Almería. "O mais difícil foi ver idosos a chorar, pensavam ter perdido tudo"

Almería. "O mais difícil foi ver idosos a chorar, pensavam ter perdido tudo"

  • 12/07/2026 03:00
  • Redação

Naquela altura, já o albergue que funcionou duas noites estava a encerrar, tendo os desalojados sido transferidos para unidades hoteleiras da região ou conseguido abrigo em casa de familiares. Ainda assim, Isabel ainda tinha tudo bastante fresco na memória para relatar o que ali se viveu.

“Tivemos duas equipas de emergência médica, com médicos, enfermeiros e ambulâncias, dando assistência integral a todas as pessoas afetadas, não só, emocionalmente, devido às perdas que alguns sofreram — perderam a casa, perderam familiares, animais —, mas também devido ao medo de não saber o que tinha acontecido. Não sabiam se as suas casas tinham ardido, simplesmente tinham sido evacuadas. Não sabiam o que se estava a passar”, recorda.

Além das equipas médicas, naquele local, estiveram mais de 50 pessoas em auxílio às vítimas, entre funcionários da Câmara Municipal, voluntários e a Cruz Vermelha.

Os primeiros momentos foram de “muito pânico”, sobretudo pela necessidade de fazer todos os esforços pelos mais velhos “que chegaram em estado crítico” e tiveram de ser “levados para o hospital”. Havia doentes oncológicos que simplesmente não podiam ficar naquele local.

Os desalojados chegaram em duas levas, uma primeira de 60 e depois mais 350. Eram quase todos estrangeiros. Maioritariamente britânicos, mas também havia belgas e alguns espanhóis. Aquela zona balnear tem nesta altura do ano muitos ingleses.

Uma dificuldade adicional para quem estava a dar ajuda, porque a maior parte destes desalojados não falava espanhol. “Contámos com intérpretes, o que nos foi muito útil. Eles vivem aqui, mas não falavam espanhol”, relata Isabel.

Na entrada do pavilhão em que Isabel Morales fazia o balanço dos últimos dias, estava Maisie Lee e a família (quatro adultos e uma criança). Também ela é inglesa. Está grávida de 24 semanas e aos 24 anos leva um grande susto para contar.

Tinha acabado de chegar ao parque de campismo de Los Gallardos quando tudo começou a arder. “Fomos evacuados à noite devido aos incêndios, que se estavam a alastrar. O céu estava pintado de vermelho-alaranjado intenso, e o fumo saía em jorros”, lembra.

“A Polícia teve de andar literalmente de porta em porta, a gritar com toda a gente, a dizer-lhes para saírem”, descreve.

Ela não queria, simplesmente, acreditar no que lhe estava a acontecer. “Eu também tenho uma filha pequena, de três anos, por isso foi mesmo, mesmo assustador”, enfatizou.

O fogo já não está nas imediações, mas queimou muito do dinheiro que ela e a família traziam. Foram para um hotel, em que cada quarto, nesta altura do ano, pode custar 300 euros por noite.

“Infelizmente, o dinheiro está um pouco curto, por isso já não podemos pagar o hotel. Esperamos encontrar algum abrigo noutro sítio”, lamenta Maisie.

“Estava literalmente a correr pela rua, pelo parque de campismo, a tentar organizar tudo para sair. Parecia um filme. Estou com 24 semanas. 24 semanas, meu Deus”, sublinhou.

Entretanto, no final da noite de sábado, mais de 600 dos desalojados já puderam regressar a casa depois das autoridades terem conseguido parar o avanço do fogo e ganhar terreno na luta às chamas. Houve alturas em que estas chegaram a avançar a 100 metros por minuto.

Ainda assim, há muitos que ainda continuam a ter de ficar em hóteis, como o caso de Juan Francisco Ramos, alojado numa unidade hoteleira de Mójacar. Ali estavam mais 45 pessoas que tiveram de abandonar a casa em que moram.

Na quinta-feira à tarde, antes das 17h00, começaram a perceber que algo estava errado. Calor, vento e chamas. Não podia ficar em casa.

“A partir daí, mobilizámo-nos e dirigimo-nos para um dos pontos de encontro. A estrada foi bloqueada e já não podíamos descer em direção à costa”, explica.

“Tudo” é uma compreensível expressão emocional. A casa dele está de pé e sem estragos. Fica no centro da vila e foi a zona circundante que ficou devastada.

É um consolo pequeno para Juan Fran, perante um acontecimento avassalador para toda a Espanha e especialmente para os que ali vivem, num fogo que já engoliu 6.600 hectares.

  • Fonte: Rádio Renascença
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