Almería. Evacuar numa hora 500 campistas rodeados de chamas que pareciam “a lava de um vulcão”
- 13/07/2026 01:30
- Redação
Paco trabalha naquele parque de campismo em Los Gallardos, na região de Almería, há 26 anos. Já viu muitos verões, muitos fogos, mas nenhum assim. Qual a diferença? A rapidez estonteante. As chamas chegaram a galgar 100 metros por minuto. E, por isso, aquele local esteve em risco pela primeira vez desde que ele se lembra. As 500 pessoas que ali estavam, ficaram desalojadas durante as últimas três noites.
O funcionário da receção, neste domingo e já de volta ao trabalho, recorda com precisão as horas de aflição da última quinta-feira.
“Já vi incêndios por aqui, mas demoram algum tempo a avançar, mas este foi muito rápido, foi por isso que foi tão mortífero. As pessoas não tiveram tempo de fugir, ou seja, não deu tempo para nada”, lamenta.
Peter, precisamente, um inglês de 76 anos, há cerca de uma década que assentou arraiais no sul de Espanha e escolheu aquele parque campismo normalmente rodeado de calma e natureza para uma reforma dourada. Descreve como Paco o avanço das chamas.
Ele até foi alertado por um técnico, que lhe ia arranjar a televisão, que o fogo andava por ali. “Fomos lá fora ver o incêndio e era pequeno, era minúsculo, apenas uma grande nuvem de fumo que fazia o sol parecer muito vermelho”, descreve.
Ele e a mulher ficaram a observar as chamas durante uma hora e, nesse espaço de tempo, “passou de uma coisa pequena para uma coisa enorme”.
De imediato, “os proprietários disto vieram e disseram: 'Têm de sair'”. Peter saiu sem pensar duas vezes.
Compara o que via nas encostas junto ao parque “à lava de um vulcão”. “Se te dizem para ires embora, vais-te embora, porque, caso contrário, não é a só a minha vida que está em jogo, é a vida do homem que está a tentar salvar-me. Isso não é justo, ele tem filhos e tudo o resto”, salienta.
Paco diz que em cerca de uma hora, com a ajuda da Guarda Civil, a complexa operação de tirar daquele local 500 pessoas, algumas delas já idosas, foi cumprido com sucesso. No total, mais de 1400 moradores tiveram de abandonar o local em que viviam.
Ele elogia o trabalho das autoridades e rejeita as críticas que nos últimos dias se foram ouvindo pela falha no envio de uma SMS a dar conta da gravidade do que estava a acontecer. Paco entende que se isso acontecesse, iria gerar mais pânico porque muitos dos moradores são ingleses, mas não falam espanhol.
“Decidiram não enviar o aviso porque ia criar confusão. E preferiram ir de porta em porta para dizer às pessoas por onde deviam ir. As pessoas teriam saído a correr para todos os lados e teria havido muitas mais mortes. Os moradores iriam tentar fugir”, assinala.
O funcionário do campismo de Los Gallardos e habitante da zona, ainda assim, reconhece que “as pessoas estavam um pouco perdidas”. “É uma situação em que não se sabe como reagir”, conclui.
Não queria, simplesmente, acreditar no que lhe estava a acontecer. “Também tenho uma filha pequena, de três anos, por isso foi mesmo, mesmo assustador”, enfatizou.
O fogo já não está nas imediações, mas queimou muito do dinheiro que ela e a família traziam. Foram para um hotel, em que cada quarto, nesta altura do ano, pode custar 300 euros por noite.
“Estava literalmente a correr pela rua, pelo parque de campismo, a tentar organizar tudo para sair. Parecia um filme. Estou com 24 semanas. 24 semanas, meu Deus”, sublinhou.
Peter muito mais velho, olha com menos emoção para tudo o que aconteceu. Mostra que não perdeu o humor britânico quando se lhe pergunta se pensa em sair dali e ir viver para outro lado.
“Não. O último grande incêndio foi em 1984. Agora estamos em que ano? 2026? A cada 40 anos há um, acho que posso viver com isso porque estarei aqui daqui a 40 anos não vou estar cá”, atira entre sorrisos.
Paco que trabalha há quase três décadas no setor do turismo também não crê que esta tragédia tenha um grande impacto naquele que é o motor económico da região.
“Acho que não, não é? Porque já houve incêndios antes e as pessoas continuam a vir. No fim de contas, isto passa. É como tudo, com o tempo vai-se esquecendo. E depois vem gente nova, porque vem sempre gente nova”, acredita.
Mas o que não Paco não vai esquecer é a imagem mais forte que lhe ficou na mente gravada. “Achas que estás a salvo de tudo e não estás a salvo de nada. A vida pode mudar num instante”, remata.