Ronalda como eu digo, não Ronaldes como eu faço
- 11/07/2026 02:12
- Redação
No Dicionário da Língua Portuguesa não faltam adjetivos para qualificar Cristiano Ronaldo. Alguns deles, porventura, já não acompanham a forma do capitão da seleção, mas haverá um que ainda será unânime, passem os anos que passarem: insaciável.
A tal da boa "mentalidade Cristiano Ronaldo", o homem que quis o mundo todo quando nasceu no fim da rua. Aquele que treinava já depois do fim do treino. O que mostrou que, por mais talento que se tenha, o trabalho bate-o sempre.
O mindset – como se diz agora – de Cristiano Ronaldo foi sempre não só a sua bandeira, mas aquilo que queríamos ver refletido no espelho baço do país. Isso ficou bem claro na mensagem de Natal do ano passado do primeiro-ministro Luís Montenegro: “Estamos num momento histórico em que temos de nos desprender da mentalidade do ‘deixa andar’ e temos de adquirir e trabalhar a mentalidade da superação. […] A ‘mentalidade Cristiano Ronaldo’”.
Faz sentido: afinal quem é que não quer ser reconhecido, triunfar e chegar ao topo, ser o melhor dos melhores, ter mentalidade Ronaldo, como diz Montenegro? Pelos vistos, o próprio Luís Montenegro. E Roberto Martínez. E, parece-me, parte dos adeptos portugueses.
Porque é aqui que me perco. Os mesmos que apregoam a exigência máxima de Cristiano Ronaldo, que a usam precisamente para justificar a sua titularidade, os que clamam pelo mental obsessivo de trabalho para a vitória... são precisamente os mesmos que agora aplaudem a pelos vistos nobre conquista da chegada a uns oitavos de final de um Mundial.
Bastou, por exemplo, meio ano para que os padrões de exigência do primeiro-ministro se alterassem, mesmo que a alegoria não fosse apontada ao futebol. Em dezembro pedia um país que não jogasse para o empate, que tivesse sim “a mentalidade vencedora de jogar sempre para ganhar”.
Vira para julho e os dois jogos ganhos pela seleção em cinco, que se tentou agarrar a um suficiente empate frente a Espanha, já deixavam o chefe de Governo “reconhecido e orgulhoso pelo percurso” da equipa, como afirmou na flash interview após o jogo, uma outra moda foleira que teima em não desaparecer, lembrando que um jogo de futebol não é matéria de Estado.
É política, dir-me-ão. Pouco interessa para o jogo, podem sublinhar. E eu assino por baixo, mas deixo a nota ao lado com a mesma caneta: quero que a exigência pedida ao português que se afoga na matemática dos dias seja a mesma para quem nunca mais terá de a fazer. É uma questão de exemplo e coerência, com a falta dela a ser transversal também a quem estava na relva.
Não conhecemos ao certo a subjetividade desse “nível”. Mas a não ser que a sua bitola seja ter menos remates à baliza que o adversário em todos os jogos deste Mundial, exceto o do Uzbequistão (!), parece-me inexplicável que Martinez considere que a seleção “mostrou os valores do povo português, que deve estar muito orgulhoso".
Foi assim que o técnico espanhol classificou a exibição contra Espanha, já depois de ter dito que “não precisamos de ganhar o Mundial” após o empate com a RD Congo, e que “o caminho não faz diferença”, depois de perder o primeiro lugar do grupo para a Colômbia e ficar na metade mais complicada do torneio.
Sou filho do Euro 2004. Cresci a ver a nossa seleção virar heroicamente o resultado contra Inglaterra no Euro 2000. A arrasar a Alemanha com o hat-trick de Conceição. A bater de frente, sem medo, com Espanha, Inglaterra ou Holanda no Europeu português e a repetir façanha no Mundial 2006.
Posso ter crescido mal habituado, mas o nível de exigência que peço é esse. E agora, um dia depois da apresentação de Jorge Jesus como selecionador nacional, é precisamente essa exigência e mentalidade que peço.
E se não houver espaço para um compromisso com ela, que haja com a coerência. De quem treina, de quem representa o país, mas também de quem torce por ele. Porque, afinal de contas, ‘a mentalidade Ronaldo’ nunca ganhou nada no papel, só no campo.