França-Espanha. Uma fronteira com 367 anos, um duelo que só aconteceu uma vez

França-Espanha. Uma fronteira com 367 anos, um duelo que só aconteceu uma vez

  • 14/07/2026 05:00
  • Redação

Foi em 1659, há 367 anos, que a fronteira entre França e Espanha foi formalmente definida, com a assinatura do Tratado dos Pirinéus, que ditou o fim de uma guerra de 24 anos. O Campeonato do Mundo dura há quase um terço do tempo passado desde então (leva 96 anos de existência), no entanto, por estranho que pareça, as seleções masculinas de futebol dos dois países só se enfrentaram uma vez.

Foi nos oitavos de final do Mundial 2006, dois anos antes de a Espanha conquistar a Europa. No dia 27 de junho, a equipa francesa venceu por 3-1, com golos de Franck Ribéry, Patrick Vieira e Zinédine Zidane, que deram a volta ao penálti inaugural de David Villa. A França avançou para os "quartos", e depois para as meias-finais, em que eliminaria Portugal, e finalmente para a final, que perderia para a Itália.

Desde então, as duas seleções não mais se encontraram em fases finais do Campeonato do Mundo. Até esta terça-feira, quando "Les Bleus" e "La Roja" pisarem o relvado do Dallas Stadium (onde a Espanha chutou Portugal para fora da prova), em Arlington, nos Estados Unidos, para as meias-finais do Mundial 2026.

Neste duelo, poderemos ver, por exemplo, o jovem prodígio Lamine Yamal rodeado de defensores franceses — um pouco à semelhança da povoação de Llivia, que, devido a um erro técnico, ficou condenada, para a posteridade, a ser um enclave espanhol num mar de aldeias francesas. Poderemos, também, ver o domínio passar de um lado para o outro — como a Ilha dos Faisões, uma ilha fluvial inabitada no Rio Bidasoa, no País Basco, que é administrada em condomínio pelos dois países: a cada seis meses, passa de Espanha para França para Espanha para França. Se o factoide lhe despertou curiosidade turística, desista já: a ilha está fechada a visitantes.

O traçado entre França e Espanha sofreu alterações posteriores a 1859. Terá sido em 1868 que ficou definida a delimitação definitiva, embora ainda tenha havido mais trocas e baldrocas até ao século XX, em especial no que diz respeito à Catalunha e ao País Basco. Que o diga Aymeric Laporte, francês com ascendência basca e que, por ter jogado sete anos no Athletic de Bilbau (o clube que só contrata bascos e ao qual regressou em 2025/26), ganhou dupla nacionalidade espanhola.

Hoje em dia, as relações institucionais entre França e Espanha são pacíficas e estreitas. Longe vão os tempos de guerras constantes. No campo de futebol, contudo, a rivalidade é grande e, nos últimos anos, tem proporcionado grandes confrontos.

Ainda assim, é muito mais comum ver um duelo entre as duas seleções em Europeus que em Mundiais. No campo dos encontros oficiais, tudo começou na final do Euro 1984, quando os franceses venceram os espanhóis, por 2-0, com golos de Michel Platini e Bruno Bellone, e levantaram a taça. Continuou no Euro 1996, na fase de grupos, com um empate por 1-1 (Youri Djorkaeff e José Luis Caminero).

Quatro anos depois, o Euro 2000, com nova vitória francesa, esta nos quartos de final, por 2-1: marcaram Zidane e Djorkaeff para os "blues", Gaizka Mendieta para "La Furia". Em 2006, o referido duelo nos "oitavos" do Mundial da Alemanha, que sorriu aos homens de azul (branco). A primeira vitória espanhola em confrontos oficiais chegaria nos "quartos" do Euro 2012: 2-0, bis de Xabi Alonso, e a equipa ibérica prosseguiria para a conquista do título europeu, o segundo da sua história.

O duelo seguinte chegaria apenas nove anos mais tarde, já na era da Liga das Nações. Foi precisamente na final da segunda edição da nova prova da UEFA, em 2021 (a edição inaugural, em 2019, foi conquistada por Portugal) que a França derrotou a Espanha, por 2-1, com golos de Karim Benzema e Kylian Mbappé, em resposta ao de Mikel Oyarzabal (dois destes jogadores deverão ser titulares esta terça-feira).

A "desforra" viria passado três anos, quando Lamine Yamal e Dani Olmo deram a volta ao golo de Randal Kolo Muani e apuraram (2-1) a Espanha para a final do Euro 2024, que viria a vencer. Como se não bastasse, no ano seguinte, os espanhóis eliminaram novamente os franceses numa meia-final, esta da Liga das Nações. Foi um festival de golos, 5-4: Nico Williams, Mikel Merino, Yamal e Pedri marcaram para o lado "rojo"; Mbappé, Rayan Cherki, Dani Vivian e Kolo Muani para os "bleus".

Chegamos ao fim do histórico de confrontos entre França e Espanha em competições oficiais. Em particulares, as duas seleções já se defrontaram 26 vezes e o saldo é amplamente favorável aos ibéricos: 14 vitórias, contra sete dos gauleses.

As duas equipas chegam a esta meia-final com um pleno de vitórias nos seis jogos que já disputaram no Mundial 2026, todas sem precisar de ir a prolongamento.

A Espanha vai na série de invencibilidade mais longa da sua história: 36 jogos sem perder; a última derrota foi em março de 2024, diante da Colômbia. Venceu 27 jogos e empatou nove. Além disso, venceu quatro das cinco finais de grandes competições (Europeus e Mundiais) que já disputou. Curiosamente, a única derrota foi, precisamente, aos pés da França — o 2-0 do Euro 1984.

Já a França está na terceira semifinal de um Mundial consecutiva (um feito apenas igualado pela Alemanha — 1982 a 1990 e 2002 a 2014 — e pelo Brasil — 1994 a 2002) e venceu as três: Bélgica em 2018, Marrocos em 2022 e, agora, a Espanha.

Quanto a selecionadores, este é o fim de ciclo de Didier Deschamps, que quererá despedir-se da seleção francesa com um segundo título mundial (terceiro, se contarmos com a vitória como jogador em 1998). Já Luis de la Fuente, o técnico com quem a Espanha se tornou a primeira seleção a vencer a França duas vezes consecutivas, chegou ao lugar em 2023 e tem contrato até ao Euro 2028.

Franceses e espanhóis defrontam-se esta terça-feira, às 20h00, em Dallas, nos EUA.

  • Fonte: Rádio Renascença
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