Festa da música clássica no Porto: "Estamos a perder pérolas de criação artística"
- 16/07/2026 17:02
- Redação
Desde 5 de julho, o Convimus tem passado por vários espaços da cidade, com espetáculos gratuitos. Além das composições que oferece aos espectadores, o festival organizado pela Associação Musical, Artística e Social Impulsionadora de Novas Gerações (AMASING) apresenta ainda masterclasses, exposições, concursos e “momentos de partilha artística”.
O Convimus surgiu em 2018 e desde então prossegue confiante na mesma missão de “criar oportunidades para os jovens na música erudita”, democratizando o acesso do público a esta tradição musical ocidental cujas bases remontam à idade média.
Contudo, o maestro enfatiza o papel social que o festival protagoniza junto do público em geral: “Democratizar é uma palavra importante, porque no fundo é tornar a música e a educação acessível a todos. Neste sentido, vamos até ter, este sábado, um concerto no Rivoli em que teremos sete coros amadores do concelho do Porto. Isto é levar a música a cada vez mais pessoas, a cada vez mais entornos, e em contextos, às vezes, até um bocadinho mais desfavorecidos.”
Em todas as edições anteriores, o Convimus procurou apostar na “dimensão internacional”, mas este ano a protagonista é a cultura musical portuguesa, afirma Eliseu Silva, que sublinha, contudo, o cariz transfronteiriço: “ainda temos, e para nós é muito importante”.
Portugal D’Ouro é o nome do último concerto do festival que terá lugar no Teatro Rivoli e que dá corpo e voz à temática nacional que caracteriza a edição desde ano. Aqui, neste “momento final” serão celebrados “três grandes compositores portugueses que fazem 120 anos”, conta o maestro Eliseu Silva. Fala-se dos compositores Lopes Graça e Armando José Fernandes e também da portuense e “magistral” compositora Berta Alves de Sousa, todos nascidos no ano de 1906.
A estreia em concerto de um poema sinfónico de nome “Vasco da Gama”, de Berta Alves de Sousa, foi outra razão que levou à decisão de tornar esta uma edição dedicada à cultura portuguesa. Também um concurso de violino, até então internacional, foi voltado exclusivamente para a cena nacional. “O facto de ser internacional intimidava um bocadinho os nossos alunos, que às vezes achavam que não tinham um nível assim tão alto. A verdade é que tivemos 70 inscrições, desde a Madeira até Chaves, passando por Coimbra, Lisboa, Porto, Vila Real, vários conservatórios nacionais, e o nível é altíssimo”, afirma Eliseu Silva. “Estamos muito orgulhosos, porque estamos a estrear e a tocar obras portuguesas centrais, belíssimas”, conclui o diretor artístico.
Num “espaço emblemático” da cidade invicta, no Teatro Rivoli, sobem este sábado, pelas 21h00, ao palco cerca de 220 artistas juntamente com a Orquestra Sinfónica AMASING, contando ainda com a presença de sete coros amadores da região do Porto.
Neste último concerto, além da estreia da “belíssima obra” de Berta Alves de Sousa, Vasco da Gama — que promete levar os espectadores por uma viagem sensorial — e as canções heroicas de Lopes Graça, será também ouvida a “Mona Lisa da música clássica”, como caracteriza Eliseu Silva, a 40ª sinfonia de Mozart, uma vez que este celebra também o marco dos 270 anos. “Vai ser um momento absolutamente arrebatador”, promete o diretor artístico. Este será o único concerto pago, com o bilhete a custar 10 euros.
Na perspectiva de Eliseu Silva, a cultura da música erudita está a conquistar cada vez mais o público. “As pessoas quando vão aos concertos percebem: 'calma, isto é belíssimo, estamos aqui perante uma música que nos toca, que nos comove, que nos emociona'”, assegura o diretor da AMASING, que não deixa de ressaltar as salas que o Convimus já encheu nesta edição. “Estava uma igreja cheia, a igreja de São João da Foz, no concerto de abertura, estavam pessoas de pé. No concerto do Castelo (Forte de São João Baptista), mais de 20 pessoas ficaram de pé porque não tinham cadeira”, relembra.
“E o feedback das pessoas é muito forte, porque na verdade a música é belíssima, é uma música muito rica, temos artistas do melhor a nível internacional”, afirma Eliseu Silva que demonstra agrado neste público cada vez mais “fidelizado”.
“As pessoas quando vão aos concertos percebem, calma, isto é belíssimo, estamos aqui perante uma música que nos toca, que nos comove, que nos emociona, e depois querem mais, e portanto eu acho que as pessoas precisam disto, estão ávidas de cultura, estão ávidas de boa música, e depois quando gostam voltam, portanto começamos a ter um público muito fidelizado.”
Apesar de considerar que as pessoas estão cada vez mais próximas da música clássica, Eliseu Silva realça a importância de continuar a apostar na cultura musical portuguesa, porque “a verdade é que temos artistas do melhor do mundo e não valorizamos, muitos deles são obrigados a ir viver para fora se querem continuar, ou se querem fazer música de qualidade”, explica o diretor artístico.
“É esse trabalho de divulgação, de valorização, de apoio dos nossos artistas e do repertório que deve ser mesmo feito com muita seriedade, com muita intensidade, porque estamos no fundo a perder pérolas de criação artística”, afirma o maestro que acrescenta: “inclusivamente anos e anos de investimento nos jovens, na educação dos jovens, que no fundo acabam por ter um êxodo cultural enorme.”
Diogo Pardal de 24 anos vem de Évora e é membro do Duo Contraste — Duo que ganhou o primeiro lugar no Concurso Nacional de Música de Câmara e que atuou esta quarta-feira na Capela Nossa Senhora da Luz — afirma que iniciativas como o Festival Convimus são uma boa forma de dar a conhecer a música erudita, aproximar o público e desenvolver talento.
“É um festival que dá muita oportunidade aos jovens. É espetacular para jovens como nós, em início de carreira ou até mesmo a tentar um novo desafio, e diria que isso é extremamente importante: estimula não só a cidade, a música clássica e estimula o encontro. Estimula a música e estimula a progressão de percursos, que é extremamente importante”, afirma o clarinetista.
No acordeão, o companheiro Sérgio Gladckyy, natural do Algarve, subscreve: “as pessoas estão a aproximar-se devido a estes festivais que dão a conhecer (a música clássica) ao público. Por exemplo, agora tocamos no Concerto Laureados e as portas foram abertas, quem quiser pode assistir, isso tudo é promoção. E as pessoas pouco a pouco aderem e passam a conhecer o que é a música erudita.”
Segundo os jovens artistas a frequentar o mestrado de Interpretação na Universidade de Évora, a aproximação do público mais novo pode passar pelas Redes Sociais, mas também por “um trabalho mais comunitário, de sensibilização”.
“Até mesmo os concertos têm que ser um pouco diferentes, talvez com mais interação com o público, mais comentados... explicar o momento para que a pessoa não entre e ouça a música do início ao fim sem perceber, se calhar o que é que se passou ali”, explica Diogo Pardal.
Para Diogo Pardal e Sérgio Gladckyy o sonho é comum: construir uma carreira de sucesso na área e “viver bons momentos” no mundo da música clássica.
Esta quinta-feira tem lugar na Capela Nossa Senhora da Luz, em Nevogilde, mais um concerto “Laureados”, desta vez “Laureados Jovens Violinistas”, pelas 21h00. Na sexta-feira o palco será no Auditório Municipal de Gondomar com o concerto “120 anos de Música Portuguesa”. O Festival encerra este sábado no Rivoli, o único concerto pago.