O adeus ao histórico Parque Soares dos Reis. E agora, onde se joga o futuro do Vilanovense?

O adeus ao histórico Parque Soares dos Reis. E agora, onde se joga o futuro do Vilanovense?

  • 16/07/2026 06:50
  • Redação

Passavam poucos minutos das 20h quando os sub-11 do Vilanovense realizavam o último treino no Parque Soares dos Reis. Enquanto isso, em Dallas, França e Espanha discutiam um lugar na final do Mundial.

No sintético não havia lágrimas nem lamentos. Havia sorrisos, gargalhadas, gritos - o cenário habitual de um treino de verão de futuros craques.

Não porque desconhecessem que aquele era o último dia naquele estádio, mas talvez porque o mais importante fosse aproveitar cada minuto e construir uma última memória de um lugar que, para eles e para tantos outros, era como uma segunda casa.

Nas bancadas, porém, o ambiente era diferente. Houve quem comentasse o penálti assinalado sobre Lamine Yamal, mas a maioria das conversas girava em torno da despedida do Parque Soares dos Reis.

"Não sei. Gostava de ir, mas o puto ainda vai tomar banho e ainda tenho de jantar", respondia.

E, de uma forma ou de outra, esse era o sentimento que se ia repetindo entre quem assistia ao treino.

A verdade é que, às 21 horas, estavam lá quase todos para dizer adeus a um cantinho que também sentiam como seu.

A ligação entre o Vilanovense e o Parque Soares dos Reis remonta a 1923. Nesse ano, o clube fundado em 1914 abandonou o antigo Campo do Fojo e trocou a zona de Coimbrões pela de Mafamude.

Na década de 90, o Vilanovense adquiriu metade do terreno por 10 mil contos, mas a escritura nunca chegou a ser formalizada. O objetivo passava por comprar, mais tarde, a restante parcela e assegurar definitivamente a posse do estádio.

O processo acabou, porém, nos tribunais. Os proprietários do terreno perderam nas duas primeiras instâncias, mas venceram o recurso na terceira.

Apesar de terem sido condenados a indemnizar o Vilanovense em cerca de 50 mil euros, a decisão judicial determinou que o clube passasse a pagar a renda pela totalidade do terreno. Um encargo incomportável para a realidade financeira do emblema gaiense.

Perante esta situação o clube viu-se obrigado a abandonar a sua casa, não sendo ainda certo onde irá jogar na próxima temporada.

A despedida não começou à hora marcada, talvez de forma propositada. À medida que sócios e adeptos iam chegando, multiplicavam-se os abraços, os sorrisos e os reencontros.

No fundo, eram esses pequenos gestos que sempre fizeram daquele espaço uma casa.

As velhas bancadas, algumas ainda com bancos de madeira, já estavam preenchidas por centenas de adeptos quando foi dada autorização para descerem ao relvado.

No centro do campo erguia-se um pequeno púlpito, palco de um adeus carregado de simbolismo.

O primeiro discurso assentou numa ideia simples: "Há lugares que não desaparecem, porque vivem na memória."

E foi precisamente essa memória que se seguiu. Um vídeo projetou uma sucessão de fotografias que percorreu gerações, desde os primeiros tempos do Parque Soares dos Reis até à temporada agora terminada.

Os mais antigos deixaram-se emocionar pelas imagens. Os mais novos, com a irreverência e a energia próprias da idade, aproveitaram o momento para correr até à outra metade do campo e jogar, talvez sem o perceberem por completo, a última partida do mítico Soares dos Reis.

Seguiu-se a intervenção de Bruno Cardoso. O recém-eleito presidente da comissão administrativa, em funções há pouco mais de duas semanas, chegou ao púlpito com várias páginas de discurso preparadas.

No entanto, à medida que as ia lendo e pousando de lado, a emoção foi-se sobrepondo às palavras.

Recordou alguns dos momentos mais marcantes da história do clube centenário: "Quem se lembra daquele golo do Coutinho, do meio-campo, no Vilanovense 4-3 Lourosa? E das épocas na II Divisão Nacional?"

Quem se lembrava sorriu. Não porque fosse um dia feliz na história do clube, mas porque são precisamente essas recordações que tornam a despedida tão difícil.

O discurso prosseguiu, prestando homenagem às figuras que marcaram a história do clube, aos que já partiram e também aos VilaBoys, a claque que, durante décadas, nunca deixou de empurrar o emblema de Mafamude.

Bruno Cardoso terminou o discurso com um apelo direto a Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia:

"Quero fazer um apelo emocionado ao presidente da Câmara de Gaia: ajude-nos. Queremos colaborar, queremos articular, queremos construir. Porque acreditamos que o futuro do Vilanovense também faz parte do futuro desta cidade."

O presidente transmitiu o sentimento que toda a comunidade sentia. O desamparo de, de repente ficar sem teto, e a urgência de encontrar um local ao qual chamar casa.

Seguiu-se o hino do Vilanovense. Pela última vez, ecoou no Parque Soares dos Reis.

Na bancada atrás da baliza, os VilaBoys acenderam a pirotecnia e fizeram ouvir os cânticos de sempre

Aos poucos, os cânticos foram-se calando. As pessoas começaram a abandonar o estádio. Mas nem todos conseguiram partir de imediato.

Oliveira, antigo jogador do Vilanovense durante cinco temporadas, permanecia no relvado, ainda incrédulo com o que estava a acontecer.

"Estou mesmo triste. Isto é uma coisa inaceitável. Um clube com 112 anos de história ser corrido daqui... Não sei de quem é a culpa, mas certamente há aqui outros interesses."

Para quem vestiu aquela camisola, o Soares dos Reis era muito mais do que um campo de futebol.

"É um campo mítico. Foi a minha casa e a de muitos outros durante muitos e muitos anos. Há tantas coisas que são reversíveis. Esta, pelos vistos, era irreversível. Vá-se lá saber porquê”, lamentou.

"Há sempre esperança. Mas deslocalizar um clube da sua casa, do centro da cidade... Este lugar é digno de um filme e tem uma história que não merecia acabar assim”, concluiu.

A próxima época vai avançar, garante Bruno Cardoso, ainda que "dentro dos possíveis". O Vilanovense continua sem saber onde irá disputar os jogos, mas a direção encontra-se em conversações com as entidades municipais para encontrar uma solução que permita assegurar a atividade do clube.

O tão desejado estádio próprio terá de continuar a esperar. Já o terreno do Parque Soares dos Reis deverá dar lugar a construção, afirma sem certezas, o presidente da comissão administrativa.

Esta terça-feira marcou o adeus a um palco que, durante mais de um século, fez parte da identidade do Vilanovense e de Mafamude. Mas não marcou o fim do clube. Porque há uma convicção que permanece intacta: "Enquanto houver um gaiense, não morre o Vilanovense."

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: