Mariana Alvim lança primeiro romance sobre a amizade entre mulheres

  • 17/07/2026 15:36
  • Redação

Não é um livro autobiográfico. “O Amor que Escolhemos” (ed. Porto Editora) é o primeiro romance de Mariana Alvim. A locutora do programa Café da Manhã da RFM levou alguns anos a escrever a história de três amigas. “Tentei que fosse o mais próximo possível da nossa vida contemporânea”, diz a autora.

Como nasceu este primeiro romance “O Amor que Escolhemos”. Foram muitos anos até ao ponto final?

Há muitos anos eu escrevi para adolescentes e sempre com o bichinho de que gostava de escrever para adultos. Quando digo escrever para adultos, é só porque é para mais velhos, não tem bolinha vermelha! Há muito tempo que sentia esta necessidade.

O que é que eu gosto dos livros? Quando me identifico com a história ou com a pessoa. Às vezes, basta uma só frase dizer-me algo que me ajuda de alguma forma, e tenho felizmente boas amigas com quem tenho boas conversas, e às vezes pensava, devíamos falar sobre isto.

Se calhar há pessoas que não têm essas amizades, ou essa partilha e há uns tempos vi um comentário de uma senhora que dizia: “gosto de livros com mulheres reais para ver que não estou sozinha”.

Assim foi. Comecei a escrever há muitos anos. Isto não é autobiográfico, é um romance, é ficção. E na altura quando comecei, apesar de não ser autobiográfico, os temas de conversas eram de miúdas com 30 anos.

Hoje em dia onde é que isso já vai!? Como demorei tanto tempo, fui atualizando e mudando as idades das minhas personagens, porque de repente há outros temas, já não é a adolescência.

Aqui tens três amigas, desabafos entre elas, mas com duas que estão casadas, uma não. No fundo há o narcisista no trabalho, a mãe tóxica, os pais homofóbicos, há todos os temas que eu espero que as pessoas se relacionem com.

E há a coragem destas amigas com a amizade, que é “O Amor que Escolhemos”, o título do romance. Elas percebem que ainda bem que têm umas às outras, para poderem falar sobre isto, ajudar-se umas às outras. E durante muito tempo eu dizia, tenho que escrever sobre isto.

Depois com muitas pausas, porque também fui embirrando com o livro. Tive um filho, entretanto, acordo de madrugada para fazer rádio, portanto não é fácil conciliar tudo.

Às vezes, perguntam-me como é que consegues fazer tudo? Eu não consigo fazer tudo!

Agora estou contente porque está escrito, apesar de estar obviamente receosa e ansiosa com as opiniões das pessoas.

Às vezes falam-se de temas, em conversas, e eu penso: “olha que bom, isso está no meu livro”. A culpa feminina, está lá, por exemplo.

Quis escrever sobre mulheres reais, com as suas imperfeições, com os seus erros, com as suas dúvidas? É algo que sente que falta na literatura?

Não acho que falta, mas acho que de facto, são os livros que mais me tocam. Obviamente não me posso comparar com a grande Elizabeth Strout, que é uma autora que eu adoro. São livros de personagem com as suas imperfeições, os seus defeitos. Somos humanos. E eu gosto desses livros realistas.

Depois também gosto, claro, de outros livros em que estão sempre coisas a acontecer. Eu acho que são mais as emoções de que eu mais gosto, como leitora.

Acho que o que falta é a coragem para falar sobre certos temas. Ainda há muitos tabus, ainda há muitos receios.

As minhas próprias amigas, deste romance, falam sobre isso, a culpa, o medo de dizer. Uma delas nunca foi ensinada a confrontar, nem a falar, na família dela não se fala.

Eu tenho muitas amigas com esse problema, e apesar de nenhuma destas três personagens ser as minhas amigas, eu acho que há um bocadinho de cada pessoa.

Acho que sim. Nunca poderia falar sobre mim ou sobre a minha família, porque não queria magoar alguém, se fosse uma queixa. Mas há inspirações, sem dúvida.

Há um exercício de escrita também muito curioso, porque traz para o livro aquilo que se passa nas redes sociais, nas mensagens. Quis integrar aquilo que é o século XXI e aquilo que é a realidade?

Sim, como comecei há muito tempo, apesar de ir sempre reescrevendo e adaptando, e até mudei as idades delas, para lhes dar idades diferentes tive medo, a certa altura, que ficasse um bocado datado.

Exatamente, mas quis manter. Mas nós, mulheres de 30 e tal anos, 40 e tal anos, trocamos whatsapps e mensagens. Portanto, há uma troca de mensagens, há uma que deixa um áudio e começa sempre a dizer “eu sei, eu sei, vocês não gostam de áudios”, mas tem que dizer isto. É tornar o livro realista.

Tem tido retorno do livro? Sendo uma figura pública e alguém muito ligado ao mundo dos livros por causa do podcast, o que lhe dizem os leitores?

É recente a saída, portanto, começa agora a chegar às pessoas. Eu estava muito ansiosa, no mau sentido, ou seja, com muito medo.

Depois diziam: “Vais ver, vai vender, vai correr bem”. Só não faço ideia se vai vender. Eu estou nervosa com a opinião das pessoas.

Está a ser muito giro, porque houve uma senhora que fotografou um parágrafo e disse, “é mesmo isto”. Depois houve outra senhora que me enviou uma mensagem a dizer “Mariana, são três da manhã e eu não consegui largar!”. Até me surpreendeu, porque achei como é um livro onde há pensamentos e partilhas, não é um livro cheio de ação, apesar dos capítulos curtos que dão ritmo.

De repente há uma senhora que faz uma noitada para ler um livro! E depois temos um amigo, aqui na rádio, de vinte e poucos anos que me diz: “Mariana, estou a adorar e não acho nada que seja para mulheres de trinta anos. Eu tenho vinte anos, identifico-me com estes problemas, vejo isto a acontecer, nem que seja com amigos meus, ou em minha casa”

Como é que foi o processo de escrita? Foi muito exigente consigo? Deitou muita coisa fora?

Como disse, eu leio muito. Há a síndrome do impostor, não é? Acho sempre que tudo o que eu leio é melhor. Depois também outra coisa, que é, como tenho de facto muitas coisas para fazer, o podcast Vale a Pena, que implica ler muitos livros para entrevistar escritores, perco o ritmo muitas vezes.

No último ano e meio, dois anos é que finalmente dediquei-me mais a este livro, porque já me estava a fazer mal, já estava farta dele!

Porque de repente estou seis meses sem pegar nele. E quando volto a pegar, tenho de voltar a ler. E a recomeçar. Depois de repente passam-se quatro meses, e nos últimos dois anos fiz retiros de escrita.

Eu ganhei um voucher para um hotel, e em vez de ir namorar com o meu marido, disse: “Desculpa, vou sozinha!”. E então aí, fui lendo e recomeçando.

Apesar de ter começado há dez anos, não há um texto escrito há dez anos, foram sendo reescritos e reeditados. Há uma altura que eu pensava, “isto está uma chatice, isto está uma seca, elas estão queixosas”.

Depois cheguei a ter uma versão e pensei: “Mariana, estou farta disto, vais parar?” E recomecei, sabendo que não queria desistir dele, porque as personagens estão completamente vivas em mim.

Aconteceu-me recomeçar, e seis meses depois, quando volto a pegar no livro, odiei o que fiz, volto à versão anterior. Já dizia mal do livro. Portanto, sim, houve aqui muita sofrimento

E agora, depois do romance? Há está a escrever? Porque às vezes há autores que fazem isso, só lançam quando já estão a escrever outro livro.

Por acaso, deram-me esse conselho e disse e eu ainda não tinha acabado este primeiro romance. Tive uma ideia quando estava no carro, a guiar.

Cheguei a casa e escrevi, escrevi, escrevi, 18 páginas com essa ideia. Depois larguei e continuei o outro. Cheguei a ter um último retiro de escrita este ano, em que já estava a trabalhar no segundo romance.

Depois parei novamente, porque tive que fazer a edição, com a Porto Editora e a revisão deste meu primeiro romance.

Agora estou cheia de vontade de continuar o segundo, se bem que a ideia era completamente diferente, mas, sem querer, as personagens do primeiro estão tanto comigo que não sei se uma delas não vai comigo.

Elas estão completamente vivas em mim. Cheguei a ter momentos que desabafava com as minhas amigas, já assim um bocado frustrada: “bolas, não acabo isto!”, e as minhas amigas diziam: “larga e faz outra coisa”.

Eu não consigo. Elas falam comigo, eu tenho ideias para a Laura, para a Vitória, para a Catarina, cada uma com a sua personalidade!

Mas são ideias muitas das vezes que estão a acontecer na cabeça, sem estar em frente ao ecrã do computador?

Sim, tenho imensas notas no meu telemóvel, se estiver a conduzir, tenho áudios, para não estar a escrever.

Depois eu lembro-me de há muitos anos, quando escrevi para adolescentes, que eu tinha um bloco com uma caneta na mesa de cabeceira, porque a adormecer, então, acontecem imensas ideias.

Agora já não é o bloco com a caneta, é o telemóvel. Ainda para mais com a luz do ecrã! Mas sei que tenho que escrever logo, por mais que esteja mesmo a adormecer e me custe, porque no dia a seguir não me vou lembrar.

Mas sim, tenho imensas coisas soltas. Isso aconteceu-me com o primeiro romance também. Gostava de não repetir o padrão, mas tenho imensas ideias soltas aqui e ali, às vezes um capítulo inteiro, às vezes só um tema, às vezes só um parágrafo, às vezes só uma frase, estou cheia de material.

Uau! Acho que ia perguntar “que mais gosto”! Gosto de empatia e vulnerabilidade, que tem muito a ver com este romance.

Que eu embirre? Uma boa pergunta, eu não sei. Tenho que pensar. Embirro mais com atitudes.

Embirrou com algumas atitudes das próprias personagens, apesar de ser a autora a mandar?

Sabe que não sou eu! É engraçado, porque isso é outra coisa que se diz e é verdade.

Eu já sabia, porque há muitos anos escrevi novelas e fui guionista de telenovelas, sabia que isso acontecia, que as personagens ganham vida.

No romance há um momento de tensão que não estava previsto. Elas ganharam vida. Conhecemos os nossos amigos e eu conheço muito bem estas três amigas.

Mas de repente surge um momento de tensão que não estava previsto e até me complicou a vida! Elas ficam zangadas. Como é que eu continuo a minha história? Eu não consigo escrever do capítulo 1 ao 50 num esqueleto. Eu vou escrevendo à medida e tive de pô-las bem outra vez. Elas aí é que me mandaram na história!

  • Fonte: Rádio Renascença
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