Fim da destruição de roupa e calçado não vendidos pode beneficiar indústria têxtil portuguesa

Fim da destruição de roupa e calçado não vendidos pode beneficiar indústria têxtil portuguesa

  • 12/07/2026 04:00
  • Redação

A União Europeia quer travar o desperdício provocado pelos stocks em excesso das grandes empresas têxteis e dentro de uma semana entra em vigor a proibição de destruir vestuário e calçado que não tenham sido vendidos. A medida pretende reduzir o impacto ambiental de uma prática ainda comum no setor.

Estima-se que, todos os anos, entre 4% e 9% dos produtos têxteis não vendidos na Europa sejam destruídos antes mesmo de serem usados. Este desperdício será responsável por cerca de 5,6 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano.

A nova regra pode representar uma oportunidade para a indústria têxtil portuguesa. A diretora-geral da Associação Portuguesa de Têxteis, Ana Paula Dinis, acredita que as marcas poderão passar a privilegiar fornecedores mais próximos, flexíveis e com capacidade para responder rapidamente a encomendas de menor dimensão.

"Podem privilegiar fornecedores que conseguem dar uma resposta mais rápida e, provavelmente, fazer encomendas a empresas mais pequenas, mais em função da procura que está a acontecer e mais tarde. E aí a indústria têxtil portuguesa, como tem estas características de capacidade de resposta rápida, encomendas mais pequenas e flexibilidade, pode posicionar-se muito bem. Num primeiro impacto, eu diria que pode ser positivo.”

A medida vai também obrigar as grandes cadeias de roupa e calçado a rever o planeamento das coleções e a melhorar os modelos de previsão da procura.

O presidente da Confederação das Associações Têxteis Europeias, Mário Jorge Machado, lembra que uma parte significativa dos artigos acaba por ser vendida com desconto, em saldos, devido à dificuldade das marcas em antecipar as tendências de consumo. Por isso, admite que são necessários modelos de previsão mais eficazes.

"As grandes empresas vão ter de ter melhores modelos de previsão. Hoje, há um número gigantesco: 40% dos artigos comprados pelas marcas têm de ser vendidos em saldos e isso gera muitos desperdícios. Ainda há muitas marcas que compram produtos com um ano de antecedência e, para prever as tendências de consumo a essa distância, a probabilidade de erro é grande.”

A decisão não deverá provocar uma transferência em grande escala da produção atualmente concentrada na Ásia e na China. Ainda assim, Ana Paula Dinis admite que poderá haver um reajustamento favorável à produção europeia.

“Podemos recuperar alguma parte, eu diria que sim. Não sei se toda, mas as marcas também não vão deixar de produzir na Ásia só por causa desta medida. Mas ajuda. Há aqui algum recalibramento e algum equilíbrio que pode ajudar em certa medida, mas não vamos deixar de produzir na Ásia, seguramente.”

Mário Jorge Machado considera que a proximidade pode tornar-se uma vantagem competitiva para as fábricas europeias. "Em vez de encomendar com um ano de antecedência, posso tentar encomendar a três meses. Essa pode ser uma vantagem para a indústria de proximidade na Europa. Se tiver fornecedores próximos e não precisar de esperar meses pela entrega, consigo ter um modelo de previsão melhor", explica.

Em vez de eliminarem os produtos que ficam por vender, as empresas serão incentivadas a gerir melhor os inventários, tratar as devoluções e procurar alternativas como a revenda, a doação, a reutilização ou a reciclagem do vestuário e do calçado.

Numa primeira fase, a proibição abrange apenas as grandes empresas. Dentro de quatro anos, esta medida será depois estendida e aplicada também às empresas de média dimensão.

  • Fonte: Rádio Renascença
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