Montenegro "não tem capacidade de governação que gere estabilidade e confiança políticas", diz politóloga

Montenegro "não tem capacidade de governação que gere estabilidade e confiança políticas", diz politóloga

  • 15/07/2026 01:00
  • Redação

Há mais de uma semana que professores e diretores escolares relatam problemas com a digitalização das provas e a correção dos exames do ensino secundário. Fernando Alexandre atirou as culpas para os problemas técnicos, o primeiro-ministro andava a cruzar o Atlântico para assistir aos jogos da seleção no Mundial de Futebol e o Governo acabou por adiar o calendário, mas sem dar mais pormenores sobre como resolver o problema.

Este é o assunto que vai marcar o debate do Estado da Nação de quinta-feira e que, na opinião da politóloga Paula do Espírito Santo, mostrou a ineficácia do Governo que, por responsabilidade própria, não conseguiu transmitir uma imagem de estabilidade e confiança políticas.

Na análise de Paula do Espírito Santo, o Governo de Montenegro não tem uma estratégia clara para viabilizar as suas medidas: “Agora, no caso da educação, não se tratava de nenhum acordo nem de nenhuma negociação com nenhum parceiro político ou parceiro social, mas era necessário que houvesse capacidade de governação e que essa governação gerasse estabilidade e confiança política” diz a politóloga.

A professora universitária acredita que esta polémica dos exames e “a ineficiência das decisões que foram tomadas” vai marcar o debate no Parlamento, com uma avaliação negativa e numa altura em que a oposição está unida no “coro de críticas” à falta de respostas e “à eventual incapacidade de se conseguirem soluções”.

“O primeiro-ministro está a desencadear algumas manobras de diversão, e está a dar uma importância bastante residual ao que está a acontecer. Não parece que seja a melhor estratégia porque este problema mereceria maior dedicação por parte do primeiro-ministro, e que deveria também despender o seu tempo, não de passagem em outros acontecimentos [no festival Alive], mas ter tempo para poder fazer até uma comunicação ao país”, diz a especialista.

A professora universitária lembra que no passado, e na sequência de casos semelhantes em que as respostas estavam incompletas devido à perda das folhas suplementares, foram anunciadas e tomadas medidas para minimizar os danos, o que aqui ainda não aconteceu.

“No passado pode já ter acontecido algumas situações como esta, por exemplo, com bónus acrescidos relativamente a respostas que se sabe que estão incompletas, não por dificuldade de os alunos responderem, mas precisamente porque houve essa perda de parte do exame das folhas suplementares e isto pode ser uma solução possível, mas não se sabe que soluções vão ser desencadeadas”, refere.

No último ano, o Governo e o PSD têm repetido, até à exaustão, que não há parceiro preferencial para um acordo e, por isso, o diálogo será feito umas vezes com o PS e outras com o Chega.

A professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa considera que esta estratégia não está a dar resultados.

“O Governo está muito marcado por uma grande incapacidade de negociação e de consistência no estabelecimento de pontos com parceiros privilegiados”, diz a politóloga.

“A grande dificuldade que o Governo teve até agora é que à sua direita tem um partido, o Chega, que não é um parceiro de confiança, como já se viu por exemplo no caso do pacote laboral, mas por outro lado sabemos que há uma insatisfação profunda por parte da esquerda, neste caso o PS, que seria o partido que poderia viabilizar soluções, que sente aqui uma dificuldade também de proximidade, de negociação e de relação com o Governo”, levando José Luís Carneiro a endurecer as críticas.

“Temos, por isso, um Governo que não identificou uma estratégia que pudesse dar a longevidade natural de uma legislatura e que permitisse que essa legislatura decorresse com um mínimo de paz social, de tranquilidade e também de capacidade de integração de soluções que fossem benéficas não apenas para o governo, mas integrar algumas da oposição”, refere Paula do Espírito Santo.

Ao longo deste ano, o Governo conseguiu aprovar as leis da imigração e da nacionalidade com o apoio do Chega, a Prestação Social Única e o Orçamento do Estado com o Partido Socialista.

O pacote laboral, que andou um ano a ser negociado na Concertação Social e depois no Parlamento, acabou rejeitado pelo Chega.

Se o Governo entra no debate muito desgastado, Paula do Espírito Santo diz que a oposição ganha força com a “instabilidade e clima de contestação” que este processo dos exames está a gerar.

“Sempre que o Governo não consegue gerir e governar de forma eficaz e quando se gera toda esta instabilidade e clima contestação e dúvidas e desconfiança sobre a política e particularmente sobre quem nos governa, por defeito as oposições acabam sempre por ser ganhadoras”, refere.

A professora universitária destaca a posição do líder do PS, José Luís Carneiro, que considera “ter capacidade para se fazer ouvir na praça pública e que está permanentemente a atuar do ponto de vista retórico e exigir que o Governo possa ser mais claro nas suas decisões”.

Por outras palavras, a oposição está a ganhar terreno não por mérito próprio, mas porque favorece de um mau momento do executivo de Montenegro que, na opinião de Paula do Espírito Santo, não consegue dar soluções para problemas imprevistos e que não são de fácil resolução.

  • Fonte: Rádio Renascença
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