"Bruxelas sem varinha mágica. Eurobarómetro sinaliza algumas prioridades em áreas de poder europeu limitado"

  • 16/07/2026 17:08
  • Redação

Os próximos 12 meses não serão menos exigentes para a Europa do que os anteriores. Com a guerra em curso na Ucrânia, o conflito em Ormuz a pressionar a inflação e a relação transatlântica tensa, a agenda europeia inclui ainda difíceis negociações para o quadro financeiro multianual e eleições importantes na Alemanha (regionais em setembro) e em França (presidenciais em 2027).

O chefe do Gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa, Alfredo Sousa de Jesus, diz que o europeísmo dos portugueses não permite ainda assim descansar na promoção da Europa, num quadro de pessimismo global sobre a qualidade de vida no continente.

Acentuam mais algumas tendências, mas no geral apresentam confirmações desses valores. No caso de Portugal, o europeísmo aparece efetivamente ainda mais vincado. 9 em cada 10 portugueses consideram que Portugal beneficiou com a sua adesão à União Europeia. É um dado importante numa altura em que estamos a comemorar 40 anos de adesão, ou seja, já temos recursos suficientes para fazer um balanço factual destas quatro décadas. A União Europeia continua a ter em Portugal uma grande adesão. Visto ao contrário, apenas 7% dos inquiridos consideram que Portugal não beneficiou com a adesão, ou seja, há uma discrepância brutal entre estes valores.

É importante destacar que estes valores estão sempre em crescimento com o passar dos anos, ao contrário de alguns países em que, numa fase inicial da adesão, o nível de satisfação com a União Europeia era elevado e depois veio gradualmente a diminuir pela perda do efeito de novidade. No caso de Portugal, esses números são constantes e até aumentam de ano para ano. Em termos do europeísmo, acima de Portugal, temos apenas a Dinamarca e Malta.

Os portugueses são os que mais veem a UE como um lugar de estabilidade num mundo conturbado. Mas são também um dos povos europeus mais pessimistas em relação à evolução da qualidade de vida. Como interpreta estes dados?

Neste Eurobarómetro, os europeus mostram-se preocupados com a situação mundial. Os dados comparam o nível de confiança em relação a eles próprios e à família. E nesses quadros variáveis, os portugueses estão entre os mais insatisfeitos e preocupados em relação ao mundo.

Isso percebe-se pelo contexto atual no qual vivemos. As guerras comerciais e económicas e os conflitos militares transmitem uma percepção de uma grande instabilidade aos portugueses.

Os portugueses acreditam cada vez mais na União Europeia, precisamente como um baluarte de estabilidade por oposição a um mundo cada vez mais conturbado, com níveis muito elevados de incerteza. Em sentido contrário, verifica-se o aumento da confiança em relação à União Europeia e Portugal está acima da média europeia desse ponto de vista.

Porque é que o Eurobarómetro incide também sobre políticas que acabam por ter um cunho mais nacional que europeu?

Uma das grandes vantagens do Eurobarómetro é manter as mesmas perguntas, com os mesmos critérios nos mesmos índices ao longo do tempo. Isso permite perceber uma evolução, ao contrário de uma sondagem, que é uma fotografia do momento preciso, que nem sempre permite comparações com a situação anterior.

O importante é poder comparar até que ponto as prioridades dos portugueses estão ou não em articulação com as prioridades europeias. O exemplo concreto é a questão do custo de vida. É um elemento muito mais presente na população portuguesa face à média europeia.

Já, por exemplo, na questão da segurança e defesa, Portugal está abaixo e não considera que o tema seja uma prioridade ao mesmo nível de outros congéneres europeus.

Isso permite também perceber realidades mais nacionais. Por exemplo, a questão da segurança energética teve mais destaque desta vez face ao Eurobarómetro anterior. Isto pode entender-se já que Portugal sofreu um apagão há uns meses, que deixou marcas bastante profundas.

A questão da Ucrânia criou também uma realidade completamente diferente, em que a União Europeia fez tudo para depender menos de parceiros externos em termos de aprovisionamento energético. São duas realidades nacionais, que mostram que esta prioridade à segurança energética, passou a sê-lo também para Portugal, o que não existia nos Eurobarómetros anteriores.

Por curiosidade, os franceses são os europeus que mais antecipam uma degradação da sua qualidade de vida nos próximos cinco anos. E é em França que em 2027 vai haver uma eleição presidencial que também é crítica para o futuro da Europa.

Não é um dado novo. Mas é um sinal de alarme, porque também estamos num contexto pré-eleitoral para as presidenciais em França. Esses dados são muito importantes para ter uma noção verdadeira do sentimento da opinião pública. Mas só confirmam tendências que já vinham de trás. Estamos recordados de alguns movimentos sociais que surgiram em França, nomeadamente os "coletes amarelos".

França está a atravessar uma crise política e social, mas também económica, com o descontrolo da dívida e do déficit públicos. Isso acaba por criar um sentimento de incerteza que se reflete nestes valores.

De que forma o Eurobarómetro influencia o trabalho e as prioridades dos eurodeputados?

Como qualquer sondagem na prática, o Eurobarómetro é um instrumento de trabalho para definir políticas públicas. As áreas que estão aqui destacadas já estão, na prática, plasmadas nas prioridades do Parlamento Europeu e da Comissão. É o caso, por exemplo, das áreas da segurança ou a defesa que tiveram um grande reforço de iniciativas do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia. Isso traduz-se em grandes avanços de políticas públicas nestas áreas.

O Eurobarómetro permite também perceber algumas tendências. Por exemplo, quando Portugal coloca a segunda maior prioridade na área da política de saúde, os eurodeputados podem ter aqui um elemento adicional para fundamentar mais a acção do Parlamento Europeu nesta área específica da política de saúde pública.

O europeísmo dos portugueses tem sido uma constante há muito tempo nos Eurobarómetros. Essa situação permite uma promoção do Parlamento Europeu em velocidade de cruzeiro?

O nosso trabalho diário tem que continuar. Usando a analogia de Jacques Delors, isto é um pouco como andar de bicicleta. Assim que começamos a andar, não podemos parar. Se pararmos e ficarmos em cima da bicicleta, caímos para o lado.

Temos que continuar e podemos acelerar mais ou abrandar um pouco mais, mas temos que estar em permanente movimento. Vamos ter eleições europeias em 2029 e há um trabalho que é necessário fazer para o cidadão português ter a noção daquilo que o Parlamento Europeu e de que forma Bruxelas o altera para melhorar o seu quotidiano.

E também é uma questão de não defraudar expectativas. Bruxelas não tem uma 'varinha mágica' que resolve todas as situações. Há áreas em que a União Europeia tem menos poderes. Estranhamente, há áreas aqui identificadas como prioridades são algumas em que efetivamente a União Europeia tem um poder um pouco mais limitado.

Por exemplo, uma das preocupações é a criação de emprego. Bruxelas não cria emprego, não podemos também estar a defraudar essas expectativas. Mas produz um enquadramento que permite mais inovação, mais competitividade, mais crescimento económico, que acaba por se traduzir numa criação de emprego.

É um trabalho diário de mostrar ao cidadão português aquilo que a União Europeia faz, aquilo que pode fazer, os seus poderes e de que forma é que a nossa vida, nas últimas quatro décadas, melhorou de uma forma absolutamente fundamental, com o contributo desta pertença ao projeto europeu.

Aferir os bons resultados deste trabalho passa por exemplo por uma redução da abstenção nas eleições europeias?

O nosso trabalho é o de informar o cidadão. Se essa informação for bem feita, pode - nem sempre mas pode - traduzir-se na etapa a seguir, na decisão de participar nas eleições europeias. Agora, efetivamente, é uma decisão própria de cada eleitor. A decisão de votar é pessoal. Mas o nosso trabalho é que ela seja uma decisão informada.

  • Fonte: Rádio Renascença
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