Novo diretor quer tornar Gulbenkian num "museu de referência para o mundo"

Novo diretor quer tornar Gulbenkian num "museu de referência para o mundo"

  • 17/07/2026 01:00
  • Redação

Entrar no renovado Museu Gulbenkian, em Lisboa, é como “visitar um velho amigo, mas vê-lo numa perspetiva diferente”. É desta forma que o novo diretor do museu, Xavier Salomon, olha para a renovação que obrigou ao encerramento do espaço durante quase ano e meio.

O novo diretor que herdou do seu antecessor, António Filipe Pimentel, esta obra tem a ambição de tornar o Museu Gulbenkian “num museu de referência para a Europa e para o resto do mundo, onde as pessoas vêm ver o que estamos a fazer”. Questionado sobre o que diria ao senhor Gulbenkian se tivesse podido conhecer o colecionador, Salomon diz que diria apenas “obrigado”.

Que novidades vai o visitante encontrar quando voltar a entrar no Museu Gulbenkian depois deste ano e meio de encerramento?

Espero que seja como visitar um velho amigo, mas ver esse amigo numa perspetiva muito diferente. Acho que isso acontece de forma muito literal, porque melhorámos a iluminação e as condições nas galerias, todos os vidros que protegem os quadros e as vitrines são agora antirreflexo.

O sistema de iluminação é também totalmente novo. Temos sistemas mais avançados no que toca à legendagem e aos painéis informativos para melhorar a experiência do visitante.

O museu está tal como estava, no sentido em que as secções se mantiveram as mesmas, mas, na verdade, reorganizámos a exposição da coleção de uma forma muito mais fiel ao espírito de 1969, quando o museu abriu pela primeira vez.

Não é uma réplica exata de 1969, mas verão o museu de forma renovada, ou seja, as pessoas que conhecem o museu há 20 ou 25 anos irão vê-lo de uma forma muito diferente.

O que acho que é absolutamente extraordinário neste museu é que a coleção tem uma série de obras-primas, mas o próprio edifício é, também ele, uma obra-prima.

Por isso, temos uma combinação de arquitetura, acervo e natureza, porque o edifício sempre foi concebido em harmonia com a natureza. Podemos ver os Jardins Gulbenkian de todas as janelas, praticamente em todas as galerias. Isso é muito importante.

É um edifício de 1969, portanto, sabe, se tiver um edifício italiano do Renascimento, construído por Brunelleschi, tem de respeitar o facto de ser um edifício do século XV.

Este edifício foi construído em 1969, por isso o espírito original deve ser preservado. Não podemos transformá-lo num edifício do século XXI. Simplesmente não é o que ele é!

Por isso, não estamos a tentar transformar um edifício de 1969 num edifício de 2026, mas sim a respeitar a visão original dos arquitetos. Assim, regressamos aos materiais, às cores, à atmosfera que o museu tinha inicialmente. É claro que todo o museu precisa de evoluir.

Não podemos manter tudo exatamente como estava quando abriu, e não é essa a intenção. Mas acho que preservar esse espírito é muito importante.

Quão desafiante é essa ideia de abrir as janelas para o jardim e deixar entrar luz. Como é que se equilibra isso com as necessidades de conservação das peças?

Temos a nosso favor agora a tecnologia, porque quando o museu foi inaugurado, a luz era um problema grave.

Os arquitetos queriam luz, mas os curadores não, porque a luz, obviamente, é problemática para os objetos, especialmente para as obras em papel, têxteis e objetos frágeis.

Agora, com a tecnologia, podemos colocar películas nos vidros que bloqueiam toda a luz ultravioleta e limitam os níveis de luz e os aspetos negativos da luz, mas ainda assim é possível ver a luz a entrar.

Temos algumas telas de proteção. Dependendo de como o sol incide em diferentes alturas do dia, temos estores que podem ser baixados para limitar a entrada de luz.

Portanto, tecnologicamente, e com os nossos conservadores, estamos absolutamente seguros e dentro dos níveis de luz que o museu necessita, mas agora pode ver muito mais do jardim do que antes.

Começou este trabalho como diretor numa nova era para o museu, com esta renovação. Como planeia trabalhar a coleção e que exposições quer criar?

Devo dizer que herdei este projeto de renovação a meio do caminho. Não foi algo que eu iniciei. O meu antecessor, António Filipe Pimentel, foi quem deu início ao projeto, com o conselho da Fundação. Tive muita sorte em herdar um projeto com o qual me identifiquei plenamente em termos de visão.

Como diretor, quando cheguei, gostei muito do que estava a acontecer no museu, e apoiei totalmente o que estava a ser feito. Claro que fiz algumas pequenas alterações na altura.

Agora, em termos futuros, também não creio que o museu vá mudar completamente. Quer dizer, não tenho uma visão para o museu que seja totalmente diferente da dos meus antecessores.

Penso que o acervo é o coração do museu, e as exposições e toda a programação devem estar relacionadas com ele. Mas, espero que seja mais ambicioso e vou tentar desenvolver projetos melhores e maiores. Com a Fundação quero fazer o melhor possível pelo museu e trazer projetos entusiasmantes e grandiosos para Portugal.

Considero que o museu é único no mundo, em termos de arquitetura e de acervo, e penso que, com a programação podemos tornarmo-nos num museu de referência na Europa e no mundo, onde as pessoas venham conhecer o nosso trabalho.

A exposição da Moda foi disso exemplo. Foi uma exposição muito bem-sucedida, por isso espero que seja apenas o início. E, mais uma vez, esta foi a exposição do meu antecessor, mas tive muita sorte em começar com uma exposição tão grande e bem-sucedida, e espero que as próximas sejam iguais.

Neste museu renovado, há algum lugar especial que o visitante não deve perder e pode dedicar algum tempo a apreciar?

Acho que há duas ou três peças muito, muito bonitas... bem, todo o museu é muito bonito, mas há um novo gabinete numismático, que não existia antes. As pessoas podem achar que as moedas são aborrecidas, mas na verdade, esse foi um dos núcleos originais de objetos que Gulbenkian colecionava, e são realmente espetaculares. É uma sala pequena, e espero que as pessoas passem algum tempo lá dentro a admirar estes objetos, na sua maioria gregos e romanos, mas realmente espetaculares.

Adoro particularmente a sala das lâmpadas da mesquita. Foi restaurada praticamente como era em 1969, e acho que a relação entre ela e o jardim interior é absolutamente linda.

Para mim, o local icónico do museu e que decidimos usar nos cartazes, é o da escultura de Diana de Houdon. É uma sala onde a arquitetura é belíssima. É um objeto único, que é indiscutivelmente um dos maiores tesouros da coleção, e a relação entre esta escultura e o jardim é realmente encantadora.

Acho que é um local que muda ao longo do dia com a luz, e simplesmente adoro passar lá algum tempo a observar como se transforma em diferentes momentos do dia. Para mim, esse é um dos lugares mágicos do museu, e na verdade, acho que é um dos lugares mágicos de qualquer museu do mundo.

Fala com muita paixão deste museu e do acervo. Sente que teve sorte em estar aqui neste momento?

Com certeza, sinto-me muito, muito sortudo. É uma coleção extraordinária. Sou muito apaixonado por ela, porque acho que é maravilhosa.

O âmbito da coleção vai da Antiguidade ao Impressionismo e à época de Gulbenkian. É bastante vasta em termos cronológicos, mas também geográficos.

Estamos aqui em Lisboa, Portugal. Paradoxalmente, é uma coleção que não tem um único objeto português, e ainda assim podemos ver aqui peças do antigo Egito, Mesopotâmia, Irão, China, Japão, de todas as diferentes regiões da Europa.

Acho simplesmente incrível. É um tesouro incrível. Estou muito entusiasmado. Só cá estou há alguns meses e ainda estou a conhecer a coleção e a aprender com os meus colegas, os curadores, e há tantas coisas maravilhosas.

Cada vez que olho para estes objetos, fico simplesmente espantado com o quão maravilhosos são. Acho que é um museu, sobretudo para o nosso público local em Lisboa e em Portugal, que merece ser visitado várias vezes porque, não é um museu que se visite uma vez e se diga: "Ah, já vi"!

Há muitas coisas diferentes. E incentivo sempre as pessoas a virem e a concentrarem-se em algumas galerias. Venham só para ver as antiguidades e depois voltem noutra ocasião para ver a parte da China. Voltem outra vez e vejam o Impressionismo, ou os Lalique.

Esta é a melhor forma de desfrutar do museu e garantir que ele se torna parte das nossas vidas, aqui em Lisboa.

Acho que a primeira coisa que diria era “obrigado”. A ideia de o homem mais rico do mundo acabar por deixar tudo isto a Portugal, mas também ao mundo é para que as pessoas o possam ver.

Penso que nas coleções privadas existe sempre a hipótese de a família vender a coleção, doá-la ou fazer outra coisa com ela. Então, a ideia de doar isso ao público e transformá-lo num museu é extraordinária.

Acho que todos devemos estar muito gratos por isso e pela doação da fundação, e à fundação em geral por tudo o que faz. Além disso, teria muitas dúvidas sobre a aquisição, porque é que ele comprou um objeto específico ou porque é que não comprou outro, percebe? São o tipo de perguntas que eu adoraria ver respondidas.

Apetecia-me conhecê-lo e conversar com ele. Por outro, também me agrada a ideia de não poder fazê-lo, porque, de certa forma, a magia permanece. Essa figura paira no ar, como uma presença constante no museu, mas que não está fisicamente presente. E isso, para mim, é muito interessante num museu como este.

  • Fonte: Rádio Renascença
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