Roberta Medina: “É muito difícil vender ingresso”
- 11/07/2026 04:15
- Redação
A responsável máxima do Rock in Rio, Roberta Medina, diz que a organização do festival depende da venda de bilhetes e que “é muito difícil vender ingresso”.
Numa entrevista com muitos números e gargalhadas, Roberta Medina explica o sucesso do Rock in Rio, um festival que sempre foi mais do que música, “nasceu para juntar pessoas de raças e credos diferentes, em paz e harmonia”.
A vice-presidente executiva do Rock in Rio mantem o tabu sobre as contas, mesmo questionada de diferentes formas, porque “o que a organização ganha não acrescenta ao consumidor ou ao público em geral, cria mais ruído do que valor”, defende. Por outro lado, “ninguém vai ficar sensibilizado se um dia divulgarmos um valor negativo”, acrescenta.
A verdade é que a organização já teve prejuízo "em mais do que uma edição", não foi apenas a estreia do festival em Lisboa que não garantiu receitas suficientes para cobrir o investimento.
As receitas dependem, maioritariamente, da bilheteira (60%-70%), o que o torna um negócio de alto risco e muito volátil. Os patrocínios, que representam 30%-40%, são o "colchão" financeiro que permite ousar e investir em grandes nomes e infraestruturas.
“Esse negócio assusta-me sempre”, admite. “O patrocínio, quanto maior for, mais tranquilidade nos dá. Especialmente para nós, que somos sonhadores e gostamos de criar coisas novas”, diz.
Roberta Medina lamenta que os artistas não promovam mais as datas em que atuam em festivais, tal como fazem com os concertos, porque diminuía o risco para os produtores, e explica, ainda, que no Rock in Rio não há borlas para os mais novos porque este é um evento para a família. "Eles são muitos, têm de ser contados, eles estão lá para viver a experiência e é feito também para eles, são consumidores como os outros."
Além das marcas, o festival conta agora também com um novo parceiro, o gigante norte-americano Live Nation, que adquiriu uma participação maioritária na empresa que produz o Rock in Rio, em Lisboa e no Brasil. Ainda assim, a gestão continua a ser feita pela família Medina. “É um parceiro que acredita no talento de quem ele comprou, não quer entrar na gestão, enquanto fizer bem o seu negócio, não é um parceiro interventivo”, explica.
Roberta fala também do pai, que continua a ser uma presença constante nos negócios, mesmo já tendo passado a gestão aos filhos. Roberto é uma bússola na empresa e garante que a marca se mantém à frente do seu tempo.
Cada edição do festival em Lisboa implica um investimento de cerca de 30 milhões de euros. A mudança em 2024 para o Parque Papa Francisco, exigiu mais cinco milhões à organização.
Roberta Medina encara a mudança como natural, uma mudança de ciclo. "Não perdemos absolutamente nada”, defende. Pelo contrário, para a cidade ficou um parque e um bairro enriquecido com várias infraestruturas, na Bela Vista. O festival ganhou mais espaço junto ao Tejo e os consumidores um produto melhorado.
Mas a nova localização ficou marcada pelas críticas dos festivaleiros, desagradados com as filas e os acessos. Agora, na segunda edição no Parque Tejo e em plena onda de calor, a maior reclamação foi a falta de sombras.
Para Roberta Medina, isto é um elogio ao trabalho feito nos dois últimos anos. “Eu acho delicioso que a grande queixa sejam as sombras. Quer dizer que conseguimos resolver os temas verdadeiramente relevantes”, com os shutles para o evento ou o aumento da área de alimentação e das casas de banho.
Para garantir mais sombras, Roberta admite que já foram analisadas várias opções, mas eram demasiado caras para um evento temporário como o Rock in Rio. Ainda assim, garante que a autarquia vai aumentar as sombras “a médio prazo”, está incluído no projeto para aquela área, que prevê mais zonas verdes, equipamentos e infraestruturas para usufruto permanente.
A empresária reafirma que o contrato com a Câmara de Lisboa para a utilização do espaço é renovado edição a edição, sem o pagamento de taxas, o que exigiria “outro modelo de negócio”. Estima que cada edição gera cerca de 120 milhões de euros para a economia de Lisboa e entrega ao fisco perto de 12 milhões de euros em impostos.
A edição portuguesa envolve mais de 300 empresas nacionais, entre prestadores de serviços, parceiros e patrocinadores. Roberta Medina explica o contributo de cada um e as parcerias, nada acontece por acaso, a organização negoceia tudo, desde a área e a localização de cada marca, até ao brinde e passatempo oferecidos.
Este ano, a organização anunciou um novo recorde de afluência: 330 mil pessoas nos quatro dias do festival. No entanto, 40 mil são trabalhadores, detalha Roberta Medina. Dos 290 mil que entraram com bilhete, Roberta não revela quantos foram oferecidos. Quem deve saber, como a Autoridade Tributária, sabe-o.
Um dos grandes objetivos desde que estão no Parque Tejo é aumentar o público estrangeiro. Desenvolveram uma forte campanha internacional mas encontraram obstáculos que não previam, o que acabou por dispersar a mensagem. Este ano contabilizaram 8% de estrangeiros, de 127 nacionalidades, num total de 18 mil e 500.
Ainda se está longe do objetivo, ter 60 mil estrangeiros no público até 2030. Para isso, vai apostar-se numa campanha na Europa mais dirigida: com menos canais de divulgação, mas mais forte e de maior alcance. Por pais, está prevista uma maior divulgação em Espanha e em França.
O RinR já se realizou três vezes em Espanha, mas Roberta Medina admite que nunca conseguiram consolidar o festival no país vizinho. Neste momento, não está a ser equacionada uma nova tentativa, a aposta é reforçar a presença do Rock in Rio em Lisboa e trazer a Europa ao Parque Tejo.
Não afasta a realização de outros eventos em Portugal, que não sejam festivais, mas tem de ser uma ideia disruptiva.
Para a próxima edição do RIR, Medina diz que já foram feitos convites, mas ainda não há contratos fechados. O cartaz de 2028 continua com um grande ponto de interrogação. Já sobre quem gostava de trazer a Lisboa, Pink e Adele são os primeiros nomes indicados por Roberta Medina, a senhora Rock in Rio.