Patriarca lamenta fosso salarial entre portugueses e europeus. "Desde que me lembro, é isto"
- 16/07/2026 01:15
- Redação
Apesar do aumento exponencial do custo de vida, os salários dos portugueses continuam a ser muito inferiores aos que se pagam noutros países da Europa. Uma "desvantagem" incompreensível, ainda mais porque não se alterou em cinco décadas de democracia, diz o patriarca de Lisboa.
Voluntário de rua no apoio aos sem-abrigo – pelo menos uma vez mês –, o patriarca garante que não tem faltado nem sensibilidade, nem vontade política, aos sucessivos governos para resolver o problema, que não é exclusivo de Portugal e que exige, por isso, uma resposta europeia.
Confirmando que muitos dos que estão na rua são imigrantes, D. Rui Valério lamenta que o país não tenha sido ainda capaz de definir uma estratégia de integração com sentido e com propósito.
Sobre a crise na habitação, lamenta que tenha deixado de ser vista como um direito, e que esteja também a contribuir para o aumento da emigração.
Os dados sobre a pobreza revelam as desigualdades que ainda persistem em Portugal. Segundo o INE, o risco de pobreza até diminuiu, mas aumentou nas famílias com filhos e, no caso das famílias monoparentais, subiu 4,1 pontos percentuais, ultrapassa os 35%, com o que isso também significa em termos de pobreza infantil. São dados preocupantes?
São dados preocupantes, pelo facto de que não são números, não são apenas informações abstratas.
Quem está no terreno sabe que isso corresponde à realidade. Há pessoas que vivem o dia a dia com muitas dificuldades, quando alcançam uma determinada posição no calendário mensal, o tipo de comida, a qualidade de vida começa a diminuir. O que é notório, e deve igualmente preocupar-nos, é uma certa resignação da parte da sociedade.
Desde que me lembro, e já vou nos 60 anos, que Portugal é isso: não houve um período, uma década, uma época em que não fosse assim. Dá a sensação que isto é uma sina que nos calhou na sorte, e da qual nós não somos capazes de nos desembaraçar.
Mas, no Portugal democrático esperava-se que, passados tantos anos do 25 de Abril, a situação económica já fosse mais estável e mais confortável para a maioria da população?
Sim. Reafirmando e sublinhando a preciosidade da conquista da democracia, da possibilidade, que é dada a todos os cidadãos, de iguais oportunidades – o ensino superior, e uma carreira profissional prometedora, não estão reservados a determinadas castas, é muito mais ampla e democrática –, a verdade é que há fatores que permanecem tal e qual como antigamente.
Por exemplo, em 1967 o senhor Joaquim – que não é nome fictício, é verdadeiro – trabalhava na Câmara Municipal de Ourém, chega a casa à noite, depois de um dia de trabalho, nota que na cozinha caía água. Foi ver o que se passava, ele precisava de meia dúzia de telhas para reparar o telhado e não tinha como comprar essas telhas, como fazer face àquela despesa. Uns dias depois emigra para a França, para responder a uma necessidade de urgência, que nem era uma coisa do outro mundo, era reparar o telhado da casa.
Nós hoje, grosso modo, não estamos muito diferentes do que estávamos na altura: os níveis de jovens que emigram continuam em alta, continuamos a olhar para a Espanha, para a França, para a Alemanha, como o "El Dorado", e nós, verdadeiramente, continuamos aqui no mesmo sítio.
Isso tem a ver claramente com o nível salarial, que é muito baixo no nosso país, embora as despesas sejam equiparadas neste momento aos países mais desenvolvidos da Europa.
Tocou aí num ponto pelo qual eu tenho sido muito corrigido, e até agradeço a quem o faça. Eu sei que não tenho todas as habilitações da ciência económica e financeira para compreender todas essas nuances, mas o que é verdade é que em 1972 os meus tios, que trabalhavam em França, na construção civil, em oficinas e fábricas, ganhavam o triplo do trabalhador que aqui em Portugal trabalhava nas oficinas, na construção civil e em fábricas. Na altura, dizia-se que os níveis de produção lá eram superiores. Eu fico surpreendido que, em 2026, a justificação que se dava em 1972 é, grosso modo, ela por ela.
Eu sei que não possuo o segredo da ciência da economia e da finança, o que eu compreendo é que um português, que faz parte do mundo ocidental, que está integrado numa comunidade de nações, que é um projeto maravilhoso de caráter político, mas também económico, social, antropológico e existencial, e o português está, nesse aspeto, em desvantagem.
Há uma relação estreita entre pobreza, exclusão social e o número de pessoas em situação de sem-abrigo, que também tem vindo a aumentar, ultrapassa os 14 mil, de acordo com os dados mais recentes. Foi voluntário de rua nesta área – não sei se ainda continua a prestar apoio, desde que é patriarca? Como é que olha para este indicador?
Aqui é mais do que preocupação. É um sentimento de impotência, verdadeiramente. Porque sabemos que tantas pessoas que acabam ali na rua, não são só oriundas de outros países que chegam e não encontram habitação. Uma parcela significativa é igualmente vítima de circunstâncias, de adições, de dependências, mas há também quem esteja na rua porque não tem outro sítio para se abrigar, para estar. Quando se vai à rua para distribuir alimentos, ainda que a minha principal finalidade não seja tanto essa...
Uma vez por mês, dentro das minhas possibilidades de escutar, de acolher, de ouvir. O que nós ali vamos escutando, em termos de partilha de circunstâncias de vida...
Eu compreendo que para quem está nos altos níveis e nos altos padrões do escalão social é difícil compreender como, por vezes, 20 euros ou 50 euros, mensalmente, podem fazer toda a diferença, não é só para ter ou não ter um prato de sopa, é para poder ou não poder pagar o quarto, o apartamento ou a casa.
E nós, talvez não tenhamos dado devidamente conta de que, de repente, houve aqui uma subida de preços em relação às coisas básicas, que teve logo uma repercussão.
Sabemos que a pandemia veio trocar as voltas, havia uma Estratégia Nacional para a Erradicação da Pobreza, que provoca as situações de sem-abrigo, mas falhou tudo. É urgente os políticos repensarem e tomarem medidas que deem resposta a esta situação?
Divido a minha resposta em dois momentos: em primeiro lugar, creio que não falhou tudo e gostaria aqui de ser justo. Desde que sou bispo, e concretamente desde que sou patriarca de Lisboa, conheci já pessoas nas responsabilidades governativas e nas responsabilidades camarárias de duas áreas políticas diferentes, de partidos diferentes, mas há uma coisa que é comum, e tenho que o dizer: é a preocupação para resolver estas situações. Hoje, como no governo anterior, há uma disposição, uma vontade de resolver estas questões, estas situações. Isso não falhou.
Olhando para os nossos responsáveis políticos, nós não podemos ignorar que existe sensibilidade para com estas situações de fragilidade, de vulnerabilidade e de pobreza.
Para fazer face à pobreza, à realidade dos sem-abrigo, do desemprego, da saúde, da educação, etc, eu penso que aquilo que falha é que haja uma política da União Europeia para estes fins. Nós integramos uma comunidade, que eu gosto de dizer que é um projeto – mais do que político, é um projeto antropológico e social.
Os desafios que nós temos em Lisboa são os mesmos de Roma, de Berlim e de Paris. Cá, como lá, neste âmbito estamos numa profunda sintonia e fraternidade.
Creio que hoje estes problemas que envolvem o ser humano, que envolvem a sociedade, que envolvem pessoas, são de tal ordem que já não se compadecem com soluções de caráter local, de caráter particular ou de caráter nacional. Era necessário que houvesse aqui verdadeiramente uma abrangência, uma perspetiva comunitária que envolvesse a União Europeia.
Acho que tem falhado, da parte da União Europeia, esta sensibilidade para olhar para a parte mais abaixo no escalão da sociedade. (Estão) muito atentos a outros horizontes, a outros propósitos e projetos, mas no que diz respeito a pessoas com vulnerabilidade, fragilidade, ver como é que podemos constituir aqui uma política comum, eu acho que é isso que tem falhado, a esse nível. Os problemas são demasiadamente abrangentes, complexos.
Numa cidade como Lisboa sabemos que a questão da imigração também tem tido reflexos nestes números. Há imigrantes que, por falta de capacidade de acolhimento, também acabam na rua.
É verdade e eu confirmo isso. Acabam na rua, por um lado, e por outro, acabam numa situação que é quase como a pescadinha de rabo na boca: ou seja, são pessoas que, não tendo residência, dificilmente encontram um trabalho; não tendo residência nem trabalho, dificilmente aceleram o seu processo de legalização, e depois isto vai-se repetindo quase que até à exaustão. Há aqui quase que um círculo vicioso do qual é difícil sair.
Temos depois esta nuance, de que hoje os problemas relacionados com imigrantes – mais do que problemas, os desafios, porque estamos a falar de pessoas – não são apanágio apenas da cidade, ou da grande cidade. Hoje é transversal a todas as terras, a todas as geografias de Portugal.
Julgo que talvez fosse o momento para, como país, nós nos perguntarmos o que é que estas pessoas que vieram até nós, que estão cá a residir – para as quais, provavelmente, não estávamos devidamente preparados para as receber –, o que é que hoje o país, a nossa sociedade, poderá fazer, que portas poderá abrir, que estradas poderá percorrer, para que nós com eles, e eles connosco, formemos verdadeiramente uma sociedade, toda ela a trabalhar para o mesmo fim.
E não é só isso o problema. O problema é que se vai resolvendo, ou respondendo às necessidades, às urgências, ao que vai emergindo pontualmente. Não há aqui uma visão de conjunto, do todo. Por exemplo, quais são as áreas da nossa economia onde estas pessoas poderiam verdadeiramente ser integradas para fazer toda a diferença, para alcançarmos os níveis de produção mais elevados? Não há isto. As pessoas vão sendo contratadas, aceites, "é preciso aqui uma, depois é preciso lá outra". Estamos a tentar tapar o sol com a peneira.
É preciso tentar garantir que são bem acolhidas e têm condições dignas, não só a habitação, mas tudo o resto?
Eu não vou dizer que isso é um outro capítulo. Isso é o essencial, é o fundamental! Se nós estamos a falar do Estado da Nação, o primeiro ponto que deve ser frisado nesta avaliação e reflexão, é exatamente o estado do respeito pela dignidade de cada cidadão. É a base de tudo o resto. Se falta isto, tudo o resto vem desvalorizado.
Os baixos salários e as dificuldades em arranjar casa são alguns dos fatores que levam, como referiu há pouco, os jovens a emigrar. Estamos com uma nova geração que quase já só perspetivas de vida lá fora, e é legítimo que muitos não queiram regressar. O país pode pagar uma fatura cara por não dar condições às novas gerações?
Eu não tenho estudos aqui à minha frente, vou pelo senso comum. Mas, repare que Portugal não é um país que atraia investimento de grande monta. A Europa abdicou da indústria, que se mobilizou para outras geografias, outros horizontes, e abdicar disso significa ter abdicado da capacidade criativa, transformadora.
Também não estamos no pelotão da frente no que diz respeito à vanguarda da tecnologia, estamos muito aquém de outros países, no capítulo da Inteligência Artificial. Continuamos a ter uma história riquíssima, continuamos a ser ricos também no que diz respeito à substância, à estrutura do humanismo – creio que na Europa, e em Portugal concretamente, temos níveis de humanismo, de sentido da importância e do valor do ser humano que – não vou dizer que são únicos no universo, mas não se encontram em todas as geografias, em todos os continentes.
Portanto, somos grandes em áreas que são capitais e fulcrais, mas abdicámos, acho que com uma certa precipitação, de sermos proativos no que diz respeito à inovação. Vamos muito atrás do que os Estados Unidos e a China têm feito, e isso é o reflexo do êxodo da inteligência, do saber e dos cientistas que temos visto partir.
Também é uma questão salarial, é verdade, porque um jovem (qualquer pessoa) hoje, em Portugal, para fazer face ao básico, necessita de ter níveis salariais, não vou dizer transcendentes, mas acima daquilo que é o nosso ordenado mínimo nacional.
A questão da habitação, sabemos que o Governo tem tomado medidas que continuam a ser muito criticadas. O Estado devia fazer mais a este nível? Tem faltado sensibilidade política para garantir o direto à habitação?
Não creio que o problema resida na falta de sensibilidade, honestamente creio que ela existe.
A habitação começou a ser um fator determinante para a avaliação da própria economia. Os entendidos explicarão muito melhor do que eu, mas eu penso que este fator de que a habitação hoje já não é vista tanto como um direito, que assiste a todos os cidadãos, passou a ser vista como um elemento económico.
Uma área de investimento, no qual eu posso ganhar muito, posso ganhar pouco, posso perder. Quando comecei a ver que o estado da economia de um país era muito avaliado de acordo com as casas que se vendiam e com as casas que se compravam - atenção, é a sensibilidade de um humanista que está aqui a falar -, pensei 'então, mas uma casa é como o ar que se respira, precisamos dela para viver'. Quando colamos o tema da habitação a estes patamares (da economia e da avaliação de uma economia), claro, vamos cair sempre nisto e vamos fazer depender a habitação, existir ou não existir, do ritmo e das oscilações dos mercados. Significa que a comandar a emergência, ou não emergência de uma residência, já não é a necessidade, já não é o ser humano, já não é a pessoa, mas é o dinheiro.