Médicos Sem Fronteiras acusa Rússia de atacar deliberadamente hospitais na Ucrânia
- 13/07/2026 07:52
- Redação
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) acusa a Rússia de conduzir uma estratégia deliberada e calculada para destruir o sistema de saúde na Ucrânia, através de ataques repetidos a hospitais, ambulâncias e profissionais de saúde.
No relatório "No Safe Place to Heal", divulgado esta segunda-feira, a organização afirma que a destruição das infraestruturas de saúde não é uma consequência acidental da guerra, mas sim parte de uma estratégia destinada a enfraquecer os cuidados médicos e a punir coletivamente a população.
Entre abril de 2022 e dezembro de 2025, a MSF documentou mais de 20 ataques contra unidades de saúde ligadas às suas operações. Quatro hospitais onde a organização prestava apoio foram totalmente destruídos, sete bases de ambulâncias tiveram de ser abandonadas e a organização perdeu acesso a mais de 80 aldeias em seis regiões onde assegurava cuidados de saúde primários através de clínicas móveis.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), foram registados 2.811 ataques contra serviços de saúde na Ucrânia entre fevereiro de 2022 e o final de 2025. Já o Ministério da Saúde ucraniano contabiliza mais de 2.500 unidades de saúde danificadas ou destruídas, das quais 327 ficaram completamente destruídas.
"Estes ataques são demasiado consistentes, demasiado frequentes e demasiado precisos para serem incidentais", afirma Robin Meldrum, coordenador da MSF na Ucrânia, citado em comunicado. "Quando hospitais são atingidos repetidamente, ambulâncias são atacadas por drones de precisão e profissionais de saúde são mortos enquanto transportam medicamentos em veículos claramente identificados, isto não é coincidência. É um padrão, e os padrões revelam intenção."
A destruição das infraestruturas e o receio constante de novos ataques estão a comprometer gravemente o acesso da população aos cuidados médicos, sobretudo para doentes com doenças crónicas.
Um inquérito realizado pela MSF junto de 187 civis em regiões próximas da frente de combate revela que a percentagem de pessoas que diz ter acesso aos cuidados de saúde "sempre" ou "na maioria das vezes" caiu de 72% antes da intensificação da guerra para apenas 35%. Em sentido inverso, aqueles que afirmam conseguir cuidados médicos "raramente" ou "nunca" aumentaram de 7% para 35%.
A organização alerta que doenças como diabetes, epilepsia ou problemas cardiovasculares, normalmente tratáveis, estão a tornar-se fatais devido à interrupção dos tratamentos e aos atrasos no acesso aos serviços de saúde.
Além disso, os hospitais que continuam em funcionamento enfrentam uma grave falta de profissionais. Num hospital apoiado pela MSF em Kherson, o número de médicos diminuiu 66% desde 2022.
A MSF refere ainda que as equipas médicas trabalham sob a ameaça permanente de drones FPV (First-Person View), utilizados para identificar e atacar alvos com elevada precisão.
A organização recorda que, a 29 de setembro de 2025, um enfermeiro e o diretor de um centro de saúde apoiado pela MSF foram atingidos por um drone russo enquanto transportavam medicamentos num veículo devidamente identificado, em Lyman, na região de Donetsk. O diretor perdeu uma perna no ataque.
Segundo o direito internacional humanitário, atacar deliberadamente profissionais ou veículos médicos identificados pode constituir um crime de guerra.
Os médicos da organização relatam também uma mudança no perfil dos feridos. Se anteriormente predominavam os ferimentos provocados por artilharia, os ataques com drones provocam agora múltiplas vítimas com lesões graves em simultâneo, aumentando os casos de infeção e de sépsis.
Um cirurgião da MSF descreve o caso de um doente que chegou ao hospital com uma perna amputada, fraturas expostas em três membros, múltiplos estilhaços e ferimentos no tórax, abdómen e cabeça, obrigando à intervenção simultânea de cinco cirurgiões durante cerca de seis horas.
No ano em que se assinalam dez anos da adoção da Resolução 2286 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que reforça a proteção das infraestruturas e do pessoal de saúde em conflitos armados, a MSF apela a todas as partes para que respeitem o direito internacional humanitário.
A organização pede ainda aos países com influência sobre a Rússia que pressionem Moscovo a pôr fim aos ataques contra os serviços de saúde e solicita ao Conselho de Segurança da ONU que investigue e denuncie publicamente estes ataques, demonstrando o compromisso com a aplicação da resolução.