Três meses de sistema Volta. “Revolucionário” ou “um fracasso”?
- 20/07/2026 03:15
- Redação
No anexo onde estão instalados os pontos de recolha Volta, junto à entrada para a estação de Sete Rios, em Lisboa, há quem chegue com grandes sacos de plástico carregados de garrafas e latas para devolver. Depois de depositar mais de uma centena de embalagens numa das máquinas disponíveis, e visivelmente satisfeito, um dos utilizadores abandona o local com um voucher superior a dez euros, que pode descontar numa compra futura ou pedir a conversão em numerário.
Nicole Pataca, uma das utilizadoras do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) de Sete Rios, considera que o Volta é “revolucionário” pelo seu contributo para a redução do impacto ambiental. Depois de ter usado as máquinas “cinco ou seis” vezes, acredita que “é algo que ajuda a salvar o planeta”.
Todavia, há quem ainda olhe com desconfiança para o Volta. Junto a um ponto de recolha interior, no parque de estacionamento de uma superfície comercial de Lisboa, Sandra Ferreira diz que o Volta “não tem muita lógica”.
“Nós estamos a pagar para devolver”, considera. “Isto é uma maneira de o comerciante levar mais dez cêntimos e, se a gente meter a garrafa no lixo, eles é que ficam a ganhar.”
“Durante mais de 40 anos, a população foi informada que devia colocar todas as embalagens [de plástico e metal] no ecoponto amarelo”, relata Leonardo Mathias. No entanto, nota, “nem tudo o que vai para o ecoponto é reciclado”. Segundo o presidente do SDR, “mais de 50% dos resíduos, em Portugal, vão para aterros”. O que existia antes do Volta, descreve, era “uma lógica de comprar, consumir e deitar fora, criando uma economia linear”.
“Mesmo quando não vai para debaixo de terra, uma garrafa que entra no ecoponto amarelo pode ser contaminada com um óleo, com uma margarina ou com um champô e perde o seu valor industrial”, ilustra.
É neste ponto que o novo sistema é diferente, refere, porque “a recolha é feita de forma seletiva”. As embalagens “vão diretamente da máquina para um centro de contagem, de um centro de contagem para a reciclagem e da reciclagem – criando novos moldes, novas garrafas e latas com qualidade alimentar – voltam a integrar a economia”, clarifica.
Ainda assim, no que toca à reciclagem do plástico, diz o especialista em ciência do ambiente, “há uma questão que melhora muito, que é a qualidade do material”. Quando o tereftalato de polietileno (PET, na sigla em inglês), “que é um dos materiais mais utilizados nas garrafas”, é colocado no ecoponto amarelo, explica, pode ser contaminado e “voltar ao mercado sem ter as características de segurança para uma embalagem que esteja em contacto com alimentos ou bebidas”.
Nesta lógica, Leonardo Mathias considera que “o Volta é, talvez, o sistema mais puro de reciclagem”. Portugal é o 19.º país europeu a implementar o SDR e a expectativa é que “todo o espaço europeu venha a ter sistemas de depósito e reembolso”, diz ainda.
Mas nem tudo corre bem, e o recém-chegado SDR não escapa às críticas. Antes de entrar num supermercado próximo da Junta de Freguesia de Benfica, em Lisboa, Simone Rossi diz que “a ideia é interessante, mas é um fracasso”. O motivo, explica, prende-se com o facto de “somente alguns itens serem aceites” e com a “confusão” provocada pelas máquinas fora de serviço. “Eu acho que atrapalhou um pouco o intuito de reciclar. Virou uma coisa chata, complicada”, acredita.
Esta visão sobre o processo de devolução não é um caso isolado. Nas imediações de outro supermercado da zona Noroeste da capital, Maria Santos confessa que se sente “enganada” com o Volta. “É uma maneira de estarem a levar mais dinheiro, porque depois o retorno é dificílimo”, alega, “portanto, eu não vou fazer isso”.
Para serem aceites pela máquina, as embalagens não podem estar deformadas, algo que Leonardo Mathias justifica com “componentes técnicas”. Para que as máquinas consigam identificar o tipo de garrafa ou de lata, “elas têm de estar, na medida do possível, o mais intactas, para poderem ser lidas, pesadas e consideradas como válidas”, diz, apontando a “prevenção de fraude” como outro dos motivos para esta necessidade.
Até 9 de agosto, decorre um período de transição em que coexistem embalagens com e sem símbolo Volta: só as primeiras estão abrangidas pelo sistema. A partir do dia 10 de agosto, avança o presidente do SDR, o Volta vai ter 3.000 pontos de recolha em todo o território nacional. Para já, existem 2.500. Mas, apesar de “as máquinas terem contratos de manutenção e limpeza”, diz, por serem muitas, “é inevitável” que, “de vez em quando”, os utilizadores se deparem com máquinas que não estão a funcionar.
Quando a devolução na máquina não é possível, declara Mathias, os clientes “têm duas hipóteses”: ou vão a outra máquina ou pedem a recolha manual. “Os supermercados devem aceitar a recolha manual quando as máquinas não estão a funcionar”, sublinha.
Ismael Rienda, da ZERO, lembra ainda que existem zonas onde os ecopontos são escassos ou estão longe dos locais de consumo. Por esse motivo, em muitas ocasiões, as pessoas colocavam as embalagens no lixo indiferenciado. “Agora”, constata, “vão ter de utilizar o sistema Volta” e, naturalmente, “o utilizador sente uma grande diferença e um desconforto”.
“Temos o mesmo problema, por exemplo, noutras máquinas que são muito utilizadas, que são as caixas de multibanco”, diz ainda. Isto faz com que, para várias tarefas do dia-a-dia, as pessoas com mobilidade reduzida tenham de fazer-se acompanhar de alguém que as ajude.
Leonardo Mathias conhece estes constrangimentos, e a acessibilidade das máquinas é outra questão a que o SDR vai dar “mais atenção”, garante. “Fomos bem chamados à atenção desse tema, e agradecemos. Há umas máquinas que têm uma espécie de estrado que dificulta a entrega”, reconhece, referindo, no entanto, que “há sempre a hipótese da entrega manual”.
“A realidade”, prossegue, “é que, muitas vezes, não se consegue chegar a um ecoponto ou não se consegue chegar à prateleira de cima” de um supermercado, por exemplo. “Portanto, alguém que não pode, pede ajuda”, sugere. Não obstante, o presidente do SDR afirma que esta situação está a ser analisada em articulação com os distribuidores e com os retalhistas para encontrar uma alternativa. “Uma rampa ou um botão para chamar alguém da segurança, por exemplo”, sugere.
Além das adaptações pensadas para pessoas com mobilidade reduzida, o SDR está a estudar soluções para outras realidades, estando planeado “ter toda a comunicação em braile”, revela o presidente.
Leonardo Mathias considera que o Volta é o “maior projeto que já existiu na área dos resíduos em Portugal”. Por esse motivo, foi definido um “período progressivo e gradual de adaptação”, que termina no dia 10 de agosto. Até lá, garante, “todas essas componentes vão ser afinadas”.
Há quatro marcas aprovadas pelo SDR para o fornecimento das máquinas de recolha. O custo “depende do tamanho da máquina”, diz Mathias, mas “em média, é de cerca de 20 mil euros”.
“Depende também de como é que o supermercado, ou o hipermercado, pretende interagir com estes fornecedores: se compra as máquinas ou se as aluga”, afirma. “Há variadíssimas formas”, avança, “mas quem tem investido têm sido, essencialmente, os supermercados”.
Para os profissionais da restauração e hotelaria, o SDR está a colocar no terreno o que chama de quiosques Volta – “contentores onde se podem entregar sacos inteiros, para facilitar a vida, e é feita diretamente uma transferência bancária”, esclarece Leonardo Mathias. “Neste momento já temos dois contentores colocados, no Funchal e em Albufeira, mas em 14 outros municípios também vamos ter esta facilidade”, assevera.
Há três redes de recolha, explica o presidente do SDR: “Há a rede obrigatória, que abrange os supermercados e hipermercados com mais de 400 metros quadrados e que vendam mais de 30% de produtos alimentares. Depois há a rede supletiva, que é gerida diretamente por nós [o SDR], e que é composta por estes quiosques muito maiores, que recebem vários sacos e são muito mais rápidos. E, em terceiro lugar, há a chamada rede voluntária, que são entidades ou lugares onde não se previa ter uma máquina, mas que têm uma densidade populacional muito relevante. O melhor exemplo de todos são os aeroportos, certas estações de caminhos de ferro ou certos paços de concelho. Aí também vão poder existir máquinas a serem exploradas por nós ou por uma entidade que se certifique e se inscreva”.
A associação ambientalista ZERO reconhece que o SDR não resolve todos os problemas da reciclagem em Portugal, uma vez que “só abrange alguns materiais”, refere Ismael Rienda. Porém, “dentro desses materiais, resolve uma grande parte do problema”, uma vez que os materiais em causa – o plástico e o metal - “têm uma taxa de captura e reciclagem muito baixa. Portanto, este sistema, facilmente, vai conseguir duplicar, ou mais, os números que tínhamos antes”.
Quando uma embalagem é depositada num ponto de recolha é triturada. “Depois”, explica Leonardo Mathias, “essas unidades são encaminhadas através de distribuidores – aprovados pelo SDR – para os centros de contagem e triagem”.
Há dois destes centros, prossegue, “um na zona da Grande Lisboa e um na zona do Grande Porto, onde são separados os aços, os alumínios e os plásticos e são recontados. Uma vez recontados, esta separação mantém-se. São postos em fardos e são leiloados diretamente a recicladores, que compram as unidades, transformam-nas outra vez e fornecem-nas à indústria de bebidas”.
Mas quando uma embalagem não é devolvida, garante o presidente da instituição, os depósitos são geridos pelo SDR. “O talão tem a validade de um ano”, afirma Mathias. “Se não for reclamado pelo consumidor, o montante tem de permanecer durante três anos no balanço do SDR. Só ao fim de três anos é que pode ser utilizado para reinvestir no sistema. Portanto, é falso quando alguém diz que estão a ganhar com isto”.
“Os depósitos ficam no sistema e são reinvestidos no sistema”, salienta, mas só se as metas ambientais estiverem a ser cumpridas, “se não, nem isso”. O objetivo do SDR é atingir uma taxa de recolha seletiva de 90% até 2029. Neste primeiro ano, a meta é alcançar os 40%.
Considerando que “só em agosto é que todas as embalagens que entrarem no mercado vão ter o sistema Volta”, diz Ismael Rienda, este ano “ainda vamos deixar bastantes embalagens no ecoponto amarelo”. Por este motivo, a associação Zero acredita que a meta dos 40% “talvez seja realista”.
“Não podemos esquecer que este é um sistema caro. Envolve máquinas, envolve distribuidores, envolve campanhas e envolve sistemas de informação", recorda Leonardo Mathias.
Além dos depósitos não reclamados, o SDR tem outras duas formas de receita: através dos leilões do material recuperado aos recicladores e das prestações financeiras, ou seja, “aquilo que os produtores têm de pagar por cada embalagem que é recolhida”, conta o presidente do SDR.
O objetivo, continua, é traduzir a “responsabilidade alargada do produtor” numa “estrutura industrial para que seja melhor para o ambiente em Portugal, melhor para a limpeza urbana, melhor para a limpeza das nossas praias e rios, e também melhor para a nossa indústria, na medida em que podem reaver essas garrafas”.
Segundo a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em 2023, a taxa de utilização circular de material em Portugal registou um valor de 2,8%, muito abaixo dos 11,8% registados na média da União Europeia (UE), sendo o quarto país com a taxa de utilização circular de material mais baixa.
Com a implementação do sistema Volta, as embalagens passam a ser rastreáveis, algo que o presidente do SDR considera positivo para um setor “onde há muita falta de informação”, como na área dos resíduos. “Pela primeira vez nós temos, praticamente ao minuto, aquilo que foi recolhido, onde é que foi recolhido, os tamanhos, os prazos, etc.”.
“Essa é uma informação que nós, sempre que solicitado, enviamos às nossas autoridades”, afirma Mathias. O SDR é regulado pela Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), tendo sido licenciado pela APA e pela Direção-Geral da Economia. Estas entidades “pedem-nos essa informação, a quem nós entregamos e que, por sua vez, a entregam à UE”, clarifica.
Essa informação, diz, “é muito interessante e é muito importante” para Portugal, onde “os dados estatísticos que temos agora, em 2026, são de 2024, o que não é razoável no século XXI”, remata.