Patrícia Portela: “Fizemos um grande pacto com o progresso e esquecemo-nos do futuro”

Patrícia Portela: “Fizemos um grande pacto com o progresso e esquecemo-nos do futuro”

  • 10/07/2026 10:11
  • Redação

“'A Patrícia estava possuída pelo livro e quando os autores estão possuídos pelo livro só pode ser bom', disse-me o Zeferino Coelho com aquela simplicidade dos magnos editores”, conta Patrícia Portela sobre o que lhe disse o seu editor sobre o seu mais recente livro “Hoje, 3 de Maio” (Ed. Caminho)

O romance levou-lhe anos a escrever. Pelo meio chegou mesmo a publicar outros. Mas mesmo agora que o livro já está nas livrarias continua a ser-lhe “difícil falar” desta obra.

“Foi feito com muita devoção e dedicação”, explica Patrícia Portela numa entrevista à distância feita a partir de Madrid. Foi nessa cidade, onde fez uma residência literária, que a autora passou dias a fio a olhar o quadro “Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808” do pintor Francisco de Goya

A pintura, que está no Museu do Prado, retrata um pelotão de fuzilamento perante as suas vítimas, algumas caídas e outras de braços no ar. A imagem despertou na autora uma miríada de questões.

Patrícia Portela mergulhou na tela de Goya sem boia de salvamento. “É um olhar sobre um quadro que olha um determinado evento que, por sua vez, nos obriga a olhar para uma época, e que nos obriga a olhar para certos princípios e orientações na sociedade, e volta-nos a obrigar a olhar para as pessoas. É uma espécie de caleidoscópio”, reflete a autora.

Neste “puzzle”, como lhe chama, a autora quis colocar o leitor no centro. É ele que está no palco e olha de frente para cada uma das personagens que salta do quadro de Goya e que ganham nome e histórias.

“Ainda não tinha pensado sobre isto, mas se puder escolher um tema, uma definição para falar deste livro, acho que é sobre o impacto da maneira como vemos a força. É sobre o poder”, diz Portela.

“É um livro muito escrito para as pessoas que estão aqui agora e para as pessoas que vierem e para aqueles que ainda não foram “fuzilados”, e que, portanto, têm a capacidade de “fuzilar”. Isto para mim é muito violento e ao mesmo tempo muito importante”, sublinha a escritora.

A rir, Patrícia Portela diz que o livro “é muito melhor do que estava à espera”, mas é uma obra que trata um assunto “dramático”.

“Há ali uma sinceridade perante um assunto tão dramático como é um fuzilamento de civis há queima-roupa, absolutamente violento e sem anúncio.” Esta violência retratada por Goya data da época das invasões francesas, mas a autora considera que há paralelos com o que vivemos hoje.

“Apoquenta-me. Estamos a ver um telejornal com horas e horas de violência e acontece-nos dizer ‘não tenho paciência’, ou ‘é sempre a mesma coisa’. Isto é uma obscenidade. Estar a ver uma promoção a uma pasta de dentes ou Gaza a arder, e achar que é tudo a mesma coisa. É um insulto”, critica Portela.

Daí a importância do poder de observação que refere a autora e da capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros que propõe com este “Hoje, 3 de Maio”. “Passamos por coisas tão simples no quotidiano, fazemos o mesmo caminho todos os dias e não vemos”, alerta a escritora.

“Estamos num mundo extremamente visual. A imagem conta mais do que o que acontece e, por vezes, isso é tão absurdo”, aponta a autora que no seu novo romance fala também do tempo presente.

O livro no qual Patrícia Portela propõe ao leitor várias fórmulas de leitura, inclusivamente com diferentes índices como uma espécie de guia, tem uma personagem que a autora diz ser “a Europa”.

É uma mulher que vive em Madrid e trabalha numa instituição europeia. “A Europa continua sempre a interessar-me. Acho que é sempre um grande tema. E agora estou cada vez mais num sítio em que me pergunto se não estaremos no lado errado da história”, interroga-se.

“Eu nasci em 1974 com a Revolução, e os anos 80 e 90, para quem tinha 20 anos, foram um período em que achamos que íamos mudar o mundo, ser melhores, acabar com a fome no mundo, a doença, íamos criar e amar. Eramos completamente fascinados com a tecnologia que inventamos e promovemos, mas de repente criamos uma sociedade em que tudo se compra, até a alma!” critica.

“Fizemos um grande pacto com o progresso e esquecemo-nos do futuro”, aponta. “Acreditava muito que estávamos a pensar bem, mas agora tenho imensas dúvidas que esta Europa seja uma forma de pensar bem, apesar de ser muito europeísta! Eu sou muito a favor de uma Europa comum, mas não sei se é desta e não sei se é neste formato”, indica.

“Eu cresci com a luta contra o armamento nuclear e contra a guerra e agora vê-se uma corrida para a guerra. Isso acho que é um falhanço total da Europa unida que foi construída exatamente para evitar guerras e não para promover um exército, como se está a pensar agora”, volta a criticar Patrícia Portela

A autora, que é também dramaturga e formada em artes plásticas, explica que este é um livro em que tudo “acontece ao leitor de uma forma simultânea”.

“A literatura tem a lógica do papel, que acho muito bonita e essa lógica de ler um livro no papel parece-me uma coisa muito bonita e muito adequada para este livro. Mas eu queria provocar uma sensação de simultaneidade.” Nas palavras da autora, na história “está tudo a acontecer ao mesmo tempo”.

Patrícia Portela admite, no entanto, que não pensou tanto “no formato” do livro, mas mais na ideia de “simultaneidade e de respeitar aquele momento que quis descrever e pensar nas várias perspetivas”.

A propósito deste livro desafiante nas suas diferentes formas de ler, Patrícia Portela acaba a refletir sobre o que lê e os que a leem. “Os mortos não me podem ler, mas eu posso ler os mortos. Isto parece-me uma parvoíce, mas é algo que me consterna. Eu posso falar com todos os mortos que já escreveram, mas só me podem ler os vivos e, portanto, este é um livro muito escrito para agora.”

  • Fonte: Rádio Renascença
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