Prémio LeYa: “A língua portuguesa é mais do que uma casa, é onde me abrigo”

Prémio LeYa: “A língua portuguesa é mais do que uma casa, é onde me abrigo”

  • 11/07/2026 11:56
  • Redação

Sai de casa todos os dias para trabalhar a pensar e a falar francês. É quando regressa a casa que Carla Pais muda para a língua portuguesa com que escreveu o romance “A Sombra das Árvores no Inverno” (ed. Leya) com que venceu o Prémio LeYa 2025.

Mas a autora também é poeta e lançou quase em simultâneo o livro “A Brutalidade do Movimento Conjugado” (ed. Poets and Dragons). É na poesia que mata saudades de Portugal.

O que a inspirou para escrever “A Sombra das Árvores no Inverno” (ed. Leya) com que venceu o Prémio LeYa em 2025?

O que me levou ao livro foi observar todas estas pessoas que vivem connosco na Europa e que nós tentamos a todo o custo não ver.

Foram os ataques terroristas em França em 2015 e, entre 2015 e 2018, ver a massa de refugiados que começou a chegar à Europa e que nós, manipulados pelo medo coletivo, entramos num discurso de desumanização total quando estamos a chamar aquelas pessoas “terroristas”.

Eu não podia conceber isso, não estava de todo alinhado com aquilo em que acredito que é a humanidade. Foi isso que me levou a escrever o livro.

No meio de toda esta confusão que é o terrorismo e da massa de refugiados que chega, nós estamos a assistir a um paradoxo na Europa que é os nossos jovens e os nossos filhos que educamos com os nossos princípios, eles estão completamente a rejeitar a sociedade que estamos a oferecer e estão a fugir para a Síria, para lutar por uma guerra que não é a deles.

Eu estou a assistir àqueles jovens todos a irem embora e, eu tenho filhos daquela idade e, portanto, a Nádia nasce desse princípio, se fosse o meu filho? O que é que me aconteceria? Como é que eu faria? e, portanto, a Nádia nasce dessa minha angústia enquanto mãe.

Vive em França é a realidade que conhece melhor. O livro faria o mesmo sentido se fosse em Portugal?

O contexto é francês, porque eu vivo em França, mas poderia passar-se na Alemanha, na Bélgica ou em qualquer outro país da Europa.

O facto de viver em França dá-me um distanciamento e permite-me de conhecer outros mundos. Há uma visão muito mais global, que é a nossa Europa.

Em Portugal acho que ainda não temos essa capacidade de ver uma Europa tal como ela é hoje, porque nós estamos afastados de toda essa realidade.

Foi isso que me permitiu chegar a este livro e ter uma visão mais alargada da realidade, não do meu país, mas da Europa, onde eu estou inserida e faço parte.

Eu acho que é sobretudo para as gerações vindouras. Nós pais estamos a construir uma sociedade em que estamos a falhar. Os filhos estão-nos a virar as costas, estão-nos a abandonar e precisamos perceber porquê, o que é que nos falta no meio de toda esta complexidade que é a organização social e comunitária de todos os países.

Onde é que estamos a falhar para que os jovens nos virem as costas assim? e não encontrem sentido e precisem de ir para fora, defender causas que não são propriamente humanas.

Ao mesmo tempo que lançou este livro com que venceu o Prémio LeYa, lançou outro livro de poesia, “A Brutalidade do Movimento Conjugado” (ed. Poets and Dragons). Quando escreve prosa a poesia intromete-se?

Eu acho que não sei escrever de outra maneira. Vão sempre encontrar alguma poesia nos meus livros.

O livro da poesia, nasceu há dez anos. Eu estou em França há 14 anos e durante os últimos dez anos tenho escrito alguma poesia para remediar alguma saudade que tenho, por exemplo, dos meus avós que já morreram, ou para lidar com algumas preocupações sobre a educação dos meus filhos.

Como é que se faz? Como é que eu faço, quando eles são inseridos num contexto que é difícil e uma sociedade que tem uma tendência para piorar?

Depois, a última parte do livro é a minha observação do mundo. O canto 3, chama-se “Sociedade Remediada”, onde observo tudo o que se passa à minha volta de uma forma geral. São coisas que eu não consigo compreender e quando não consigo compreender a minha tendência é sempre para ir escrever.

Há assuntos que saem em poesia, há outros que saem em romance, depende das situações e da minha urgência de deitar para fora aquilo que me faz mal.

É o meu dia-a-dia de facto, desconecto-me completamente da literatura. Embora trabalhe na área da formação profissional para adultos, e estar sempre numa parte pedagógica de letras, mas desconecto-me completamente.

Até porque o meu cérebro, quando sai de casa, passa a funcionar em francês. E eu não escrevo literatura em francês, eu escrevo em português.

E portanto, o meu cérebro reconecta-se quando entro em casa e olho para a minha biblioteca e sei que tenho ali o meu escritório e, portanto, normalmente eu escrevo das nove às onze e das onze à meia-noite leio.

Depois descanso um bocado, para ir trabalhar no outro dia. Portanto, o meu cérebro está mais ou menos coordenado com aquilo que eu preciso fazer.

A língua portuguesa tem mais plasticidade para o que quer escrever? Nunca escreveu em francês?

Eu respeito muito a língua francesa, mas eu seria incapaz, pelo menos até à data, de escrever literatura em língua francesa, possivelmente porque tenho muito respeito e considero que não tenho a capacidade nem a competência necessária para escrever um bom romance ou um bom poema na língua que não é a minha.

O fato de escrever em português é uma necessidade grande que tenho, porque é isso que me faz reconectar com a minha raiz.

A minha língua é o meu teto, é ali onde me encontro em todas as suas dimensões. A língua portuguesa, para mim, é mais do que uma casa, é um teto, é ali que eu me abrigo.

  • Fonte: Rádio Renascença
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