido ao facto de os solos estarem quentes.
Temos então uma dissecação e o aquecimento muito mais intenso da superfície atmosférica. Por isso é que tivemos anomalias de 10 a 15 graus na onda de calor em relação ao normal no sudoeste de França.
Este tipo de configurações e a frequência das ondas de calor já estão a aumentar. Os modelos climáticos de alta resolução globais mostram há muito tempo claros aumentos de frequência de ondas de calor e da severidade, que tem a ver com a persistência deste tipo de configurações atmosféricas. Este sinal de aumento das ondas de calor e de severidade diz respeito a praticamente toda a Europa, não sendo uma questão localizada.
No relatório especial sobre os impactos da diferença do aumento de 1,5 para 2 graus no calor extremo no mundo, em vez de termos algumas centenas de milhões de pessoas sujeitas a ondas de calor, passamos para 1 a 2 mil milhões de pessoas. É uma coisa mesmo desproporcionada.
Os resultados dos modelos climáticos são muito fiáveis na caracterização deste aumento de temperatura regional e destes extremos de temperatura de uma forma omnipresente sobre o território dos nossos continentes e também da Europa.
Coordenou cientificamente o Roteiro Nacional para a Adaptação até ao final do século. No cenário intermédio, a partir de 2071, nesse documento aponta-se para a probabilidade de seis ondas de calor por ano. Ora, de acordo com o Instituto Português do Mar e Atmosfera, já se registaram exatamente seis ondas de calor este ano. Isso significa que já estamos a viver o clima projetado para daqui a 40 anos?
Não. Temos de ver se essas ondas de calor estão no mesmo espaço, nas mesmas estações, se diz respeito a Trás-os-Montes, ao Alentejo ou a Lisboa.
Nas projeções climáticas, estamos a falar de médias de 30 anos e não as podemos comparar com o número anual. Podemos ter muitas ondas de calor este ano, mas para o ano podemos ter menos.
Sempre que falamos de clima, não podemos avaliar uma mudança sem olhar para a variabilidade. Por exemplo, nos últimos anos, tínhamos tido anos de seca, com muitos défices de precipitação e, por exemplo, no último inverno, tivemos uma precipitação muitíssimo anómala.
Não é por termos tido alguns anos de seca ou um ano de precipitação muito intensa que vamos dizer que, afinal, nem há seca ou o clima é muito húmido. O que passa ao nível de um ano, não passa de um sinal.
Existem várias definições de onda de calor. No Roteiro Nacional para a Adaptação, que liderei cientificamente, a definição de onda de calor é a da Organização Mundial de Meteorologia, que são pelo menos cinco ou mais dias em que a temperatura máxima está acima do percentil 90. Penso que o IPMA não segue esta definição. Quando falamos em seis ondas de calor, temos que as registar sempre no mesmo sítio.
O que digo é que existem várias correntes nos saberes e diferentes definições de onda de calor. Existem duas, que são as mais preponderantes, que retratam o fenómeno de maneira ligeiramente diferente, mas todas elas apontam para um aumento da frequência e da severidade das ondas de calor. Ou seja, não se contradizem. Têm nuances de interpretação e de impactos sobre a sociedade. Não fiz ainda as contas ao número de ondas de calor deste ano.
De acordo com o IPMA – consultando o seu site – consideram que ocorre uma onda de calor quando num intervalo de pelo menos seis dias consecutivos, a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio das temperaturas máximas diárias, no respetivo mês, para um determinado período de referência.
Lá está, é uma definição diferente daquela que foi utilizada no Roteiro. Ainda bem que fala sobre essa questão, porque quando falamos das projeções de ondas de calor, estamos a referir-nos ao "verão estendido".
Quando temos uma onda de calor em fevereiro, pode ter impacto sobre os ecossistemas, mas raramente tem impacto sobre a saúde pública. Uma onda de calor em fevereiro é muito menos severa para as pessoas do que uma onda de calor no fim da primavera ou no verão.
Temos de definir se estamos a falar de ondas de "verão estendido" – que é o que eu defendo, porque o verão está em extensão, está a ser mais alargado – ou se estamos a falar de ondas de calor de inverno, porque estas, do ponto de vista da saúde pública, têm muito pouco ou nenhum impacto.
A legenda da figura no Roteiro Nacional de Adaptação fala em ondas de calor por ano.
Não, são ondas de calor por ano no "verão estendido". É uma grande diferença, por isso, ainda bem que falou sobre isso. No "verão estendido", estamos a falar de ondas de calor entre março e novembro.
Outra questão relevante na adaptação às alterações climática são os chamados abrigos ou refúgios climáticos. Mas, por exemplo em Lisboa, quando as temperaturas subiram, fecharam os parques e zonas mais frescas.
Fecharam-se os parques por causa do risco de incêndio. Infelizmente, no sul da Europa, no Mediterrâneo, temos um grande problema. Quando temos ondas de calor, défice de precipitação, e a vegetação muito seca, temos um perigo meteorológico de incêndio muito grande.
Estamos a gerir duas coisas, porventura, de uma maneira ainda pouco estruturada. Numa onda de calor, os parques e os jardins são zonas em que as pessoas podem ter temperaturas um pouco mais baixas. Mas diria que não são muito mais baixas. É preciso também, às vezes, desmistificarmos um pouco essa questão.
As temperaturas dos nossos parques são um pouco mais baixas numa onda de calor e se tivermos uma noite tropical, com 30 graus na malha urbana, podemos ter dois ou três graus a menos se formos para um jardim. Mas não é muito mais, não é isso que resolve o problema, não vamos deixar ter uma noite tropical num parque. O problema é que isso está caracterizado de uma forma muito insuficiente.
Somos reativos. Todas as iniciativas que possam salvaguardar a nossa população são de louvar. No caso de Lisboa, foram abertos dois pavilhões e algumas estações de metro durante a noite, para os sem-abrigo se refugiarem. Houve um conjunto de diligências da Direção-Geral da Saúde, e das estruturas municipais e freguesias para que pudessem albergar pessoas, e havia um portal, até, com essa informação.
O que me parece é que a população mais vulnerável, que são os mais idosos, normalmente não têm a literacia digital e o acesso a essa informação para se poderem proteger.
É durante o inverno que, por exemplo sobre as ondas de calor, devemos ter iniciativas claras de localização dos refúgios climáticos, para as pessoas perceberem o que é. E comunicar para a população vulnerável, como os sem-abrigo, toda essa informação estruturante no município, durante todo ano, porque as pessoas também morrem de frio. Dizer que as pessoas devem ir para um local e que a informação está na internet, não resolve os problemas.
Temos de ter uma estrutura municipal que comunique com o cidadão comum e com muita incidência sobre as pessoas mais vulneráveis, sobre as estruturas municipais a que as pessoas podem recorrer, no caso de uma vaga de frio e numa uma onda de calor.
Muitos dos nossos idosos não vão à internet, têm uma literacia digital baixa. Há que tentar chegar às pessoas mais vulneráveis de uma maneira mais consequente e não em cima das incidências dos extremos. Tem de ser uma rede estruturada de refúgios climáticos, que as pessoas saibam que existem, sempre que existe um problema de temperatura extrema, a que possam recorrer para se protegerem e saberem quais são os horários de funcionamento, bibliotecas, etc.