Luísa Sobral: "Consigo ver alguma beleza no fim de vida, se for vivido com dignidade, sem dor e em paz"

Luísa Sobral: "Consigo ver alguma beleza no fim de vida, se for vivido com dignidade, sem dor e em paz"

  • 17/07/2026 15:22
  • Redação

Alguns dos textos do livro “Da Minha Janela” (ed. D. Quixote) foram sendo partilhados nas redes sociais, mas há um que é exclusivo do livro. Luísa Sobral reservou para os leitores a crónica em que escreve sobre a sua experiência como voluntária numa unidade de cuidados paliativos.

A cantora queria fazer “musicoterapia” e com a ajuda de uma médica amiga acabou naquela unidade, onde estão muitos doentes terminais. Diz que tinha “medo da morte”, mas a sua experiência veio revelar-lhe outra realidade. “Consigo ver a morte como algo muito natural e ver alguma beleza no fim de vida”, confessa.

À parte dos livros, Luísa Sobral tem novo disco, mais virado para a música tradicional portuguesa e já tem concertos marcados para novembro em Lisboa e Porto.

“Da Minha Janela” é um livro de observação? Esta ideia de ver a vida a partir da janela retrata o que quis por neste seu primeiro livro de crónicas?

Eu comecei a escrever estas crónicas há já algum tempo. Elas até serviram um bocadinho de exercício. Quando soube que ia lançar o primeiro romance, comecei a pensar que se calhar deveria apresentar-me às pessoas enquanto escritora para que o romance não saísse de repente e ser algo demasiado inesperado.

E ao mesmo tempo também tinha vontade de... Claro que isto ia acontecer. Espera, desculpa. [um dos filhos de Luísa entrou na sala].

Voltando a responder, para mim estas crónicas serviram de exercício e para me apresentar às pessoas enquanto escritora.

Eu não sentia bem a necessidade, mas senti a necessidade que as pessoas hoje têm de conhecerem sempre os artistas para além da sua arte. É uma coisa que eu não acho muito necessária, mas já percebi que hoje em dia é quase imperativo que um artista se dê a conhecer para além da sua arte.

Pensei: como é que faço isso sem expor a minha vida pessoal? Ou seja, expor aquilo que quero de forma controlada.

As crónicas foram um bocadinho essas duas coisas, uma maneira de me apresentar enquanto escritora, para além da escrita de canções, e também uma maneira de me dar a conhecer um bocadinho mais e à minha vida pessoal, mas de uma forma completamente controlada e com humor, que é algo que acho que as pessoas não conseguem ver nas canções, nem na escrita do romance.

No início eu impus-me uma obrigação, ou seja, supostamente teria de escrever uma crónica por semana. Depois percebi que aquilo não estava a dar, tinha imensas outras coisas para fazer e, na verdade, se tivesse um jornal para quem escrever as crónicas, teria de as escrever e ponto. Talvez tivesse sido melhor. Mas como não tinha, rapidamente passou a ser mensal e rapidamente passou a ser quando me apetecia. Fui escrevendo.

Eu escrevo as crónicas sempre primeiro em voz alta, ou seja, não é escrever. Mas no carro vou dizendo em voz alta as crónicas e depois, quando passo para o computador, na verdade a crónica já está quase toda escrita na minha cabeça.

Aprendi isso com um livro que li do Miguel Esteves Cardoso, essa ideia de nós passarmos algum tempo em silêncio e deixarmos que as coisas venham a ter connosco, sobretudo estas coisas de observação.

O que acontece hoje em dia é que vamos para o carro, pomos um podcast, uma música e raramente estamos em silêncio. E é verdade que quando estou em silêncio, é quando tenho mais ideias e mais penso na vida.

Então estes caminhos e estas várias voltas que faço de carro serviram para isso, para ir fazendo as crónicas, pensando nas crónicas em voz alta, antes de chegarem ao papel.

Não muito. Às vezes, há uma ideia qualquer que surge e depois penso, quero falar sobre isto numa canção. Posso até trautear uma melodia, mas é raro, porque a maior parte das vezes quando componho, componho com um instrumento.

Para o próximo disco que eu vou lançar, por exemplo, até aconteceu começar canções de uma forma diferente. Comecei com instrumentos percussivos, mas mesmo assim são instrumentos, ou seja, eu parto sempre muito da inspiração de um instrumento, de um acorde, de uma melodia, e por isso é que não acontece tanto ter ideias enquanto estou em silêncio, ou sem um instrumento.

Nestas tuas crónicas, há também um olhar social para os dias de hoje, reflete por exemplo, sobre a questão da maternidade. Tem tido muito retorno dos leitores?

Como muitas das crónicas estão nas redes sociais, acabava por ter um feedback muito imediato.

Mas talvez a crónica que teve mais feedback, tenha sido uma sobre uma viagem que fiz com os meus filhos à Serra da Estrela, após a minha separação.

Tudo correu mal, bem, não é mal, porque no fundo é a maternidade real, mas acho que a maternidade real é algo de que não se fala muito nas redes sociais.

Quando os nossos filhos dizem que não gostam de nós, ou quando estamos sempre a gritar, ninguém diz isso nas redes sociais normalmente. E nessa crónica eu decidi dizer que tentei fazer aquela viagem a achar que aquilo ia ajudar a fingir que estava tudo igual, e de repente no fim correu tudo mal.

Eu estive sempre a gritar, também fui uma pessoa que não quero ser, e expus-me um bocadinho. Recebi muitas mensagens de outras mães a dizer: “Ah, finalmente dá para uma pessoa sentir-se normal. É uma mãe normal”.

Na verdade, nada do que escrevo, tanto na música como nas crónicas, escrevo a pensar nos outros. É sempre uma catarse minha. Mas foi interessante ouvir isso, ou seja, já que me estou a expor assim, ao menos não estou sozinha.

No livro partilha coisas também muito pessoais, nomeadamente a experiência numa unidade de cuidados paliativos. É um lado menos público da sua vida. O que lhe tem dado essa experiência de voluntariado?

Essa crónica, eu nunca postei, até porque sinto que o trabalho voluntário que faço é para mim e para as pessoas que ali estão. Não é uma coisa para me vangloriar.

Sinto muita relutância em partilhar isso, porque depois pode sempre aparecer aquilo de “olha ela, armada em boazinha”. Eu nunca partilhei essa crónica que só está no livro.

Eu faço este trabalho há dois anos e meio. Tudo começou porque queria muito fazer musicoterapia. Na verdade, tudo começou com as minhas idas às escolas, e a perceber o impacto que a música tinha em crianças no espectro do autismo.

Comecei com vontade de explorar a musicoterapia. E ao falar com um amigo que é musicoterapeuta, ele disse: “Olha, vai experimentar, vai cantar para pessoas que tu aches que precisam de musicoterapia, e depois vês o que é que sentes e vês qual é o caminho dentro da musicoterapia que queres seguir”.

Como tenho uma amiga que é médica nos cuidados paliativos, perguntei-lhe se poderia começar a visitar a unidade e cantar para os doentes em fim de vida. Ela disse que sim, e já passaram dois anos e meio.

Realmente tem sido uma experiência mesmo muito transformadora. Eu tinha muito medo da morte quando lá entrei lá. Eu tinha muito medo que alguém morresse à minha frente.

Tinha muito medo de assistir à morte. Passados dois anos e meio, não é que não tenho medo que as pessoas à minha volta, os meus familiares ou as pessoas que mais amo morram. Mas ao mesmo tempo consigo ver a morte como algo muito mais natural. E consigo ver alguma beleza no fim de vida.

Se for obviamente vivido com dignidade, sem dor e em paz. Há uma grande beleza em chegar ao fim de uma forma pacífica e com aqueles que amamos. Foi isso que aprendi lá.

Obviamente que aprendi muitas coisas para a minha vida também, da maneira como devo viver ou aprender a lidar com a morte. Tem sido mesmo muito especial. Tenho vivido histórias muito bonitas ali.

Falemos de “Felicidade”, é o primeiro single do novo disco. Em que é que é diferente este álbum?

Eu não penso muito que este disco seja melhor que os outros. Os discos são sempre um reflexo da pessoa que somos neste momento, como uma fotografia.

Para este disco quis experimentar um bocadinho mais a música tradicional portuguesa. Não é um disco de música tradicional portuguesa, é inspirado na música tradicional portuguesa e misturada com aquilo que eu faço.

Eu não sabia bem que tipo de disco queria fazer. Fui um bocadinho perdida e fui experimentando e chegando aqui. Quando cheguei aqui, fez todo o sentido.

Algumas destas canções, como “Felicidade”, nasceram de ritmos e percussão, que é uma coisa que raramente faço. Normalmente começo sempre pelo piano ou pela guitarra. Nunca começo pela parte percussiva.

Por causa disso também acabei por ter canções um bocadinho diferentes. O disco chama-se “Cartas de Desamor”.

É um disco que fala muito sobre a minha separação, mas também fala muito sobre outras coisas. Fala sobre muitos tipos de desamor, na verdade. E termina com a canção “Felicidade”, sendo que foi a primeira a sair, mas no fundo é o fim deste ciclo.

É sobre quando passamos um período mais difícil na nossa vida e depois começamos lentamente a ter mais esperança e a acreditar que esse momento vai passar. Eu digo sempre que é o momento depois da tempestade, quando vemos ali um bocadinho de céu azul.

Luísa Sobral tem dois concertos de lançamento marcados: 11 de novembro no Tivoli BBVA, em Lisboa, e 16 de novembro na Casa da Música, no Porto.

Desde a algum tempo que sentia que os concertos já não eram suficientes para mim. Então decidi que esta próxima digressão seria diferente.

Queria montar um espetáculo que não fosse um concerto. É um espetáculo. Contratei mesmo uma encenadora, a Matilde Torcado, e estamos a trabalhar juntas, a construir este espetáculo.

Não é um musical, de todo, mas é algo um bocadinho mais encenado, onde acabo por explorar outras facetas minhas. Por isso, também me dá mais vontade de fazer.

Vai ser a primeira vez que vou fazer um espetáculo tão trabalhado e pensado, para além da música.

A dança não, coitadas das pessoas, não lhes faria isso! Também não é pelo desenho. Passa mais pela poesia, por dizer poesia. No fundo, passa pela palavra em geral, mas também pela encenação, pela maneira como aquilo vai acontecer em palco.

Eu queria que as pessoas se sentissem estimuladas também a nível visual, que não fosse só auditivo. Então cada canção é pensada com o seu pequeno mundo. Para que seja uma experiência cada canção. Pelo menos era essa a minha vontade.

Isso reflete um pouco o momento em que hoje as pessoas consomem menos discos e procuram mais os espetáculos?

Primeiro, a maior parte das pessoas nem ouvem um disco! As pessoas hoje em dia ouvem canções avulso. Isso faz com que nós tenhamos que pensar em outras maneiras de realmente tocar o disco inteiro. Às vezes é fazer vários vídeos para o Instagram, ou seja, para ir mostrando o disco.

As pessoas escolhem duas ou três músicas e já é raro ouvirem um disco de seguida. Mas para mim tem mais a ver até com a palavra. Com as pessoas não ouvirem as letras ou não prestarem atenção às letras.

Para mim as letras sempre foram a parte mais importante das canções. Acho que aquilo que estamos a montar tem muito a ver com isso, de tentar que cada palavra tenha o seu lugar.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: