A sociedade entra em campo
- 14/07/2026 01:00
- Redação
“Também no desporto de altíssima competição a tecnologia não falta, mas escasseia, aqui e além, o estar-com-os-outros, em direção à comunhão mais profunda que o Desporto exige e supõe” (Manuel Sérgio).
Em 2023, o saudoso Manuel Sérgio, filósofo do desporto, viu publicada a 4.ª edição do livro “Filosofia do Futebol”. Manuel Sérgio lê o futebol como um fenómeno humano total, em que se condensam corpo, afetos, ética, transcendência e estruturas de poder, e não apenas como uma técnica de jogo ou um espetáculo. Na sua perspetiva, o futebol torna se um espelho das promessas e contradições da sociedade moderna – da mercadorização à busca de superação, solidariedade e sentido. O objeto da sua filosofia do futebol não é a jogada em abstrato, mas o ser humano em movimento, com emoções, intenções, histórias e contextos sociais que se tornam visíveis na forma como joga. Na sua ótica, o jogo é uma microssociedade em que se articulam indivíduos, instituições, media, dinheiro e imaginário coletivo. Assim, o futebol, na sua filosofia, revela-se um laboratório de modernidade: nele se dramatizam, de forma concentrada, as tensões entre mercado e dignidade, entre espetáculo e educação, entre violência e ética, entre individualismo e transcendência solidária.
De facto, há muito tempo que as ciências sociais compreenderam que uma sociedade se revela de forma mais eloquente nas práticas do que nos discursos. Marcel Mauss descobriu-o nas técnicas do corpo; Clifford Geertz nas lutas de galos no Bali; Christian Bromberger nos estádios de futebol. Bromberger afirmou que o futebol é “a bagatela mais séria do mundo”: “Se nos apaixonamos tanto por esta história de pés, cabeças, troncos e golos, não é apenas pelas suas qualidades cénicas ou pelos seus mecanismos dramáticos, mas porque ela expõe, à maneira de um drama caricatural, o horizonte simbólico das nossas sociedades”. É necessário perceber o que já está em jogo quando a bola começa a rolar. É precisamente por isso que um estádio merece tanta atenção quanto um parlamento. Ambos são teatros onde uma sociedade se representa como um sociodrama.
Hans Ulrich Gumbrecht sublinhou que o desporto produz uma forma de presença que escapa à linguagem conceptual. Não vamos ao estádio apenas para compreender; vamos para experimentar. Talvez resida aqui uma das razões do sucesso do futebol. Numa época em que quase toda a experiência é mediada por ecrãs, algoritmos e dispositivos de previsão, continua a existir um lugar onde milhares de pessoas suspendem o quotidiano para esperar o imprevisível.
As sociedades contemporâneas parecem cada vez mais organizadas em função da quantificação. Medimos desempenhos, avaliamos produtividade e classificamos instituições, pessoas e territórios. A cultura dos indicadores tornou-se uma gramática comum. O futebol participa plenamente desta racionalização. Nunca soubemos tanto sobre um jogo: velocidade média, mapas de calor, probabilidades de vitória, métricas de rendimento, valor de mercado, algoritmos preditivos. E, no entanto, continua a escapar alguma coisa. O futebol tornou-se uma tecnologia social dos afetos.
Hartmut Rosa descreveu a modernidade tardia como uma sociedade submetida à aceleração permanente: multiplicam-se as ligações, mas empobrecem-se as relações; cresce o controlo técnico, mas diminui a experiência de ressonância. O futebol parece contrariar, ainda que de forma ambígua, esta lógica. Durante 90 minutos, uma multidão concentra a sua atenção num único acontecimento. O tempo deixa de ser apenas sucessão; transforma-se em intensidade. A espera, o silêncio antes de um penálti, a explosão de um golo, o desânimo de uma derrota: tudo isso restitui à experiência uma espessura temporal que a vida acelerada tende a dissolver. Um ressalto impossível, um erro imprevisível, um gesto técnico irrepetível podem anular semanas de cálculo estatístico. O futebol continua a recordar que a condição humana permanece irredutível aos modelos que pretendem antecipá-la. Jacques Rancière diria que aí o sensível se redistribui continuamente: aquilo que parecia estabelecido é subitamente reconfigurado por um acontecimento inesperado.
Nesta polifonia de perspetivas, vale a pena recordar Richard Giulianotti, que mostrou como o futebol se tornou um dos laboratórios privilegiados da globalização. Os clubes transformaram-se em marcas planetárias, os jogadores circulam como capital altamente especializado, os fundos de investimento participam no destino das equipas e os direitos televisivos reorganizam calendários, horários e competições. A lógica económica atravessa hoje o futebol com uma intensidade desconhecida há poucas décadas. Mas as pertenças locais/nacionais podem resistir obstinadamente a esta lógica global. Eduardo Archetti observou que o futebol participa na invenção permanente das identidades nacionais. O mesmo poderia dizer-se das identidades urbanas, regionais ou mesmo familiares. Um clube continua a ser uma herança transmitida entre gerações, um modo de habitar uma cidade, uma memória comum. O fenómeno é complexo. A economia global uniformiza os mercados; o futebol continua a diferenciar afetivamente os lugares. Talvez esta coexistência entre mobilidade global e enraizamento simbólico seja uma das marcas mais reveladoras da nossa época.
Num mundo em que aprendemos a gerir permanentemente as emoções – no trabalho, nas organizações, nas redes sociais –, o estádio continua a autorizar aquilo que quase todos os outros espaços desencorajam: o excesso. Grita-se sem constrangimento, abraçam-se desconhecidos, sofre-se coletivamente, celebra-se como se o tempo pudesse recomeçar. Não porque o futebol suspenda a ordem social, mas porque oferece uma forma socialmente legítima de intensificar a experiência. É por isso que Desmond Morris continua parcialmente atual ao descrever o futebol como uma tribo moderna. Não porque os adeptos regressem a formas arcaicas de organização, mas porque a modernidade nunca eliminou a necessidade de criar comunidades emocionais.
Charles Taylor recordou que as sociedades vivem de imaginários partilhados e que estes são anteriores às instituições. Peter Sloterdijk sugeriu que os seres humanos habitam esferas de coexistência que precisam ser constantemente recriadas. Talvez o estádio seja hoje uma dessas esferas provisórias: um lugar onde ainda é possível experimentar, durante 90 minutos, uma intensidade coletiva que escapa ao isolamento quotidiano. Bromberger tinha razão: trata-se de uma trivialidade. Mas poucas coisas triviais dizem tanto sobre aquilo que somos. Talvez um estádio cheio seja um dos lugares mais esclarecedores para observar a sociedade contemporânea. Não porque ali o mundo se esqueça de si próprio, mas porque, durante 90 minutos, se torna extraordinariamente presente.
Alfredo Teixeira: Coordenador da Cátedra Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência, UCP-CITER