Como a guerra das Malvinas ainda faz ferver o Argentina-Inglaterra. "Hoje já não faz sentido misturar"

Como a guerra das Malvinas ainda faz ferver o Argentina-Inglaterra. "Hoje já não faz sentido misturar"

  • 15/07/2026 04:18
  • Redação

Já passaram mais de 40 anos desde que Inglaterra e Argentina estiveram em guerra pelas Ilhas Falkland (ou Malvinas, para os sul-americanos). Esta quarta-feira, as duas seleções vão disputar um lugar na final do Mundial 2026 e o tema volta à ribalta, mas quem viveu o conflito acredita que, ao dia de hoje, já não faz sentido usar a guerra para alimentar uma rivalidade desportiva.

Desde o século XIX que os argentinos reclamam soberania sobre as ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, localizadas no sul do Atlântico, nas proximidades do território continental argentino, mas sob controlo do Reino Unido.

No dia 2 de abril desse ano, a forças militares da Argentina invadiram o arquipélago localizado a cerca de 200 milhas do seu território continental. Até hoje, os argentinos chamam-lhes as ilhas Malvinas. Para os ingleses, são as Falkland.

Carlos chegou a Portugal há 20 anos, vive em Cascais, e já não se imagina noutro local. Em 1982, acabado de fazer 18 anos, foi empurrado para uma realidade menos idílica: uma frente de batalha.

"Estava na Marinha a fazer o curso de mergulhador de resgates e fazia a ligação entre a ilha e o porta-aviões. Levava soldados à linha da frente e trazíamos os feridos para um barco-hospital. Não matei ninguém, mas vi muitos feridos e muito sangue", conta.

Morreram mais de 600 argentinos e outros 1700 ficaram feridos. Do lado britânico, contabilizam-se mais de 250 mortos. Dante Nicolás não está nesta contagem, mas o que testemunhou também deixou uma ferida aberta: "Vi rapazes da minha idade sem perna, ou sem braço. Nada do que é dito na formação iguala a primeira estalada que levas na guerra."

A violência de uma guerra fez com a ingenuidade da juventude rapidamente se esfumasse: "Devia estar a dançar numa discoteca ou a namorar com uma miúda, mas estava numa guerra que, ao início, não compreendia. Achava uma idiotice aquelas armas todas."

"Tudo muda quando começas a ouvir os gritos, as explosões. É como se, de repente, passas a ser um adulto. É uma coisa brutal", completa.

A guerra prolongou-se durante pouco mais de dois meses e terminou com triunfo britânico. Nada mudou no controlo sobre o arquipélago.

A Argentina continua a reclamar soberania sobre as ilhas Malvinas, que consideram estar ainda sob ocupação ilegal Carlos Dante Nicolás concorda: "As Malvinas vão ser nossas para sempre. Por direito, por legado, herança, proximidade", considera.

No entanto, Nicolás é totalmente contra a guerra, que considera que apenas aconteceu por decisão de uma ditadura às portas do colapso.

"A guerra é uma estupidez, sobretudo por ter passado por ela. Aquela terra é nossa, mas politicamente foi uma estupidez. A ditadura estava a cair, o país estava muito mal economicamente, como sempre, e eles tomaram essa decisão", lamenta.

Este ano, o tema voltou a mexer quando Donald Trump, presidente norte-americano, ter levantado a hipótese de retirar a soberania britânica do território devido à posição do Reino Unido na guerra entre Estados Unidos e Irão.

O conflito armado terminou em 1982, mas a tensão entre os dois países manteve-se. E menos de quatro anos depois de ter sido disparado o último tiro nas Malvinas, os dois países encontraram-se num outro teatro de guerra: um campo de futebol.

Argentina e Inglaterra mediram forças nos quartos de final do Campeonato do Mundo de 1986. Até hoje, um dos jogos mais icónicos na história da competição.

Diego Armando Maradona foi a cara da vingança argentina no relvado. Marcou um dos melhores golos de sempre, ao fintar meia equipa inglesa até marcar golo e bisou pouco depois, um golo marcado com a mão que os árbitros não viram. A Argentina passou e venceu esse Mundial.

"Aquele golo foi uma espécie de justiça. Foi com batota, sem dúvida, mas há uma frase que diz que quem rouba um ladrão, tem 100 anos de perdão. Um país que nem dinheiro tinha para camisolas conseguiu burlar uma potência futebolística e económica, quatro depois do conflito. Para nós, foi uma piada enorme. Naquela altura, não era só futebol", atira o realizador argentino.

Mais de 40 anos depois, Carlos Dante Nicolás não concorda com quem alimente, de forma séria, a rivalidade no futebol com o conflito armado nas Malvinas: "Hoje digo que é só um jogo."

"São duas seleções extremamente boas, é uma meia-final de um Mundial. Não é qualquer um que chega, os ingleses são incríveis com o Kane e o Bellingham e a maioria dos argentinos jogam em Inglaterra. É uma estupidez misturar as Malvinas com o jogo de amanhã", atira.

O selecionador argentino, Lionel Scaloni, tem a mesma opinião: "É uma partida de futebol. Não vamos buscar outra coisa. É um jogo de futebol, não é mais que isso."

Carlos acredita que a Argentina vai superar a Inglaterra, mas já não tem tanta confiança para a final: "Não sei se chegamos lá [ao título]. A França é muito forte, mas para mim, esta seleção já não tem nada a provar." [a conversa aconteceu antes da primeira meia-final, que sorriu à Espanha]

Argentina e Inglaterra defrontam-se, esta quarta-feira, às 20h00. Em jogo, um lugar na final do Campeonato do Mundo de 2026. Os argentinos querem revalidar o título de 2022, os ingleses querem voltar a levantar o troféu que só ergueram uma vez, em 1966.

  • Fonte: Rádio Renascença
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