António Costa “deveria ser um verdadeiro presidente do Conselho” com “uma agenda proativa", diz Lídia Pereira
- 16/07/2026 06:40
- Redação
A UE quer aumentar a produtividade, investimento e inovação, e até já arranjou um slogan: “Uma Europa, Um Mercado”. O problema é que os 27 Estados-membros ainda não conseguiram acertar agulhas e fazer acelerar a economia. E o “deve e haver “continua a não ser animador, pelo contrário.
De acordo com as autoridades aduaneiras chinesas, o excedente comercial da China com a União Europeia bateu um recorde mensal em junho de cerca de 28,9 mil milhões de euros.
Este valor representa uma subida de 27% em termos homólogos e não se trata de um mero desequilíbrio pontual: no primeiro semestre de 2026, a China exportou para a União Europeia cerca de 274,3 mil milhões de euros, enquanto as importações não chegaram aos 120 mil milhões.
Quanto maior é o défice europeu, maior é a pressão sobre Bruxelas para aumentar a defesa comercial apostando, por exemplo, em tarifas.
Lídia Pereira alerta que um eventual “confronto com a China, tal como se viu nas tarifas dos Estados Unidos, não é um confronto desejável porque não terá um fim...é uma escalada que não tem sentido”.
Como se resolve, então? “A Comissão Europeia está a trabalhar para 27 Estados-membros diferentes e, portanto, é óbvio que há entendimentos diferentes que devem ser consertados em sede de Conselho Europeu. Aquilo que me parece essencial é que haja uma agenda no Conselho Europeu – e que podia ser muito bem liderada por António Costa, já que é Presidente do Conselho Europeu – no sentido de privilegiar esta autonomia estratégica e combater a fragmentação que existe do mercado, e que se vê materializada na diferença do excedente comercial chinês com a Alemanha e com a França”.
“António Costa deveria despir a veste de Secretário-Geral do Conselho Europeu e ser um verdadeiro presidente do Conselho, e conseguir assim ter uma agenda proativa, e não reativa, face a notícias desta natureza. Estamos quase a chegar quase a metade do primeiro mandato do Conselho Europeu e eu acho que é também um momento importante para fazermos este tipo de avaliações”, conclui a eurodeputada do PSD.
O excedente comercial da China com a União Europeia bateu um recorde mensal em junho. Que sinal é este?
Uma das coisas que o relatório Draghi aponta é a importância de estarmos menos dependentes de potências mundiais, sejam elas americanas ou chinesas. E isso passa por apostar nas indústrias locais e encurtar as cadeias de distribuição. O que está a acontecer é precisamente o contrário. Este novo recorde do excedente comercial da China com a União Europeia significa que a China está a exportar muito mais para a União Europeia do que a importar produtos europeus.
Esta semana eu tive a oportunidade de participar numa reunião de monitorização – de um grupo de monitorização da Comissão de Comércio Internacional de que faço parte - precisamente sobre a relação comercial da União Europeia com a China…e há vários dados que sinalizam alguma preocupação: Se analisarmos, por exemplo, o excedente chinês com a Alemanha, vemos que este excedente mais do que duplicou. Já o excedente comercial entre a China e a França caiu 81%. Este é um exemplo muito claro de fragmentação da resposta europeia relativamente àquilo que o relatório Draghi aponta já há dois anos.
Porque é que a Alemanha aumentou o seu déficit comercial relativamente à China e a França conseguiu diminuí-lo?
Os motivos são vários. Para começar tem a ver com estratégias. Depois, se analisarmos mais em detalhe com o impacto setorial das várias indústrias, a indústria química alemã tem sido substituída por importações da indústria química chinesa. Já no que diz respeito à França, o cenário é algo diferente. O que é que é importante assinalar é que os números que hoje estamos a discutir confirmam uma tendência estrutural. Não é um pico conjuntural, o desequilíbrio comercial com a China tem estado a aumentar de forma consistente. Outro dado importante é que a vulnerabilidade europeia não reside apenas naquilo que são as chamadas matérias-primas críticas, como, por exemplo, os componentes para o desenvolvimento de baterias dos carros elétricos…estende-se hoje ao fim da cadeia de valor e inclui os tais setores industriais centrais como a indústria automóvel ou até mesmo a indústria química.
Uma das conclusões que retiramos deste acontecimento é que a União Europeia só é eficaz se for unida. O contraste entre a evolução do excedente com a Alemanha e com a França mostra o risco de abordagens nacionais dispersas.
Eu gostava de alertar para o seguinte: a União Europeia continua com muitos obstáculos no funcionamento do seu mercado único. É um mercado de 450 milhões de consumidores e continuamos ao dia de hoje com graves dificuldades da internacionalização das empresas europeias dentro do espaço europeu. Esta é uma das preocupações que está a tentar ser resolvida com a iniciativa do chamado 28º regime, que tem por base a criação de um registo central, em particular para as startups europeias, para que possam reportar a uma só autoridade, de forma simples e até relativamente barata…não terem de estar sujeitos a 27 regimes legais e constituições societárias diferentes dentro do espaço europeu.
Em síntese, este é também um problema de burocracia e de escala das empresas europeias. Isto resolve-se com protecionismo, como é que se resolve?
Não se resolve com protecionismo. A União Europeia não está à procura de um conflito comercial com a China, procura sim reciprocidade e condições de concorrência que sejam equitativas. Essa tem de ser a estratégia adotada porque um confronto com a China, tal como se viu com as tarifas dos Estados Unidos – e pela dependência das cadeias de valor de empresas intermédias que são, muitas vezes, chinesas – não é um confronto desejável porque não terá um fim...é uma escalada que não tem sentido.
Resolve-se com aquilo que a União Europeia tem vindo a fazer. Resolve-se com a aposta nas indústrias locais. Perguntava-me, há pouco, como é que a França reduziu as suas importações vindas da China. Bom, a França adotou um conjunto de critérios ambientais mais rígidos até do que prevê a legislação europeia, e adotou uma estratégia muito concreta para a autonomia industrial. Como a política comercial externa é gerida pela Comissão Europeia, a França utilizou vias indiretas e setoriais para fechar portas a produtos chineses antes de os impostos aduaneiros globais entrarem em vigor.
Portanto, o governo francês tem obrigado as empresas de setores estratégicos, e estou a me referir em particular à indústria da saúde, baterias e semicondutores, que são muito importantes não só para o mercado automóvel, mas para um conjunto de outras utilizações. Paris tem, no fundo, condicionado ou obrigado as empresas a diversificarem as suas cadeias de abastecimento com um modelo de fornecedores múltiplos preferindo comprar a parceiros europeus, norte-africanos ou até mesmo locais. Com isso esvaziou em alguma medida a quota de mercado da China.
Mas porque é que o exemplo francês não é seguido pela Comissão Europeia, se está a dar resultados?
A Comissão Europeia está a trabalhar para 27 Estados-membros diferentes e, portanto, é óbvio que há entendimentos diferentes que devem ser consertados em sede de Conselho Europeu. Aquilo que me parece essencial é que haja uma agenda no Conselho Europeu – e que podia ser muito bem liderada por António Costa, já que é Presidente do Conselho Europeu – no sentido de privilegiar esta autonomia estratégica e combater a fragmentação que existe do mercado, e que se vê materializada na diferença do excedente comercial chinês com a Alemanha e com a França. O eixo franco-alemão tem de funcionar com muita sintonia porque estes dois Estados são o motor da economia europeia.
Estou a dizer que António Costa deveria despir a veste de Secretário-Geral do Conselho Europeu e ser um verdadeiro Presidente do Conselho, e conseguir assim ter uma agenda proativa e não reativa face a notícias desta natureza. Estamos a chegar quase a metade do primeiro mandato do Conselho Europeu e eu acho que é também um momento importante para fazermos este tipo de avaliações. Aquilo que eu espero é que de facto haja esse empenho por parte do Presidente do Conselho Europeu em conjugação de forças, não só com a Comissão Europeia, mas também com o Parlamento Europeu, para conseguirmos ter uma abordagem que não seja uma vez mais fragmentada como aquela que temos visto. Portanto, sim, aquilo que eu espero é que haja de facto essa proatividade…esse empenho e dedicação e propositura por parte do Conselho Europeu, em particular pelo seu Presidente António Costa.