"Perfeccionista até ao centímetro". Jorge Jesus, o “mister” que se tornou selecionador
- 11/07/2026 02:10
- Redação
Quando “o tranquilo” Rui Águas foi substituído por Jorge Jesus como treinador do Vitória de Setúbal, na distante época de 2000/01, na II Liga, o médio Sandro Mendes não estava preparado para a revolução que o novo selecionador nacional ia causar na equipa.
Jesus conseguiu dar a volta aos sadinos, que não arrancaram bem a época, mas terminaram-na a festejar o regresso à primeira divisão. “Primeiro a gente estranha, depois entranha", completa o ex-jogador.
Depois de uma discreta carreira como jogador, o “mister” Jorge Jesus nasceu no Amora, em 1989. Desde então, orientou 16 clubes e venceu 24 troféus. Agora, vai em busca de conquistar Europeus e Mundiais com a seleção nacional.
Para Sandro, a melhor forma de descrever Jorge Jesus é como um apaixonado pelo desporto. Ao ponto da obsessão.
“Ele quer ganhar e vive para o futebol. Ele contava-nos que acordava às três da manhã porque tinha sonhado com uma jogada. Ele era assim e acho que isso não mudou muito", acredita.
Nos treinos, não perdoava o mais pequeno erro, nem que fosse uma questão de pormenor.
"Ele vinha ter comigo e dizia que eu estava mal posicionado. Eu perguntava: 'Como assim?'. Ele puxava-me uns centímetros para o lado e dizia, "não é ali, é aqui". Eu perguntava qual era a diferença, ele encolhia os ombros e ria-se. Com ele é tudo muito exaustivo e vejo que ele não perdeu essa vitalidade de andar ali no meio dos jogadores a correr com eles. Aí, está igual", aponta.
Jesus desenvolveu um perfil exótico com declarações polémicas, outras mais descontraídas e alguns erros na gramática, mas anos antes das suas conferências de imprensa serem manchete nos jornais, já o plantel do Vitória de Setúbal tomava nota dos seus momentos mais caricatos.
"Nós tínhamos uma sebenta, era assim que lhe chamávamos, onde íamos apontando as coisas que ele dizia e que fazia", recorda. A sebenta perdeu-se no tempo. Ficou com Nuno Campos, hoje também um treinador, que não sabe do seu paradeiro.
Depois da experiência no Bonfim, Jesus estabeleceu-se como um treinador de I Liga e orientou mais de 600 jogos no principal escalão do futebol português.
Passou pelo Estrela da Amadora, Vitória de Guimarães, Moreirense, União de Leiria, Belenenses e SC Braga até chegar ao Benfica, em 2009, onde se afirmou ao mais alto nível.
Sandro nunca lhe perdeu o rasto, mas achava que o perfil mais intempestivo poderia limitar-lhe as oportunidades: "Acho que o condicionava um pouco, mas ele foi-se moldando porque é muito inteligente. Tem a sua maneira peculiar de falar, mas é muito inteligente".
Jesus ostenta três títulos de campeão nacional português pelo Benfica e foi ainda finalista vencido da Liga Europa em duas ocasiões.
No verão de 2015, fez o que parecia impensável: deixou o campeão nacional e assinou pelo seu maior rival, o Sporting. Surpreendeu tudo e todos, incluíndo Adrien Silva, já um dos capitães de equipa em Alvalade.
"Foi uma grande surpresa, sabemos que em Portugal a mentalidade não é a mais correta, não se pode mudar de um sítio para o outro e isso foi realmente um choque. Era uma oportunidade muito boa para a nossa evolução", recorda o médio preponderante na equipa que Jesus viria a montar no Sporting.
O título escapou para as águias por apenas dois pontos, mas foi uma equipa do Sporting que marcou uma era, com os golos de Islam Slimani, o encanto de Bryan Ruiz e o meio-campo que maravilhou com William Carvalho, João Mário e Adrien Silva.
"Ele entrou a todo o gás com uma vontade de ganhar. Sentia-se que estávamos muito acima de todos e provámos isso nos confrontos diretos, mas por uma razão, ou outra, não chegamos ao fim com o que merecíamos", atira.
Ao seu estilo, não demorou muito até dar a primeira "dura" em Adrien: "Numa bola parada num amigável, eu chutei com força em vez de encostar. Ele gostava muito de carregar no detalhe que não se conseguia fazer golos a chutar de força. Deu-me logo um ‘arranque’, mas não se pode levar a peito. A única vontade dele é fazer crescer os jogadores."
Jesus aventurou-se no estrangeiro, pela primeira vez, há menos de dez anos, com uma curta passagem pelo Al-Hilal, da Arábia Saudita, que precedeu o ano dourado no Brasil, ao serviço do Flamengo.
Conquistou a Copa Libertadores, o Brasileirão, a Supertaça brasileira e também a continental. O regresso ao Benfica não correu bem e os últimos quatro anos foram feitos, novamente, além-fronteiras.
O médio-ofensivo Lincoln foi treinado por Jesus oito anos depois, no Fenerbahçe, em 2022/23. As primeiras semanas de convívio com o treinador português “não foram fáceis”, mas o silêncio era o que mais o preocupava.
“Pode ser difícil lidar com o estilo. Cresci muito com ele, mas aquele início foi difícil porque ele cobra muito. Começa a ser normal, depois. Quando o treinador implica connosco, é porque gosta. O pior é quando ele já não diz nada”, alerta.
"Se trabalhas com o Jesus e não tens uma história engraçada para contar, não é o mesmo mister. Uma vez meti mal um passe e ele disse-me: "É por isto que jogavas no Santa Clara". Eu continuei, depois acertei outras coisas e ele já disse: "Agora está explicado porque chegaste aqui". Ele fala as coisas de forma clara,
O salto de Lincoln foi grande. Tinha estado três épocas em bom nível no Santa Clara, dos Açores. Jesus defrontou-o na sua segunda passagem pelo Benfica e quis levá-lo para a Turquia.
O brasileiro esteve associado aos grandes portugueses e queria ficar em Portugal, mas uma chamada de Jorge Jesus foi o suficiente para convencer.
“Ele ligou-me e como não tinha nada fechado, ele colocou uma definição na situação, porque disse que me queria para ontem", recorda.
Lincoln voou para a Turquia e fez 34 jogos nessa temporada pelo Fenerbahçe. Marcou dois golos e somou oito assistências. Com Jorge Jesus, o brasileiro jogou em quatro posições diferentes.
Nos últimos 15 anos, Jesus orientou dos melhores jogadores do mundo, desde Cristiano Ronaldo no Al-Nassr, Neymar no Al-Hilal, Pablo Aimar no Benfica. O belga Michy Batshuayi marcou 20 golos no Fenerbahçe com Jesus, mas nem o estatuto de internacional lhe salvou das correções de Jesus.
Para lá da ligação que consegue criar com os jogadores, apesar das intervenções mais ríspidas, Jesus é também alguém com "uma ideia de jogo clara", mas surpreende os adversários ao longo de uma temporada.
"Tem sempre uma carta na manga, trocava algo de jogo para jogo, nem que fosse só os sinais das bolas paradas", recorda o brasileiro, que na época passada aplicou a versatilidade que ganhou com Jesus no Alverca, onde se notabilizou na dupla de meio-campo, uma posição bem mais recuada do que desempenhava, no início da carreira, nos Açores.
No Bonfim, Jesus já era atento ao detalhe. Mais de duas décadas depois, não perdeu a característica: "É um perfeccionista, cuidava da linha defensiva ao centímetro. Ia ver os centrais e os laterais para ver se estavam em linha, ou não, como se fosse o VAR."
Na paixão pelo jogo e no gosto pelo detalhe tático, Sandro não vê grandes mudanças em Jesus, mas olha para as experiências no estrangeiro como definidoras: "Ele está diferente, mais tranquilo. Mas não perdeu a essência"
"Como treinador de campo, ele estava muito à frente dos outros, mas perdia um pouco no social e acho que conseguiu equilibrar isso na balança já há muitos anos", defende Sandro.
Lidar com o feitio do treinador pode nem sempre ser fácil e Sandro acredita que a Arábia Saudita "deu uma bagagem muito grande" a Jesus nesse sentido.
"Adaptou-se aos tempos, o futebol foi mudando um pouco, os jogadores já não são os mesmos", atira.
Desde a conquista do Euro 2016 que Portugal não atinge uma meia-final de um torneio internacional. Será o grande desafio de Jorge Jesus, que assume a seleção esta sexta-feira após um Mundial aquém das expectativas.
Depois de uma grande época no Sporting, com Jesus no banco de suplentes, Adrien Silva estabeleceu-se na seleção e foi ao Euro 2016. Nunca lhe mencionou o sonho de chegar a selecionador, mas o ex-médio via os sinais: "Era só ouvi-lo falar do nosso país e não só futebolisticamente."
"Sentia-se um brilho nos olhos, de um dia poder chegar essa oportunidade. Quando se começou a falar disto, pensei para mim que realmente encaixaria muito bem. Mais tarde ou mais cedo, ia acontecer", diz.
Pela primeira vez, Jesus abdicará do convívio diário com os jogadores para o trabalho de poucas semanas, entre pausas de competições de clubes.
"Já terá uma maneira diferente de estar no treino e, se aceitou, é porque se sente preparado para isso", acredita Sandro.
Adrien reconhece que o "mister gosta muito do dia a dia, mas acho que encaixa bem com o período da carreira e da vida dele" e acredita que conseguirá colocar a seleção a jogar um futebol dominante e ofensivo.
"Ele dá muita liberdade e deixa a criatividade de cada um. Isso é muito positivo. Terá tempo para se adaptar e potenciar as qualidade de cada um em prol do coletivo, que é sempre a ideia dele", completa.
Desde o sucesso no Flamengo que Jorge Jesus tem sido associado, quase anualmente, à seleção brasileira. Acabará a orientar o seu próprio país. Lincoln "gostava de o ter na seleção do Brasil, mas infelizmente está fechado com Portugal".
No dia em que se completa dez anos da conquista do Euro 2016, Jesus chega a uma seleção que não voltou a atingir as meias-finais de um grande torneio de seleções.
Adrien Silva acredita que, a cada torneio que passa, a conquista de Paris ganha mais peso: "Demonstra a dificuldade de conseguir a ponta de sorte e o detalhe que é preciso para levantar o troféu", mas tem a certeza que, com Jesus, Portugal voltará às grandes decisões.
"Vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. O que tem vindo a ser feito na formação e as gerações que já estão presentes. Vamos continuar a ser sempre candidatos para ganhar. O Jesus vai dar um 'boost' enorme para os portugueses, pela personagem e pela paixão que tem pelo jogo e por Portugal", termina.