Mais estrangeiros e mais interessados no interior. Guerra faz subir turismo em Portugal

  • 14/07/2026 02:00
  • Redação

Vêm principalmente do Reino Unido e da Alemanha e escolhem Portugal como alternativa às regiões do Golfo Pérsico, onde costumavam passar férias. A guerra entre Estados Unidos e Irão está a afastar turistas daquela região e o território português é cada vez mais procurado por população estrangeira.

“Beneficiámos ligeiramente sobre a entrada de pessoas”, adianta Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional de Agências de Viagem (ANAV). “Apesar do primeiro trimestre mais estável, no [consumidor] internacional, a escolha de Portugal tem subido, são os dados que temos até agora”.

Apesar destes movimentos positivos, a guerra no Médio Oriente também trouxe alguma apreensão no setor, principalmente nos destinos que são mais populares entre os turistas portugueses.

A subida nos preços dos combustíveis e o aumento generalizado do custo de vida levou muitas famílias a reorientarem as contas e isso já se nota na hora de reservar hotéis. “Embora exista necessidade de viajar e vontade de viajar, as pessoas acabaram por reorientar um pouco a sua programação em função do seu orçamento”.

Quanto às zonas afetadas pelas tempestades do início do ano, ainda há trabalho de reconstrução a fazer, mas muitos equipamentos turísticos e restaurantes já estão reabertos ao público. Miguel Quintas avisa, no entanto, que essa informação “tem de chegar mais rapidamente às agências de viagens e ao consumidor final”, para garantir que não há quebras nas receitas habituais do verão.

Para Ana Mendes Godinho, antiga secretária de Estado do Turismo (2015-2019), o Turismo de Portugal tem feito um “importante” trabalho em publicitar estes destinos e em criar linhas de financiamento para ajudar os empresários, mas considera que é preciso mais – nomeadamente, na distribuição dos apoios financeiros prometidos há cerca de seis meses, na altura dos temporais.

“Tenho muita sinalização de vários apoios que ainda não chegaram às pessoas e às empresas e isso é crítico. Fica aqui um apelo: por favor, é mesmo preciso que isso aconteça”, pede a socialista.

Passeios de mota, caminhadas, arrendar uma casa no Alentejo ou na Beira Interior. Tudo isto são opções cada vez mais populares para quem quer passar férias, que prefere o chamado “turismo lento” (em inglês, “slow tourism”) em vez dos habituais destinos de sol e praia.

“Não tenho dúvidas que nos próximos anos iremos estar a trabalhar muito na personalização e no conhecimento do destino turístico e não tanto naquilo que sempre foi habitual, o tal turismo de massas”, prevê Miguel Quintas.

Segundo estimativas do setor, a procura por estes pacotes turísticos tem alimentado cerca de 10% ao ano. A explicar estes números, está o desejo das famílias em viverem “experiências diferenciadas e únicas”, mas também uma preocupação com a sustentabilidade.

“As pessoas procuram que a parte ecológica e a sustentabilidade sejam reais e que os serviços e produtos representados no turismo tenham essa prestação real, quantificada, do contributo para a manutenção do futuro da humanidade.”

Para Ana Mendes Godinho, estes são dados animadores e que, antes de mais, permitem rentabilizar e proteger o interior do país, nomeadamente através dos apoios do programa Revive.

“Graças a estes programas, já há dezenas de imóveis que estavam abandonados nas áreas protegidas e que se transformaram em casas de alojamento local. Passaram a dar vida e segurança àquelas áreas. São formas de fixar a população, de ter oportunidades de desenvolvimento local, de proteção do território.”

Primeiro foram os sites de reservas de voos e hotéis, agora a inteligência artificial (IA) que constrói autênticos planos de férias em frações de segundo. A tecnologia veio aumentar os desafios para as agências de viagens – mas isso não assusta o setor.

“É bom que exista”, vaticina Miguel Quintas. “Há algo dificilmente substituível, que é a relação pessoal. Sei que eu posso confiar numa pessoa, que vai cuidar de mim porque conhece os meus hábitos e da minha família, as minhas necessidades. Se tiver um problema, posso contar com alguém que está na origem da minha viagem, que sabe os caminhos que tem de percorrer”.

Ana Mendes Godinho também prefere olhar para as potencialidades da IA no turismo, mas vira a agulha para outro alvo: a mão-de-obra, tantas vezes precária e com horários de trabalho pouco saudáveis.

“Se desocuparmos tempo perdido em burocracia, estamos a deixar espaço para as pessoas se dedicarem a outras atividades que se calhar consumem menos tempo da sua capacidade. Portanto, há maior capacidade de conciliação da vida pessoal familiar e profissional.”

Ainda assim, a socialista avisa que também aqui a IA precisa de regulação. E, aí, só há uma mão suficientemente forte para ser eficaz: a União Europeia.

“A capacidade de inteligência artificial fica nas mãos de entidades que ninguém controla. A certa altura, já o próprio poder desaparece da capacidade de intervenção dos estados e dos territórios e isso é muito complicado”, conclui.

  • Fonte: Rádio Renascença
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