Pedro Amador joga em Atlanta, defrontou Messi e não se vê em Portugal pelas "condições de trabalho"
- 15/07/2026 07:30
- Redação
Nasceu em Santa Iria de Azóia, nos subúrbios de Lisboa e foi na capital que começou a vestir de verde-e-branco. Formado no Sporting, Sacavenense e Belenenses, chegou à Primeira Liga pela mão do Sporting de Braga, mas foi no Moreirense que deu nas vistas. O impacto foi sentido no outro lado do Atlântico e o chamamento chegou de Atlanta, cidade que recebe esta quarta-feira a segunda meia-final do Mundial 2026.
Pedro, bem-vindo à Bola Branca. Está a regressar agora aos trabalhos, depois de uma pausa por causa do Mundial. Como tem corrido a época?
Neste momento estamos a meio da época. A última não foi uma época muito boa a nível desportivo, não tivemos grandes resultados, não atingimos os objetivos que queríamos. Esta já está a ser um pouco melhor [14.º lugar da conferência Este]. A expectativa também é melhorar ainda mais agora, depois da paragem do Mundial. Queremos retomar e começar a segunda metade da época da melhor forma.
Para quem não está familiarizado com o futebol norte-americano, isto não é tão simples como em Portugal, certo?
Sim, nós agora estamos na fase de campeonato. A Liga é dividida em duas conferências, Este e Oeste. E o nosso objetivo é chegar à fase dos playoffs, que começa a partir do nono lugar.
E isso está alinhado com os seus objetivos para a época? Se é que estipulou alguns concretos…
Para esta época tenho como objetivo jogar o máximo de minutos possíveis. Eu estou em final de contrato aqui, por isso quero jogar ao máximo. Depois logo se vê o que se pode passar.
Não olho voltar a Portugal neste momento. É claro que, se surgir uma oportunidade num dos clubes assim maiores, não digo que não, mas voltar para a realidade de Portugal, não vejo com esses olhos. Pela experiência que tive aqui fora, por todas as condições que se tem fora do país, especialmente aqui, onde eu estou, neste momento não me vejo a voltar a Portugal, mas nunca se sabe. Nunca se diz nunca.
Não acredito que seja pela parte da competitividade, porque em Portugal há muita competitividade. Acredito que é mais a parte das condições de trabalho, a nível geral. Em Portugal estão a melhorar muito as condições de trabalho. Eu estava no Moreirense, estive lá quatro anos, e melhorou muito ao longo desses quatro anos. E agora está a melhorar ainda mais. Mas aqui, a nível de clubes, a nível de estrutura, de condições de trabalho, é diferente. Ao nível de clubes tens condições espetaculares. Espetaculares. De trabalho, de clube, de academia, de estádios, tudo.
Basta olhar para o seu clube, o Atlanta United. Apesar de não ser um dos clubes com mais tradição na MLS tem um estádio para mais de 70 mil pessoas…
Sim, é muito essa coisa do “ser grande”, das coisas grandes, aqui é tudo à grande [risos]. E também há uma parte diferente, porque os clubes são comandados por donos. É um conceito diferente. Mas sim, acho que essa diferença das condições de trabalho, de estrutura e tudo, acho que é muito diferente.
E em termos de futebol, o que acha do futebol nos Estados Unidos? Muito diferente de Portugal e da Europa?
Aqui o futebol também tem muita técnica, atenção. Há jogadores com muita qualidade, que têm muito nome, também. Mas depois acaba por ser também muito físico, porque muitas vezes o jogo parte, fica muito baseado na transição. Até porque, como disse, têm esses jogadores de renome, que são normalmente mais contratados para atacar do que para defender. Por isso acaba por partir um bocado o jogo e ser mais essa parte de transição, ataque-defesa, defesa-ataque. Há jogos que acabam por ser muito baseados nessa parte física de correres a linha para trás e para a frente a todo o minuto. Se quiseres atacar, tens de correr, porque senão não tens hipótese.
Já, já. Olha, a primeira vez foi logo na primeira época, em que cheguei a meio, e logo nos playoffs contra o Inter Miami. Foi um play-off à melhor de três jogos e correu-nos muito bem, conseguimos eliminá-los. Perdemos o primeiro jogo lá, depois ganhámos em casa e fomos ganhar lá outra vez. São três jogos que me ficam na memória, porque fiz uma assistência em cada um deles.
É diferente, é diferente. É como o Cristiano para nós, é diferente. E jogar ali contra ele, estar ali no mesmo campo que ele... vê-se que é muito difícil. Ele não está no auge da carreira, mas é muito difícil, é muito difícil, sem dúvida.
Sim, mesmo em tudo o que engloba o jogo. Eu lembro-me perfeitamente: no segundo jogo desse playoff, em Atlanta, o estádio estava cheio, com quase 70 mil pessoas. Estávamos a jogar em casa. Ele entra em campo… e de repente parecia que estávamos a jogar fora. É muito isso que ele move também. Mas a sensação é muito boa, é muito boa.
Cheguei a trocar ali uma ou outra palavra com ele, porque ainda por cima era o jogador do lado direito, então apanhava-o sempre ali junto a mim. Cheguei a pedir a camisola, mas acho que não tive sorte no jogo em que pedi, porque ganhámos [risos]. Aquilo depois não passou muito bem.
Eu acho que acabas por preparar igual a todos os jogos. Preparas a equipa, mas claro que depois tens de ter atenção. Porque vais apanhar o Lionel Messi, não é? Não se sabe o que é que ele vai fazer, tens de estar com o dobro ou o triplo da atenção. E mesmo assim, às vezes não é suficiente. Mas acho que o melhor é mesmo preparar como se fosse um jogador igual e ter sempre o foco no máximo. Porque se estás ali focado só em defender o Messi, acabas por ficar à deriva durante o jogo.
Por falar em Messi, vai estar também no Mundial, em princípio o seu último e também do Cristiano Ronaldo. Tendo em conta que Atlanta vai receber jogos da competição, vocês têm falado muito do Mundial no balneário?
Sim, a malta tem falado, tem perguntado. Acho que Portugal vai ser campeão. Não é favorito, porque acho que só é favorito quem já ganhou. Portugal acredito que esteja muito perto. Acredito que, com a seleção que temos, a probabilidade é muito alta, mesmo muito alta. Mas no final logo vemos. Espero que eu não agoire a malta, no final logo vemos.
Por acaso falei disso aqui no balneário, até porque tenho alguns colegas que vão jogar no Mundial. Nós, com a seleção que temos em Portugal, é muito difícil irmos. Temos jogadores nos melhores clubes do mundo. Estava a falar com um colega meu, que é espanhol, e tem a mesma questão.
Entrarmos numa seleção dessas é muito difícil. Porque são Seleções que têm jogadores nos melhores clubes do mundo, e temos jogadores que ficam de fora com muita qualidade também. Eu não acho que seja injusto para os jogadores que ficam de fora por causa disso, mas é muito difícil. Somos um país com muita qualidade, com uma formação de jogadores muito boa, e acaba por ser muito difícil fazer uma seleção de 26 e dizer que é justo. É muito difícil.
E ainda se cruzou no seu percurso com alguns jogadores que foram convocados agora…
Sim, estive com o Samu Costa no Braga. Também estive com o Trincão, com o Ricardo Velho, com o Palhinha, que não foi. O Paulinho…
Jogou com os dois jogadores que provavelmente disputaram a corrida mais acesa pela mesma vaga, o Samu e o Palhinha. Concordou com a opção de Roberto Martínez?
É como te digo: na convocatória anterior ao Mundial, quando vieram cá jogar aos Estados Unidos, o mister chamou muitos jogadores que podiam ir. E depois acabou por escolher o Samu. E bem, porque fez uma época também muito boa. Se tivesse escolhido outro jogador, como o Palhinha ou o Matheus Fernandes, também era justo, porque também fizeram uma época muito boa. O Ricardo Horta também, outros jogadores. É como digo, não é justo nem injusto. É algo que o treinador achou que era melhor pelas qualidades do jogador e, sem dúvida, estou muito contente por ele.
Nestas coisas, o contexto deve ajudar muito, não? Por exemplo, o Francisco Trincão teve uma primeira época muito contestada no Sporting e pode vir a sair como um dos jogadores mais importantes da história recente do clube…
Eu acho que o contexto importa e o momento em que estamos também. E o local onde estamos inseridos. O Trincão, se não me engano, saiu do Barcelona quando foi para o Sporting. E essa transição se calhar não foi boa, porque no Barcelona se calhar não correu assim tão bem. A adaptação pode ter-lhe custado um pouco. Mas depois o contexto ajudou, porque apanhou o Ruben Amorim, que já conhecia do Braga, e as coisas começaram a suceder.
Posso dar-te o meu exemplo: eu cheguei aqui a Atlanta. Na primeira época, a equipa estava bem e acabei por fazer 14 assistências. Na segunda época já não correu tão bem, já andámos um bocado perdidos durante o ano, a equipa já não estava interligada e acabou por ser uma época muito abaixo. Dito isto, sim, o contexto importa. Onde estás inserido importa no desempenho.
Tem mobilizado muita gente. A cidade está toda decorada com as coisas do Mundial. Aqui o estádio também é incrível. As expectativas são muito boas. Espero ver Portugal nas meias-finais e depois na final.