"Espero que também seja uma boa notícia para todos os algarvios." D. Vitorino Soares é o novo bispo do Algarve

  • 14/07/2026 06:30
  • Redação

O bispo D. Vitorino Soares diz que a notícia da sua nomeação para a Diocese do Algarve “como uma boa notícia” e espera que também o seja para os algarvios.

Assumindo que nada conhece — “felizmente” — da diocese que vai dirigir, D. Vitorino Soares, explica que “é algo, apenas, que tenho de acolher. Não tenho, sequer, de interrogar, mesmo sem saber o que vem daí”.

“Estou totalmente livre, estou a começar do zero e por isso estou disposto a aprender e aprender com aqueles que me antecederam”, reforça.

Recebi como uma boa notícia. Também para mim foi uma boa nova, um Evangelho. Nesta idade e depois destes quase sete anos de experiência como bispo auxiliar do Porto, esta nomeação surgiu como um dom, de facto. É algo, apenas, que tenho de acolher. Não tenho, sequer, de interrogar, mesmo sem saber o que vem daí.

Quero manter esta atitude dos primeiros discípulos, que recebem o Mestre, não se interrogam nem respondem. Vão atrás dele e é essa a minha atitude, neste momento. Mas é, realmente, um momento de muita felicidade, de muita alegria. Fiquei muito feliz com a notícia e recebo-a, de facto, como uma boa notícia. Espero que também seja uma boa notícia para todos os algarvios.

Eu, felizmente, não conheço nada. Estou a zero. Nunca fiz planos, nunca fiz prospeções, nunca andei preocupado com números nem com realidades. Isso dá-me, pelo menos, a vantagem de não ter preconceitos, de não ter dependências, de não ter ligações a nada nem a ninguém.

Estou totalmente livre, estou a começar do zero e, por isso, estou disposto a aprender e aprender com aqueles que me antecederam. Neste caso, o D. Manuel Quintas, a quem felicito e muito agradeço. E a todos aqueles que com ele colaboraram. Ou não, mas que, de certo modo, são expressão desta realidade algarvia. Vou para aprender e espero que possa ser um bom aluno, que aprenda rapidamente a lição e possa caminhar com todos os algarvios. Essa é a minha disponibilidade, neste momento.

Sim, a primeira etapa vai ser, de facto, conhecer. E, portanto, para conhecer é estar com as pessoas, é escutar. Nós sabemos que a melhor forma de conhecer é estar. Este conhecimento não é feito a partir de números, a partir de relatórios, é a partir de um parar e, por isso, é necessário parar para ver a realidade, para ouvir as preocupações, as dificuldades e também os desafios e sonhos e, naturalmente, também planos e projetos. E a melhor forma de o fazer é estar com as pessoas.

Vai ser esse o meu primeiro propósito: contactar com as pessoas, ouvi-las, conhecê-las e, em conjunto, tentarmos formar uma família, tentar formar uma igreja, uma diocese, onde todos possamos caminhar. Eu caminho com eles e, por isso, estou nesta atitude de os acompanhar. Mas o primeiro passo vai ser o contrário: será deixar-me acompanhar por todos.

Ainda sem um conhecimento profundo da diocese, sabemos que é uma região que vive muito do turismo. É um desafio particular presidir uma diocese salpicada por diferentes culturas?

Eu acho que sim, porque isso também acaba por ser enriquecedor. Isto é, acaba por ser uma variedade que traduz também uma pluralidade e é na pluralidade que nós também nos vamos enriquecendo. Portanto, não haverá assim um perfil único, mas, com certeza, uma heterogeneidade, imagino eu, de línguas, de culturas, até de formas de estar religiosas, o que vai permitir esta capacidade de podermos ser mediadores, intermediários. Isso ajuda a descobrir, de facto, um mundo que, à partida, seria impossível ou, pelo menos, não estaria desenhado nem esboçado na cabeça de ninguém.

Mas porque é um ponto de encontro, quer dizer que as pessoas ali têm algum interesse e, às vezes, a dificuldade será essa e eu encaro-o como um desafio que é purificar as próprias motivações. Se há motivações para as pessoas irem para ali, há que as aproveitar, conhecê-las e, naturalmente, dar-lhes um sentido cristão, que é o meu papel como bispo e como pastor. Com ovelhas tão diferentes, o meu papel é tentar que todos nos sintamos membros do mesmo rebanho, apesar da nossa diferença.

Preocupam-no, de alguma forma, os discursos populistas, xenófobos e às vezes racistas numa região onde chegam muitos imigrantes para trabalhar?

Claro que isso tem que preocupar a todos, não é só a mim, tem que preocupar qualquer ser humano e qualquer cristão. Quem vê apenas a sua imagem, apenas aquilo que vê ao espelho, naturalmente não está a ver bem.

Eu, quando me vejo ao espelho, tenho que ver outros rostos, tenho que ver outras opções, tenho que ver outras possibilidades, naturalmente, outras opiniões e, portanto, isso é mais um desafio. Mas, com certeza, isso também me vai ajudar a crescer e vai ajudar a caminhar. Não é motivo para desanimar nem é motivo para parar. É, exatamente, motivo para avançar. Não fiquemos paralisados nem atrofiados por isso; deixarmo-nos envolver por essa diversidade.

Foi um bocadinho assim que Jesus também acabou por trabalhar. Jesus, muitas vezes, procurou campos impuros exatamente para os transformar e, portanto, o meu papel como sucessor dos apóstolos e do próprio Jesus é não me esconder, não fugir, mas encarar exatamente essas frentes e tentarmos todos convertermo-nos com certeza daquilo que é melhor para todos. Esta é que é a grande dificuldade. O que é melhor para mim, eu ainda vou sabendo facilmente. Agora, aquilo que é melhor para o outro e para os outros é um esforço, é um caminho que todos temos que fazer.

Sim, sim. A minha preocupação vai ser estar com as pessoas e, sabendo que isso é uma realidade, naturalmente, tenho que tomar uma posição para defender sobretudo quem não é defendido. Ser, muitas vezes, a voz daqueles que não têm voz.

Essa tem que ser uma presença da Igreja, que pode trazer, com certeza, consequências, nem sempre as melhores, mas não é essa a minha preocupação. A minha preocupação é defender as pessoas independentemente da sua cor, da sua língua, da sua raça, do seu estatuto. A minha preocupação é que todos possam estar melhor.

Exatamente, pois, quando for necessário, há que ter voz. É precisa, muitas vezes, essa coragem. É preciso, às vezes, algum rasgo, alguma ousadia. Mas, se for para benefício das pessoas, não importa muito que os mediadores acabem por ser crucificados. Não importa muito. O que importa, naturalmente, é aquele que quer libertar as pessoas e quer, naturalmente, o bem das pessoas. E eu acredito que as pessoas também ouvirão a voz, que não é a minha voz, mas será a voz do senso comum, será a voz daquilo que é a humanidade, que, no fundo, é a voz de Deus também em cada pessoa, em cada cabeça, em cada mente, em cada rosto, em cada homem, em cada mulher.

Portanto, há que afinar um bocadinho e purificar aquilo que às vezes são tendências que nem sempre são bem refletidas, bem pensadas, são mais imediatas. São tendências muitas vezes espontâneas, mas que depois refletidas, com certeza, também levam a um caminho mais alargado, onde todos têm lugar e em todos cabemos.

Eu queria-lhe perguntar se tem um gosto particular a nomeação coincidir com o dia da ordenação sacerdotal?

É uma satisfação muito grande, porque eu, neste dia, neste 14 de julho, celebro a minha ordenação sacerdotal. Recordo que o bispo que me ordenou, que foi D. Júlio Tavares Rebimbas, também foi bispo no Algarve. Não sei se são sinais de Deus, cada um lê como entender, mas, para mim, foi uma grande satisfação por coincidir. É um momento de alegria, em que eu celebro o dom de sacerdócio. E vai ser agora um dom mais acrescentado, também com esta nomeação. Espero saber enfrentar este desafio e esta missão que a Igreja me confiou, e que o Papa Leão XIV também quis colocar nas minhas mãos, a quem agradeço também naturalmente este mandato.

Sim, neste momento está previsto o dia 19 de setembro, que é um sábado. Falta definirmos a hora, não sei se 16horas ou 17 horas, não sei... Será ao fim da tarde, mas, entretanto, vamos comunicar.

  • Fonte: Rádio Renascença
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