"Nós, portugueses, não temos direito de sermos racistas"

"Nós, portugueses, não temos direito de sermos racistas"

  • 13/07/2026 02:00
  • Redação

Tem início esta segunda-feira, em Cucujães, Oliveira de Azeméis, a XV Assembleia Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova (SMBN), um encontro que também será eletivo e que o ainda superior-geral, o padre Adelino Ascenso, entende ser um "momento de graça", em que haverá tempo para continuar a preparar o centenário da congregação.

Que importância tem esta XV assembleia-geral da Sociedade Missionária. O que vai tratar e quantos missionários vai juntar?

Qualquer assembleia-geral da Sociedade Missionária é, diria, uma graça e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade.

Há, naturalmente, grandes tensões, porque são tratados assuntos que têm a ver com o presente e o futuro da sociedade missionária. Neste momento, temos ainda uma preocupação acrescida, que é, ao mesmo tempo, também uma graça, que é o facto de nós estarmos na preparação para a celebração do centenário da criação da Sociedade Missionária, que foi criada em 1930. Portanto, em 2030 completamos 100 anos. Estamos, desde 2023, neste roteiro de preparação para desaguarmos, precisamente, em 2030, no centenário, que coincidirá com a XV assembleia-geral.

Portanto, esta XV assembleia-geral já tem o sabor dessa preparação dos últimos quatro anos, rumo ao centenário, que não é para terminar, naturalmente. O centenário será um ponto de partida.

As nossas preocupações principais têm a ver com aquilo que já o [Concílio] Vaticano II dizia e que são as preocupações do mundo que nos rodeia. Os desafios são os desafios do mundo secularizado, são os desafios do mundo pós-religioso, são as dificuldades que têm a ver com o diálogo inter-religioso, inter-cultural e também, que têm a ver também com esses desafios da inteligência artificial, do transumanismo, etc.

Portanto, os delegados são 13, que representam as nossas regiões de Moçambique, Angola, Brasil, o grupo do Japão e, naturalmente, também aqui o grupo de Portugal.

Como é que alguém que faz parte de uma igreja em missão, uma igreja também peregrina, olha para Portugal, um país onde cresce um discurso xenófobo, por vezes, violento sobre quem chega?

Com grande preocupação. Eu disse já uma vez há muitos anos, numa entrevista, algo que eu gostaria de reforçar: Nós, portugueses, olhando para a nossa história, olhando para o nosso diálogo com outras culturas, olhando também para a nossa grande dificuldade que nós tivemos para sair do país para ir em busca de um mundo melhor, nós não temos o direito de sermos xenófobos.

Nós não temos o direito de não acolher aqueles que se aproximam de nós, que vêm para Portugal em busca de uma vida melhor. Não temos esse direito! Porque não há portugueses de primeira e não há portugueses de segunda. Eu diria que não há seres humanos de primeira e não há seres humanos de segunda. Somos seres humanos e, portanto, voltando ao princípio, nós, portugueses, devido ao nosso passado, devido à nossa história, devido à nossa riqueza intercultural, nós não temos o direito de sermos xenófobos ou racistas.

É difícil, mas eu encontro uma explicação num descontentamento que, muitas vezes, as pessoas talvez não consigam identificar as razões desse descontentamento.

Há uns anos, tivemos uma pandemia que abalou muito os nossos valores, mesmo os nossos valores humanos, que nos ajudou a direcionarmo-nos no sentido de uma solidariedade. De facto, houve uma solidariedade extraordinária, mas também nos levou a sermos cada vez mais egoístas. E eu penso que este descontentamento que nós, muitas vezes, não conseguimos identificar, nós procuramos encontrar uma justificação que acaba por ser a mais simples. Naturalmente, a justificação mais simples é atacar o mais fraco.

Penso que isto, psicologicamente, talvez tenha a ver com este processo de não identificação do próprio descontentamento.

Moçambique é um dos países de missão, aliás, haverá também uma delegação nesta assembleia-geral. É uma região onde subsiste grande instabilidade, sobretudo no Norte, na região do Cabo Delgado. Como é que tem acompanhado a situação e que reflexos tem tido essa instabilidade ao nível da missão?

Claro que é preocupante, principalmente em Cabo Delgado, nós também temos missionários em Cabo Delgado. Aqui há uns tempos, quando em Cabo Delgado houve grandes dificuldades e num momento em que a situação estava a piorar, eu falei com um missionário de Pemba e ele disse-me claramente: padre, eu não quero sair daqui, aconteça o que acontecer. Por muito difícil que seja a situação, eu quero permanecer aqui junto do povo.

E isso alegrou-me muito, porque nós, missionários, devemos estar com o povo, principalmente nos momentos de maior dificuldade, mesmo que saiam todos, que fique o missionário.

Portanto, isso terá que ser o nosso carisma, porque se nós somos missionários, no fundo é para nos doarmos ao outro. E o doarmo-nos ao outro implica darmos a nossa vida, se necessário for.

A Sociedade Missionária tem tido vocações, principalmente de Angola, de Moçambique, algumas poucas do Brasil. De Portugal, neste momento, não temos. Há 10 anos que não temos vocações portuguesas.

Há 10 anos que não têm vocações em Portugal, mas, ainda assim, há bons exemplos a partir de Portugal. Eu lembro o caso, por exemplo, do bispo emérito da Guarda, D. Manuel Felício, que se tornou missionário na Gabela, em Angola?

Exatamente. Ele está connosco na Gabela e é um estímulo muito grande que um bispo, depois de se tornar emérito, decida dar alguns anos da sua vida às missões.

Isto é um estímulo muito forte para nós também e é também, naturalmente, uma responsabilidade. Sempre que há um estímulo, há uma responsabilidade diretamente proporcional.

Li uma entrevista publicada na vossa revista "Boa Nova", de julho, em que diz que o missionário nunca pode ser superficial, tem de beber do sumo da interioridade. É esta a inspiração que o tem inspirado, ao longo dos últimos anos, neste cargo de superior-geral?

Eu procuro que assim seja. Naturalmente, a prática fica sempre aquém daquilo que são os nossos desejos. Mas eu penso que nós, se não bebermos do sumo da interioridade, tornamo-nos banais e, tornando-nos banais, acabamos por secar, como missionários, como sacerdotes, como seres humanos. Nós precisamos de profundidade. Não podemos contentar-nos com a superficialidade. O mundo está cheio da superficialidade e está sedento de interioridade. E nós temos de ir ao encontro da sede desse mundo que procura, de facto, a interioridade, incluindo a juventude.

Nós cometemos um grande erro quando procuramos, eventualmente, preparar as coisas de forma mais simples para agradar à juventude. Isso é um grande erro, porque a juventude necessita de côdea, não só miolo. A juventude necessita de côdea, pão que tenha côdea, algo para roer, algo sólido, profundo, intenso. E, portanto, eu penso que nós, de facto, temos de beber da interioridade, porque, de outra forma, tornamo-nos banais.

Eu estou a terminar o meu terceiro mandato (2014-2018, 2018-2022 e 2022-2026). É mais que razoável que eu fique livre do cargo.

  • Fonte: Rádio Renascença
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