Do vermelho a Beckham ao pouco diplomático Rattín, como foram os Argentina-Inglaterra nos Mundiais?
- 15/07/2026 06:24
- Redação
Antes e depois de Maradona, da "mão de deus" e da Guerra das Malvinas, a bola girou sempre entre florestas de homens enfiados nas fardas de Argentina e Inglaterra nos Campeonatos do Mundo.
Esta quarta-feira, as duas seleções voltam a medir forças, agora por um lugar na final do Mundial. Nos últimos dias muito se tem recordado o mítico encontro de 1986, disputado no Estádio Azteca, marcado pela "mão de deus", pelo "golo do século" e pelo contexto político da Guerra das Malvinas/Falklands.
No entanto, a história entre argentinos e ingleses em Mundiais vai muito além desse jogo. Houve mais quatro confrontos, todos eles carregados de simbolismo e episódios que ajudaram a construir uma rivalidade única.
O primeiro duelo aconteceu na fase de grupos do Mundial de 1962. Depois de perder na jornada inaugural, a Inglaterra entrava obrigada a vencer para continuar a sonhar com o apuramento para os quartos de final. A Argentina, que havia começado a prova com um triunfo, sabia que um empate deixava a qualificação bem encaminhada.
Os ingleses entraram fortes e colocaram-se em vantagem através de um penálti convertido por Ron Flowers. Ainda antes do intervalo, Bobby Charlton ampliou para 2-0. Na segunda parte, Jimmy Greaves fez o terceiro golo inglês e praticamente sentenciou a partida. José Sanfilippo ainda reduziu para a Argentina, mas já sem capacidade para relançar o encontro.
A vitória permitiu à Inglaterra seguir em frente, enquanto os argentinos somaram a terceira eliminação consecutiva na fase de grupos de um Campeonato do Mundo, um cenário que só voltaria a repetir-se em 2002.
A caminhada inglesa terminaria logo na ronda seguinte, com uma derrota por 3-1 frente ao futuro campeão, o Brasil.
Quatro anos depois, as duas seleções reencontraram-se nos quartos de final. A Inglaterra, anfitriã da competição, carregava a pressão de conquistar o primeiro título mundial diante do seu público.
O encontro terminou com um triunfo inglês por 1-0, graças a um golo de Geoff Hurst, mas ficou para a história por um motivo bem diferente.
Antonio Rattín, o capitão da Argentina que morreu no passado sábado, era conhecido pela sua agressividade e protagonizou um dos momentos mais polémicos da história dos Mundiais. Aos 35 minutos, após uma entrada dura, dirigiu-se de forma exaltada ao árbitro alemão Rudolf Kreitlein, que decidiu expulsá-lo.
Na altura ainda não existiam cartões amarelos nem vermelhos. A expulsão era comunicada apenas verbalmente, o que originou um enorme mal-entendido, já que Rattín alegou não compreender o que o árbitro lhe dizia.
O argentino recusou abandonar o relvado durante vários minutos e, quando finalmente saiu, amarrotou a bandeirola de canto com a bandeira inglesa e sentou-se na carpete vermelha preparada para a Rainha Isabel II. Em Wembley, os adeptos ingleses responderam atirando objetos para o relvado.
O episódio levou a FIFA a acelerar a criação de um sistema disciplinar universal. Inspirado nas cores dos semáforos, nasceram os cartões amarelo e vermelho, introduzidos oficialmente no Mundial de 1970, conferindo maior autoridade e clareza às decisões dos árbitros.
Mais do que uma vitória inglesa, este jogo marcou o verdadeiro início da rivalidade entre as duas seleções, que atingiria o auge vinte anos mais tarde, no México, já sob a sombra da Guerra das Malvinas/Falklands.
A Inglaterra acabaria por conquistar o seu único Campeonato do Mundo, enquanto a Argentina teria de esperar até 1978 para levantar o primeiro troféu.
Já se disse tudo sempre este jogo dos quartos de final do Campeonato do Mundo no México. Diego Maradona meteu a mão e, como disse a Kusturica, sentiu que roubou a carteira aos ingleses. Poucos minutos depois, para lavar a alma do futebol, Diego pegou na bola, deixou alguns ingleses para trás e meteu a bola na baliza de Peter Shilton, que nunca perdoou a batotice original ao mago sul-americano.
A 10 minutos do apito final, Gary Lineker reduziu e garantiu o lugar mais alto na lista dos melhores marcadores do torneio.
A Argentina seria campeã do mundo, depois de superar a Bélgica na semifinal, contra a Alemanha, com golos de José Luis Brown, Jorge Valdano e Jorge Burruchaga. Do outro lado, Karl-Heinz Rummenigge e Rudi Völler marcaram os golos para a seleção orientada por Franz Beckenbauer.
Doze anos depois da "Mão de Deus", argentinos e ingleses voltaram a encontrar-se, desta vez nos oitavos de final do Mundial de França.
O encontro foi um dos melhores da competição. Gabriel Batistuta abriu o marcador de penálti, mas Alan Shearer respondeu da mesma forma e, poucos minutos depois, Michael Owen assinou um dos golos mais memoráveis da história dos Mundiais, após uma arrancada extraordinária desde o meio-campo. Ainda antes do intervalo, Javier Zanetti empatou com uma brilhante jogada estudada na sequência de um livre.
Na segunda parte surgiu outro dos momentos icónicos da rivalidade. David Beckham foi expulso por responder com um pontapé a Diego Simeone, que exagerou na reação e ajudou a convencer o árbitro a mostrar o cartão vermelho ao inglês.
Sem mais golos até aos 120 minutos, a decisão foi para os penáltis. Hernán Crespo e Paul Ince desperdiçaram as segundas tentativas das respetivas equipas, antes de David Batty falhar o remate decisivo que colocou a Argentina nos quartos de final.
A seleção sul-americana acabaria eliminada pela Holanda, num jogo eternizado pelo magistral golo de Dennis Bergkamp nos instantes finais.
O mais recente capítulo desta rivalidade aconteceu no Mundial de 2002, novamente na fase de grupos.
A Inglaterra venceu por 1-0 graças a um penálti convertido por David Beckham, que encontrou a redenção quatro anos depois da expulsão em França.
Apesar do triunfo, os ingleses não conseguiram seguir muito longe na competição, acabando eliminados pelo Brasil nos quartos de final.
Já para a Argentina, a derrota foi determinante. Os sul-americanos acabaram afastados ainda na fase de grupos, algo que não acontecia desde 1962 e, curiosamente, num grupo que voltava a incluir a Inglaterra.
Agora, 24 anos depois do último duelo em Mundiais, as duas seleções voltam a cruzar-se. O contexto é diferente, as gerações também, mas o peso da história continua intacto. Cada novo Argentina-Inglaterra é mais do que um jogo de futebol: é mais um capítulo de uma rivalidade que atravessa décadas e que ajudou a moldar a história dos Campeonatos do Mundo.