"A NATO não pode estar apenas ao serviço dos interesses dos EUA"
- 10/07/2026 15:08
- Redação
A partilha de investimentos na NATO deve ser acompanhada de outra repartição das responsabilidades entre Europa e Estados Unidos. O alerta é do eurodeputado André Franqueira Rodrigues, membro da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com os Estados Unidos.
Sobre as relações transatlânticas, Franqueira Rodrigues admite que alguma normalidade pode advir das eleições intercalares de novembro nos EUA, se estas “recalibrarem o equilíbrio de forças internas nos Estados Unidos”.
Como membro da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com os Estados Unidos, como avalia as relações transatlânticas?
As relações transatlânticas atravessam uma das fases menos vibrantes do último século. Isto deve-se à nova forma como a administração norte-americana encara a União Europeia e ao modo como se relaciona com os seus aliados tradicionais.
A administração Trump tem manifestado alguma hostilidade, se compararmos com a relação amigável dos Estados Unidos com os seus parceiros tradicionais da União Europeia. Isso verifica-se na instabilidade com que se processa a relação comercial, com avanços e recursos em matérias tarifárias, mas também nas palavras dirigidas por Trump aos líderes da União Europeia.
Tal como acontece na economia, as relações internacionais têm de se basear em previsibilidade e em relações de confiança. Não é isto que neste momento acontece, se compararmos com o histórico da relação da Europa com os Estados Unidos, na qual fundamos todo o resto das nossas relações com o mundo.
Quando estes alicerces ficam “melindrados”, como aconteceu nos últimos dois anos, é natural que tenhamos de repensar a nossa relação, não perdendo de vista que esta se baseia sempre numa relação de grande cumplicidade, amigável, de partilha de valores e com a esperança de que vai muito para além do tempo de vida de qualquer administração.
O Parlamento Europeu aprovou recentemente duas peças legislativas necessárias para a implementação do lado europeu do acordo comercial alcançado entre a União Europeia e os Estados Unidos em agosto de 2025. Que diferença fará este acordo?
O que foi aprovado recentemente no Parlamento Europeu constitui uma melhoria face à disposição inicial do acordo de Turnberry. As principais medidas impostas pelo Parlamento vêm dar outro tipo de garantias face a uma administração errática. Sabemos como Donald Trump anuncia um acordo e na semana seguinte pode fazer um tweet ou algum comentário a abalar os alicerces desse acordo.
Temos de ter confiança e esperança de que, desta vez, aquilo que foi já alvo de aprovação do Parlamento Europeu possa ter pelo menos garantias de estabilidade. As relações internacionais, sobretudo nesta fase de grande polarização e incerteza, têm de se basear em estabilidade e em confiança, pelo menos no que diz respeito aos nossos aliados principais. Estamos apostados em fomentar do lado europeu, sendo certo que o nosso interlocutor é uma administração muito volátil.
Os Estados Unidos vão ter eleições intercalares em novembro. Esperar por mudanças no jogo político é arriscado para a Europa?
A Europa percebeu nos últimos dois anos – se é que tal fosse necessário – que tem de investir em simultâneo na sua própria autonomia estratégica em diferentes áreas, mas também no relacionamento com os diferentes países e blocos internacionais que se vão constituindo neste redesenhar das cadeias internacionais.
As eleições intercalares nos Estados Unidos são olhadas com grande apreensão, mas também com grande otimismo. Neste ano em que se celebram os 250 anos da criação dos Estados Unidos – que sempre foram vistos como um farol de liberdade, com relações fortes e seculares com o nosso país – olho para estas eleições como um ponto possível de partida para restaurar a confiança no próprio sistema político norte-americano.
O "terramoto" Trump não acontece apenas nas relações internacionais, mas na própria forma como a política americana tem evoluído a nível interno, com ameaças muito sérias ao próprio sistema judiciário, a determinados direitos e garantias dos cidadãos. Recordo que o Presidente dos Estados Unidos continua a colocar a hipótese de fazer um terceiro mandato, ao arrepio da emenda da Constituição norte-americana.
Estas eleições podem ajudar a reequilibrar e recalibrar o equilíbrio de forças internas nos Estados Unidos e com isso devolver alguma normalidade nas nossas relações. A Europa não pode fazer depender a sua estratégia dos resultados eleitorais norte-americanos. Temos um caminho a percorrer, de fortalecimento da nossa autonomia estratégica, e de lançar mão de instrumentos para estabelecer relações mais fortes e duradouras com outros países, sem descurar aquele que naturalmente continuará a ser o nosso aliado preferencial.
Do ponto de vista da segurança e defesa, a Europa parece abandonada à sua sorte pelo seu aliado ou deve mesmo assumir as suas responsabilidades, como vem pedindo Donald Trump?
Há aqui uma mistura de duas coisas. Temos a necessidade, do lado europeu, de olharmos para as nossas responsabilidades próprias em matéria de segurança e defesa no mundo. Este é marcado cada vez mais por incerteza e polarização no contexto político, com ameaças internas e externas, e, neste sentido, temos também responsabilidades a assumir e trabalho a fazer.
A outra parte diz respeito à forma como a própria NATO deve assumir um papel no novo contexto internacional e como a Europa, dentro do pilar europeu da NATO, deve também assumir essa responsabilidade.
Essa relação preferencial com o nosso aliado não deve ser apenas transacional. A Europa não deve olhar para essa nova responsabilidade de investimento na indústria da defesa como uma forma de compensar o complexo industrial norte-americano, com fortes investimentos de milhares de milhões. Não é disso apenas que se trata.
Temos de olhar para a nossa autonomia estratégica num sentido mais amplo e mais lato. Temos de criar capacidade na indústria europeia para sermos cada vez mais autónomos, menos dependentes. Não é um processo que se faça de um dia para o outro. O processo de decisão europeia é complexo e temos de continuar esse trabalho e esse esforço.
Ajudaria se, à frente da NATO, tivéssemos alguém com uma capacidade e uma visão neste xadrez tão complexo que não se limitasse a ser uma espécie de porta-voz da Casa Branca, como acontece. Não ajuda muitas vezes a termos o contexto e o ambiente político necessário para um equilíbrio diplomático inteligente e estratégico no seio da própria NATO.
Defende o aprofundamento do pilar europeu da NATO ou admite em paralelo o caminho para um Exército europeu?
Temos de fazer um caminho paralelo. O reforço do pilar europeu da NATO implica assumir responsabilidades que neste momento não são tão partilhadas. Não pode ser apenas uma partilha do investimento, mas também das responsabilidades que advêm desse mesmo investimento. Temos imenso trabalho para fazer na interoperabilidade e na coordenação logística e estratégica.
O ramo europeu da NATO ainda tem muito a fazer para poder ter uma força mais autónoma no contexto da NATO. Mas a NATO também tem de reassumir um novo papel neste redesenho do xadrez internacional.
Se os Estados Unidos querem que a NATO e os seus diferentes países tenham maior participação no orçamento, também tem de haver um novo desenho e uma nova partilha de responsabilidades em termos operacionais. Senão, continuaremos a ser apenas uma parte secundária, não só em termos logísticos e operacionais, mas também em termos de decisão.
A NATO não pode ser apenas um organismo que esteja ao serviço dos interesses estratégicos norte-americanos. Tem de ser um palco de concertação de princípios e de valores, de aliados, de defesa e projeção de forças para afirmar estes mesmos interesses. Se for apenas para o interesse norte-americano, temos também de redesenhar a nossa própria participação e fazer esse caminho paralelo que referi.
Veio recentemente de Kiev numa deslocação oficial pelo Parlamento Europeu. Um tema central é o caminho para a adesão da Ucrânia à União Europeia. Está a ser demasiado apressado?
O xadrez europeu é de facto complexo. É uma invenção política que tem resultados, mas que muitas vezes cria frustrações. Não anda ao ritmo das expectativas das diferentes capitais e dos seus líderes políticos.
Vindo dessa viagem, tem de haver um esforço maior no sentido de equilibrarmos o sentido de urgência de um povo há mais de quatro anos em guerra, a lutar também por essa decisão democrática de fazer parte da União Europeia, com a forma como a própria União Europeia tem um processo de adesão, através de meritocracia, do cumprimento de diferentes critérios. Estes são exigentes e implicam que o país candidato faça um processo de cumprimento de diferentes áreas, que vão desde o mercado único até ao Estado de Direito e às reformas que são necessárias nos sistemas judiciários.
Saio de Kiev sentindo essa frustração por parte das autoridades ucranianas com a forma menos expedita com que encaram este processo. É também importante não criar expectativas que possam ser defraudadas ao longo do tempo que temos para este processo.
Sim. Mais importante que isso, há a expectativa de que os diferentes "clusters" sejam abertos o mais rapidamente possível, que seja uma fase mais expedita, e não uma fase tão encadeada de fechar capítulos para abrir outros. Mas as reformas do lado ucraniano também têm de continuar a ser feitas.
A União Europeia é o grande aliado e o grande financiador da Ucrânia. A expectativa que agora tem de ser gerida é o tal equilíbrio que tem de ser feito entre um povo e um país que luta e deseja entrar na União Europeia o mais rapidamente possível, e uma União Europeia que tem de perceber que o processo de adesão típico e tradicional, baseado na meritocracia, não deve deixar de ter em consideração que este país é o único num processo de adesão simultaneamente no meio de uma guerra.
Talvez não se adeque especificamente o mesmo tipo de situação que ocorre à Ucrânia como aconteceu nos outros países. Temos de ter em consideração que a entrada de um país com a dimensão da Ucrânia na União Europeia traz desafios adicionais, em setores muito importantes que terão que sofrer ajustes e adaptações como é o caso, por exemplo, da agricultura.
Mesmo para a própria defesa coletiva da União Europeia, a Ucrânia tem talvez o exército mais preparado neste momento, fruto das circunstâncias óbvias. E numa altura em que a democracia está a perder caminho um pouco por todo o mundo, a União Europeia não se pode dar ao luxo de não olhar para o processo de adesão da Ucrânia, sem descurar a exigência que deve continuar a ter.
É um jogo de gestão de expectativas que depois deve ter correspondência. A alternativa será sempre pior. Se o sucesso da Rússia é algo que não conseguimos imaginar, ele compagina de facto uma ameaça existencial à própria União Europeia.