Helena Ferro Gouveia: "NATO teria muito a ganhar com adesão da Ucrânia"

  • 10/07/2026 01:15
  • Redação

Cimeira da NATO na Turquia. Uma Europa com mais Defesa, mas menos Estados Unidos da América, que comemoraram esta semana 250 anos desde a independência. Ucrânia, que continua a querer fazer parte da Aliança Atlântica. Hamas, que deixará o Governo da Faixa de Gaza. E o funeral do líder supremo do Irão. São estes os temas desta semana no Escala Global.

A convidada é Helena Ferro Gouveia, analista de assuntos internacionais, sempre complementada pelo comentador residente do programa Manuel Poêjo Torres.

Decorreu esta semana em Ancara a Cimeira da NATO, com a presença da quase totalidade dos principais líderes mundiais. A posição da Turquia, país-sede deste encontro, é precisamente o primeiro ponto por onde arranca a nossa conversa.

“A Turquia está a aproveitar um vazio deixado pelos europeus para fazer aquilo que é a sua projeção de poder”, analisa Helena Ferro Gouveia, que caracteriza a nação liderada por Tayyip Erdogan como “uma verdadeira autocracia, onde as questões democráticas não têm o menor interesse”. Do Presidente turco, entende que beneficia de “um fascínio por homens fortes” nutrido por Donald Trump (tal como, refere, Vladimir Putin ou Xi Jinping).

Numa viagem pela história da relação, nos últimos anos, entre o espaço europeu e a Turquia, a convidada desta semana do Escala Global recorda a ocupação, que se mantém, de parte de Chipre (membro da União Europeia) e as dificuldades impostas no processo de adesão à NATO da Suécia e da Finlândia.

Já Manuel Poêjo Torres, comentador habitual neste espaço, começa por sublinhar o “sucesso” que teve esta Cimeira, na medida em que “não houve pontos de inflexão naquilo que são as grandes relações entre Estados” – excetuando, refere, “o anúncio feito, provavelmente sem ponderação, em que Donald Trump diz diretamente que vai cessar todas as relações comerciais com Espanha”.

Acerca do que sai deste encontro anual, lembra o “programa de investimento para a dronização da Europa”, “um apoio de investimento na Ucrânia de mais de 100 mil milhões de dólares para 2027”, “a criação de programas industriais entre a Europa, a Turquia e a Ucrânia” e, reforça como sendo o tema de maior importância para o Presidente Volodymyr Zelensky, “a licença de produção de mísseis Interceptor para alimentar as baterias Patriot”.

Questionada sobre se está a Ucrânia mais próxima de poder integrar esta aliança atlântica, Helena Ferro Gouveia recorda que “há uma enorme pressão nesse sentido” e que acredita que “a NATO teria muito a ganhar” com essa entrada.

“A Ucrânia, neste momento, é o exército europeu mais experimentado em guerra. Apresenta-se agora como um país que é o campeão mundial dos drones. Vimos isso nas retaliações do Irão sobre os países do Golfo, vimos os países do Golfo assinar protocolos com a Ucrânia”, sublinha.

“George Washington, quando foi nomeado presidente dos Estados Unidos da América, entrou em choque, e não queria de todo assumir as rédeas. Achava-se um homem de combate e não queria de forma alguma concentrar em si tanto poder. É famoso por dizer que aquele que deve ser presidente dos EUA deve ser aquele que não o quer ser, aquele que não quer esse poder. Nós neste momento temos uma Casa Branca que é liderada por um homem que é precisamente uma antítese direta de George Washington”, entende Manuel Poêjo Torres, numa reflexão sobre as palavras do presidente-fundador do país.

Helena Ferro Gouveia vê Trump como “um produto da sociedade do espetáculo” e da “televisão norte-americana”. Numa comparação com o líder ucraniano, acredita que sendo igualmente um produto da mesma “sociedade do espetáculo”, marca pela diferença por ser “um homem que põe os interesses do Estado e do seu país” adiante.

Sobre a sociedade norte-americana, em particular, salienta a “a polarização” que diz existir, e que será clara nos partidos políticos – tanto para o lado republicano, com o “movimento maga”, como com o lado democrata, numa “viragem à extremíssima esquerda”.

Perante as informações que dão conta do abandono do governo de Gaza pelo Hamas, ambos os participantes desta semana do Escala Global têm dúvidas que seja exatamente assim.

“Acho muito difícil”, esclarece Helena Ferro Gouveia, explicando que “o Hamas não está desarmado” e que quem observa o que se passa pelo Médio Oriente percebe que tudo pode ser estratégico, na medida em que “temos o manipulador de marionetas, que é o Irão, e depois temos as marionetas, que é o Hamas, o Hezbollah, os Huthis”.

“Em papel e em marketing tudo isto é muito interessante, mas a verdade é que fazer uma reforma deste nível, com o investimento que foi anunciado, é muito complexo, é muito desafiante. Inclusivamente já foi anunciado que a grande parte deste financiamento evaporou-se e que há falta de financiamento para a reconstrução de Gaza”, recorda Manuel Poêjo Torres acerca dos planos de Trump para aquela região, encabeçados pelo Conselho de Paz liderado pelo presidente norte-americano.

Os números, e as imagens, apontam para milhares de participantes nas cerimónias fúnebres do líder supremo do Irão, Ali Khamenei. A pergunta que se impõe é, por isso, se se trata de uma demonstração de poderio e de adesão à forma de poder proposta pelos aiatolás (ou não).

Poêjo Torres considera que é “aquilo que sempre foi”. “Muitas daquelas pessoas estão ali forçadas, porque têm que manter as aparências, porque o Estado teocrático fechou-se sobre si mesmo, porque os Estados Unidos não terminaram aquilo a que se propuseram. Deixar no poder um Estado patrocinador de terrorismo, um Estado assassino e um Estado que continua a perseguir a sua população é fórmula para o desastre socioeconómico naquela região”, critica.

“É uma tentativa de projeção de força de um regime que está moribundo, mas é um regime que exerce uma pressão, uma opressão sobre a sua população”, analisa Ferro Gouveia, preocupada não apenas “com o perigo naquela região do globo”, mas também para “o nosso modo de vida”, porque, entende, é o principal patrocinador internacional de terrorismo”.

“Estão a aproveitar o funeral para tentar mostrar prova de vida. As pessoas que lá estão precisam também de sobreviver. Algumas acreditarão no regime, mas são a minoria aliás. Se virmos as imagens aéreas percebemos há ali muitos buracos. Não são as manifestações que vimos no passado”, termina.

  • Fonte: Rádio Renascença
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