Padre "Ronaldo". O cético das redes sociais que cresce como fenómeno no Instagram

Padre "Ronaldo". O cético das redes sociais que cresce como fenómeno no Instagram

  • 10/07/2026 14:16
  • Redação

Nascido em novembro de 1994, foi 31 anos depois, no mesmo mês, ordenado como sacerdote. A aguardar por novidades na colocação de padres para o próximo ano, Afonso Sampaio Soares, “um menino de Lisboa”, como se caracteriza, está para já colocado na paróquia da Lourinhã. E é por ali que tem feito furor nas redes sociais. No Tiktok, o chamado “Projeto Lázaro” acumula milhares de gostos e interações. No Instagram, a página paroquial ultrapassou os 13 mil seguidores num espaço de meses.

Um parco utilizador do mundo online, que só tem Facebook em nome próprio, está a tornar-se um fenómeno. Nasceu para esse mundo digital com um vídeo a dar toques numa bola e desde aí o sucesso nas redes sociais não tem parado de crescer.

Responde a perguntas como “Porque Jesus nos pediu para carregar a Sua Cruz?”, explica dias como o de Santo António e faz comparações entre a vida cristã e Cristiano Ronaldo. Tem vídeos ao lado de dinossauros na Lourinhã, nas ruas da cidade e até num campo de futebol (onde demonstra ter habilidades para o desporto). O famoso “six seven”, até já executado pelo Papa Leão XIV, não escapa a estas publicações, que se misturam com incentivos para confissões ou para jovens virem a ser acólitos.

Desafiado para levantar as páginas paroquiais nas redes sociais, tem, em conjunto com os padres colocados na Lourinhã, ajudado a alterar a forma como a Igreja se pode posicionar neste local digital. Acredita ter recebido um sinal de Deus quando, depois de rezar sobre o assunto e de estar “cético” sobre o mesmo, um jovem paroquiano se disponibilizou para filmar e editar os vídeos, ficando livre do peso de tratar das publicações.

Afonso Sampaio Soares, é padre há menos de um ano, nas redes sociais é conhecido como Padre "Ronaldo". Como é que isto começou?

Foi absolutamente imprevisível, porque nunca quis entrar nas redes sociais. Foi através de um pedido de alguns jovens da paróquia da Lourinhã que queriam, no fundo, revitalizar e rejuvenescer as redes sociais.

Tinham, na altura, Instagram, depois também se criou o TikTok, no fundo, para chegar às camadas mais jovens, que, substancialmente, são as que as frequentam com maior incidência. E começámos por fazer o Projeto Lázaro e, a pouco e pouco, fomos percebendo que poderia ser, de facto, um ótimo projeto. O que é que aconteceu: eu estava cético, mas fiz uma oração e pedi a Jesus que, se fosse a sua vontade, me enviasse um profissional.

Acontece que passado uma semana chegou o Tomás, que é um jovem cheio de talento e que está neste negócio, digamos assim, da comunicação, dos vídeos, e tem, de facto, imenso talento. E disse que nos queria ajudar, de livre vontade, ajudar a servir a Deus, ajudar a Igreja e disponibilizava-se para poder contribuir e colaborar com a paróquia da Lourinhã. E eu disse: "está dada a resposta, já tenho o sinal de que preciso".

Então, fizemos aquele primeiro vídeo, que foi o mais icónico, que foi o vídeo do Cristiano Ronaldo, que teve uma amplitude que eu nunca esperava, nunca imaginei sequer. Era para os jovens da paróquia da Lourinhã e chegou a tanta gente... Dizer que o Cristiano Ronaldo é único, tu deves também ser único, porque Deus criou cada um de uma forma única e irrepetível e, portanto, devemos ser quem Deus criou e não inventar uma outra personagem. Somos cada um de nós valiosos como somos.

Neste momento o projeto é da paróquia da Lourinhã. O padre Afonso não usa as redes sociais em nome próprio?

Sim, eu não tenho propriamente acesso às redes sociais. O Tomás grava comigo. Eu, de alguma forma, tenho as ideias e ponho-as em ação nos vídeos. Mas depois há toda uma rede, há umas jovens que fazem legendagem dos vídeos. O Tomás faz a edição. Depois é a Inês, a Constança. Também tiveram mais outros a ajudar, o Emanuel.

Sim, no fundo, nós procuramos estar a par da realidade. Agora fizemos alguns vídeos relacionados com o Mundial, anteriormente com algumas festividades. Fomos acompanhando também as "trends".

Eu vou muito visitar as escolas e os jovens aqui das paróquias, aqui à volta, da Lourinhã. E, no fundo, ia descobrindo essas "trends" e depois fazia ali uma construção em forma de chave. Procurava também partilhar a mensagem cristã.

Comecei a ver que, por aí, havia uma adequação à realidade à qual procurava dirigir-me. E vejo que esta distância me ajuda, como padre, porque eu tenho é que ter tempo para conversar, para celebrar bem a missa, para atender as pessoas com qualidade e com tempo. As redes sociais poder-me-iam tirar muito tempo.

Claro que vou dando indicações: olha que convinha sair neste dia, porque é sobre esta temática, esta festividade, merecia este vídeo. Mas eu procuro não ter uma envolvência demasiado grande.

Eu tenho Facebook, que muito raramente frequento, e tinha Instagram antes de entrar no seminário, depois apaguei, tirava-me muito tempo. E hoje em dia, se porventura tivesse uma página pessoal, seria sempre a este nível institucional, com pessoas da minha confiança, a quem eu dou, no fundo, esta gestão, e eu só procuro gravar os vídeos, ou seja, fazer de ator, digamos assim. Há quem grave, há quem edite, há quem publique, isso tira muito tempo, e também me dá tempo para aquilo que importa na vida do sacerdote.

Não, nunca fui grande fã das redes sociais, nunca procurei estar lá tanto tempo, o Facebook era a forma que eu mais usava, o WhatsApp, hoje em dia, os SMS... Nunca quis perder tempo online, ou perder tempo nas redes sociais, mas de facto é uma coisa que me parece que foi, de alguma forma, gerida e encaminhada por Deus. Porque a forma como apareceu, o sinal que me confirmou, e depois toda esta projeção que tem trazido jovens à Igreja, tem aproximado pessoas afastadas da Igreja de uma relação positiva com a mesma, vejo que de facto há frutos, e por isso vale a pena cuidar da árvore.

Esta entrevista decorre à margem de um campo de férias que está a acontecer, organizado pela paróquia da Lourinhã e por outras paróquias também aqui em redor da Lourinhã. São jovens aqui desta zona. Estes jovens vão acompanhando o projeto da paróquia da Lourinhã, o Instagram, o TikTok, eles estão lá e veem estes vídeos?

Isso é o mais fascinante, porque eu entro nas escolas, e vou visitar muitas na região da Lourinhã, em Ribamar, e todos os miúdos acompanham, mesmo aqueles que de alguma forma não professam a religião cristã, outros que não têm propriamente fé, e vê-se que todos gostam, incentivam, até dão ideias para os novos vídeos. E muitos deles estão aqui hoje no campo de férias, são 60 miúdos, o campo chama-se Cefas, nasceu este ano, é um campo inteiro paroquial, e no fundo é fruto também desta projeção. Tal como o Maranatá, que é um grupo de musicais, de concertos — tivemos dois concertos recentemente —, também nasceu desta projeção do Evangelho de Cristo, e penso que, através destas várias frentes, o Senhor foi chamando muitos jovens das paróquias da Lourinhã e arredores para dentro da sua Igreja, ressuscitando, no fundo, Lázaro. É o chamado Projeto Lázaro, é mesmo isso.

E como lidar com tudo isto? De repente são muitos microfones, são televisões, são rádios, são sites, são jornais, são redes sociais. Acredito que no seminário não lidem diariamente com este foco.

É preciso estar muito bem rezadinho, ir rezando, acompanhando sempre com oração, e procurando corresponder sempre com a audiência da Igreja, pedindo sempre conselhos a quem está, no fundo, com a autoridade para os dizer, ir à televisão sempre passando a mensagem que me move, anunciando que Cristo vive e é ressuscitado, e aproveitando estas ocasiões, porque São Paulo não desperdiçou o Areópago para evangelizar. Pelo contrário, percebeu que era uma grande rede social de então e foi para o Areópago e não teve medo de anunciar o Deus ignoto, que para eles era desconhecido, mas que São Paulo tinha descoberto da sua vida.

Portanto, o grande Areópago dos nossos tempos poderá ser também as redes sociais, como forma de chamar a uma relação, porque pode ser muito precária a maneira como nos pronunciamos e estamos e nos expomos. Mas é um começo de relação, é um começo de conversa, é uma imagem que se passa positiva e pode ser também um incentivo para se redescobrir a fé cristã na sua beleza e na sua exigência.

Noutras conversas sobre este assunto, deram-me uma opinião que gostava de lhe perguntar se concorda, se acha que faz sentido: que as redes sociais são boas para uma primeira fase, a evangelização, mas depois mede-se o seu efeito com a quantidade de pessoas que acedem aos sacramentos, que querem participar nas missas, nas atividades. Vê isso a acontecer por aqui?

Eu, para ser verdadeiro, tenho de dizer que sim, porque tenho visto muitos pais a perguntarem se podem inscrever os seus filhos na catequese. Os filhos a dizerem que querem ir à catequese, porque têm uma relação próxima com o padre, valorizam a sua exposição, têm uma certa estima e afeição pela pessoa do padre — ou pelos vídeos, no fundo —, e isso pode ser uma porta de entrada. Não é absoluto, não é sequer definitivo, pelo contrário, é um começo. Mas penso que, bem usado, com equilíbrio e adequação, servirá como primeiro passo. E tenho visto, de facto, isso: crianças a inscreverem-se na catequese, muita gente na rua a dizer que acompanha e as pessoas que aparecem na confissão, por exemplo. Pessoas que vão à missa, querem ir à missa, querem ouvir palavras. No fundo, nunca esperávamos, através daquele vídeo, ter o impacto que realmente tem, porque há pessoas que dizem: senhor padre, gostei de ouvir aquela palavra, para mim foi muito importante ter ouvido naquele momento, naquela hora, aquela esperança que recebi através daquela mensagem.

Claro que são coisas que o Senhor pega e faz, é Ele que sabe, não podemos é calar-nos, não podemos dizer que não vemos o que vemos, não podemos dizer que não ouvimos o que ouvimos, e dizê-lo com fé, com devoção, com zelo e com humildade também.

Já tive alguns casos. Ou “padre Afonso”, mas há quem me reconheça já fora da Lourinhã. Confesso que não estava habituado, mas o que acho interessante é os testemunhos positivos, que valorizo e que me dão, no fundo, uma certa vontade de continuar, porque se os frutos têm sido bons, acho que vale a pena cuidar da árvore.

Mesmo a fechar, pergunto-lhe só como é ser padre, há menos de um ano, nesta periferia (em relação a Lisboa), uma zona mais rural, em que as pessoas estão mais longe dos vários centros? Que desafios?

Sou padre há sete meses e estou por cá, pelo Oeste, e estou encantado, é uma zona cheia de potencial por descobrir, muito possivelmente às vezes desvalorizada, mas que acho que tem um valor muito grande, em vários sentidos, não só espiritual, como geográfico, etc. O que eu tenho visto é que tem um potencial enorme de evangelização e é preciso continuar o trabalho com zelo, com amor, com afeição. Tenho visto, de facto, essa dispersão. É mais disperso o território, é certo, mas, de facto, é possível congregar, é possível unir.

E tenho visto também no Oeste uma riqueza imensa, gente extraordinária, trabalhadora, generosa, e isso incentiva, dá alento e, de facto, tem sido para mim um bálsamo. Eu que sou de Lisboa, sou menino de Lisboa, mas estou muito bem no Oeste, muito contente por estar aqui, com uma missão. Parece-me que o Senhor me chama nestas terras, por isso continuarei com grande alegria, se Deus quiser, me chamar. O Senhor chama missionários para aqui justamente porque tem um povo grande nestas terras.

  • Fonte: Rádio Renascença
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