Sapos portugueses mudam alimentação devido às alterações climáticas

Sapos portugueses mudam alimentação devido às alterações climáticas

  • 14/07/2026 11:42
  • Redação

Os girinos do sapo-comum português conseguem alterar a alimentação em função da temperatura da água, numa estratégia que lhes permite responder ao aquecimento provocado pelas alterações climáticas. No entanto, essa capacidade torna-se progressivamente menos eficaz à medida que as temperaturas continuam a subir, conclui um estudo internacional liderado por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), publicado na revista Scientific Reports.

A investigação incidiu sobre o sapo-comum (Bufo spinosus), uma espécie amplamente distribuída em Portugal. Os cientistas estudaram girinos recolhidos na Serra de Sintra e criados em laboratório sob diferentes condições de temperatura e alimentação, para perceber de que forma o aquecimento influencia o seu desenvolvimento e comportamento alimentar.

A primeira autora do estudo, Sara Bento, explica, citada em comunicado, que os resultados são inéditos.

"Este é o primeiro estudo deste género realizado em vertebrados e mostra que os girinos conseguem ajustar a sua alimentação em função da temperatura", afirma.

Segundo a investigadora, "em temperaturas mais baixas os girinos incorporam uma maior proporção de alimento de origem animal na dieta, enquanto em temperaturas mais elevadas aumentaram o consumo de matéria vegetal e a taxa de consumo". Contudo, acrescenta, "verificámos que esta estratégia se torna progressivamente menos eficaz à medida que a temperatura aumenta".

O estudo mostra também que o aumento da temperatura acelera o desenvolvimento dos animais. Nos ensaios realizados, o período larvar passou de cerca de 177 dias, a 12 ºC, para apenas 30 dias, a 20 ºC. Porém, este crescimento mais rápido tem consequências.

Os investigadores verificaram que os sapos que completaram a metamorfose em ambientes mais quentes apresentavam menor massa corporal e pior condição física do que aqueles que cresceram em temperaturas mais baixas.

Além disso, o trabalho demonstra, pela primeira vez em vertebrados, que a capacidade de compensar os efeitos do aumento da temperatura através da alimentação é limitada por constrangimentos fisiológicos.

Os investigadores identificaram ainda outro efeito relevante: as temperaturas mais elevadas alteram a composição dos tecidos dos jovens sapos após a metamorfose, sugerindo que o aquecimento global modifica também a forma como estes animais processam e armazenam nutrientes.

Segundo a equipa, esta descoberta poderá ter consequências muito para além dos anfíbios.

Os resultados ajudam a compreender como o aquecimento global pode alterar as relações alimentares entre espécies e influenciar o funcionamento dos ecossistemas aquáticos. Ao modificar a composição dos tecidos dos animais, a subida da temperatura poderá também alterar o seu valor energético enquanto presas, produzindo efeitos em cascata nas cadeias alimentares.

Perante este cenário, os investigadores defendem que, numa região mediterrânica particularmente vulnerável às alterações climáticas, a preservação de refúgios térmicos em zonas húmidas e outros ecossistemas de água doce poderá desempenhar um papel fundamental na proteção dos anfíbios e de muitas outras espécies aquáticas.

O estudo foi desenvolvido por uma equipa do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em colaboração com investigadores da Queen Mary University of London, no Reino Unido, e da Universidade de Uppsala, na Suécia, tendo sido financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

  • Fonte: Rádio Renascença
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