Jesus prevê "duas ou três" novidades em setembro e avisa: "Jogadores têm de ter regras iguais e estatutos diferentes"
- 20/07/2026 17:15
- Redação
Jorge Jesus vai manter a base da convocatória para o Mundial 2026, na primeira lista que fará como selecionador nacional, em setembro, com "talvez dois ou três jogadores novos", e avisa que há estatutos diferentes dentro de um balneário, mas as regras são iguais para todos.
"A próxima convocatória vai ser em setembro. O facto de Portugal ter ficado pelos oitavos de final não quer dizer que o novo selecionador chegue e mude 'N' jogadores. Não pode ser. Eu não sou burro. (...) A primeira convocatória não vai fugir muito da do Mundial, talvez dois ou três jogadores novos", admite, numa entrevista transmitida, esta segunda-feira, pelo Canal 11, pertencente à Federação Portuguesa de Futebol (FPF).
Jesus salienta que o coletivo está acima de tudo e deixa claro o primeiro pilar da sua ideia de jogo para a equipa das quinas: "A primeira qualidade de uma equipa é saber defender bem, não atacar. (...) Se não defenderes bem, podes ganhar jogos, mas nunca ganhas títulos."
"Falo de ideia de jogo. Uma coisa é teres qualidade defensiva por defenderes com muita gente. Outra coisa, que é o difícil, é saberes defender com poucos. A partir daí, tens a equipa muito mais preparada e posicionada para depois ser também forte ofensivamente", realça.
O novo selecionador assume o sonho de vencer o Mundial 2030. Por agora, contudo, ambiciona a revalidação do título da Liga das Nações.
Primeira coisa que fez: "O meu primeiro dia foi conhecer os cantos à casa, não conhecia por dentro. Perceber as dinâmicas, neste caso a estrutura desportiva. Olho para a seleção exatamente da mesma forma que olho para um clube. Há uma estrutura que representa a seleção e o clube, e há a estrutura desportiva, em que tens de saber quem reporta a quem. Todos os dias estou aqui, às 9h00 já cá estou a só saio ao final do dia."
Conversas: "Ainda não comecei a falar com os jogadores, eles devem estar em férias. Quando for a primeira convocatória, quero, dentro de uma pré-convocatória, ter falado com a grande maioria. Não sei se vou ter tempo de falar com todos, mas com tempo vou fazê-lo. Vou contactar os jogadores de forma pessoal para falar da seleção. Eu tenho uma vantagem: 12 dos jogadores que estiveram no Mundial já trabalharam comigo. "
Preço de vencer: "O preço é deixarem de fazer o que gostavam de fazer. Há coisas que, se calhar, querem fazer, mas, pela equipa, vão ter de deixar de o fazer. O preço a pagar é igual no clube e na seleção nacional. Depois, uns ficam com mais ou menos azia, mas é o mesmo. Para ganhares, para teres uma equipa forte, para além da técnica e da tática, tens de ter uma equipa unida, com caráter, amiga, que perceba que não podem jogar todos ao memso tempo, mas são todos importantes. E é verdade que numa equipa uns são mais importantes que outros, acontece em todas as equipas."
O primeira pilar: "A primeira qualidade de uma equipa é saber defender bem, não atacar. A Espanha ganhou à França porque soube defender melhor, soube parar todos aqueles jogadores. Para conquistares títulos, tens de saber defender bem. Se não defenderes bem, podes ganhar jogos, mas nunca ganhas títulos."
Ideia de jogo: "Tenho uma ideia diferente da anterior, cada treinador tem as suas ideias. Não há sistemas melhores ou piores, isso não existe. Um treinador tem é de, na minha perspetiva — porque o futebol para mim não é uma ciência exata e tem muito a ver com a criatividade do treinador e dos jogadores —, definir como a equipa defende e ataca. Eu não vou ensinar os jogadores a jogar, mas ensino-os a ter as ideias das equipas em que trabalho. Isso para mim é fundamental. Não terei uma ideia de jogo em que as características dos jogadores não se encaixem."
Meio-campo de Portugal: "Tem potencial para ser o melhor, tem tendência para ser um dos melhores. A qualidade individual está lá, mas depois temos de transportar isso para a prática e mostrar que somos melhores. A ideia do meio-campo da Espanha, no Mundial, foi perfeita. Na seleção portuguesa há muita quantidade e qualidade. Se jogares com três médios, o leque abre. Se jogares com dois médios, um médio posicional que nas minhas equipas é difícil não ter, e um segundo médio de características ofensivas, o leque começa a reduzir para a quantidade de jogadores que tens para essa posição."
Continua a dizer que o selecionador só seleciona? "O treinador é um selecionador do plantel. A melhor qualidade que um selecionador possa ter é selecionar os melhores. E para um treinador a mesma coisa: a tua maior qualidade é saberes escolher os 11 melhores. Há treinadores que treinam e há treinadores que ensinam. O selecionador tem menos tempo, mas as novas tecnologias permitem agora também treinar sem ser no campo."
Jogar melhor que no Mundial: "Se a seleção não jogar mais do que jogou no Campeonato do Mundo, não vou fazer melhor. Temos de jogar mais, senão continuamos nesta de alimentarmos um sonho, termos grandes jogadores mas não ganharmos muita coisa. Ganhámos um Europeu já há dez anos. Já ganhámos duas Ligas das Nações. É uma competição menos importante que o Europeu e o Mundial, mas é a competição mais difícil, porque as melhores equipas europeias chegam à decisão. No ano passado, chegaram Portugal, Espanha, Alemanha e Inglaterra. Dessas, três [duas, na verdade: Espanha e Inglaterra] chegaram às meias-finais do Mundial. A diferença do Europeu para o Mundial é a Argentina e o Brasil, mais nada."
Pedro Proença define objetivos máximos: "Esta mentalidade ganhadora da FPF tem a ver comigo. Só podes pensar em ser campeão do mundo, porque os jogadores dão-te garantias e indicadores de que podes ganhar. Eles jogam nas melhores equipas do mundo e da Europa, depois se são os melhores já é outra história. Isso dá-nos a crença de que Portugal tem todas as condições para ganhar o Europeu ou o Mundial."
O que lhe foi pedido: "O grande foco é o Campeonato do Mundo 2030 em Portugal. É o meu foco também. Tenho grande orgulho em ser selecionador do meu país, mas também aceito este projeto por ter no horizonte o Mundial 2030 em Portugal. E queremos sonhar com a possibilidade de conquistar o Mundial. Os grandes clubes exigem que entres para vencer e a seleção portuguesa é a mesma coisa, exige que entres para vencer."
Nova calendarização da Liga das Nações: "Fazermos quatro ou cinco jogos seguidos ajuda-me. Esses 15 dias dão-te mais tempo, vamos poder trabalhar e crescer para o futuro. Para mim, é melhor. Vou estar mais tempo com os jogadores. Quando estava nos clubes, os jogadores iam para as seleções e quando vinham, vinham com outras ideias. Agora, para mim, é ao contrário."
Adversários da Liga das Nações: "A Noruega eliminou o Brasil, a Dinamarca tem vários jogadores nas melhores equipas da Europa. A Noruega também e se calhar tem o melhor ponta de lança que neste momento há no mundo. Conhecemos o valor destas seleções. Parte física é importante, mas a condição técnica e o conhecimento tático do jogo podem dar-te vantagem."
Caráter da equipa: "O caráter da seleção é vencedor, é os jogadores que fazem parte da seleção partilharem esse caráter uns com os outros e apresentarem-se como uma equipa competitiva. Para seres melhor que os outros, não basta teres bons jogadores e um bom treinador. A equipa tem de ter caráter. A equipa tem de estar unida e não pode pôr os interesses individuais à frente dos interesses coletivos."
Mudanças na convocatória: "A próxima convocatória vai ser em setembro. O facto de Portugal ter ficado pelos oitavos de final não quer dizer que o novo selecionador chegue e mude 'N' jogadores. Não pode ser. Eu não sou burro. Não tenho tanto tempo assim para trazer já muitos novos jogadores, nem há um leque assim tão grande. Ao longo dos quatro anos vão aparecer novos jogadores, não tenho dúvida. A primeira convocatória não vai fugir muito da do Mundial, talvez dois ou três jogadores novos."
Estatuto: "Na seleção e nos clubes, os jogadores têm de ter estatutos diferentes. Têm de ter todos regras iguais; agora, há jogadores que têm de ter estatutos diferentes e os colegas têm de saber que há jogadores diferentes: pelo seu passado, pela importância para as equipas. Mas as regras têm de ser para todos."
Jogadores que não estejam a 100%: "Na seleção só posso convocar e pôr a jogar se estiverem a 100%. Nos clubes, sei que um jogador não está a 100% em relação a outro jogador, mas sei que os 100% dele são melhores que os do outro, portanto é nele que eu confio. Numa seleção, em que a qualidade é muito nivelada, tem a ver com o momento do jogador."
Melhorias defensivas: "Falo de ideia de jogo. Uma coisa é teres qualidade defensiva por defenderes com muita gente. Outra coisa, que é o difícil, é saberes defender com poucos. A partir dessa ideia, tens a equipa muito mais preparada e posicionada para depois ser também forte ofensivamente."
Preocupações: "Acredito na qualidade dos jogadores e na minha qualidade como treinador. A minha preocupação é tentar pôr a equipa a jogar ao nível da qualidade dos jogadores. Tenho mais certezas que dúvidas, mas dúvidas a gente tem sempre. E quando trabalhas pelo excesso da qualidade, ainda te pode criar um bocadinho mais dúvidas."
Equipa técnica com lenda da seleção: "Em todas as equipas onde trabalhei, mesmo no estrangeiro, quero sempre ter na minha equipa técnica um antigo jogador. Na seleção, a ideia é essa: encontrar alguém que tenha sido jogador da seleção, que possa fazer parte da minha equipa técnica dentro das ideias que ele vai aprender, porque as ideias são minhas, e que seja importante para a qualidade da equipa técnica. Não vou buscar um elemento destes para ir pôr uns pinos; é para fazer parte do trabalho."
Jorge Jesus ainda pode surpreender? "O futebol está sempre a evoluir. Quem pensa que o futebol estagnou e não há nada para aprender, engana-se. O futebol não tem direitos de autor. Se tivesse, seria complicado para alguns treinadores, porque há treinadores que são criadores e outros que copiam. Com os três intervalos que tivemos no Mundial, com o facto de haver agora 'time-outs', se continuar a haver — como há nas outras modalidades coletivas: tu entras com uma ideia, aquilo não está a funcionar e tu mudas —, vai permitir que os treinadores mexam na equipa e quem perceber isso, vai ter vantagem."
Preparação para ser selecionador: "Toda a gente diz que o selecionador não é igual ao treinador de clube, tem mais tempo para fazer outras coisas. Não vai ser tanto assim. Mesmo não trabalhando diariamente com os jogadores, tenho muito a trabalhar com a minha equipa técnica, criando ideias. Foi isso que tentei, ao longo destes últimos dois anos — a partir do momento em que fui para a Arabia Saudita pela segunda vez, quando ia para treinar a seleção e não o Al Hilal, e na altura as coisas estavam praticamente definidas mas o team manager do Al Hilal convidou-me e eu fiquei a abanar —, comecei a preparar-me. Depois, tive a hipótese de treinar a seleção do Brasil, mas não aconteceu, e comecei a pensar que o meu futuro seria treinar uma seleção. E sendo a minha, a portuguesa, é a cereja no topo do bolo."
Brasil: "Eu digo que Portugal é o Brasil da Europa. Muita qualidade individual, mas depois, quando chegam aos Mundiais — o Brasil não é campeão há 22 anos —, não conseguem fazer uma grande seleção. E Portugal também. Não esquecendo que fomos campeões europeus. Eu acabei por não ir treinar a seleção do Brasil, mas já tinha indicações para a pré-convocatória. O Brasil, por muitos jogadores que tenha, e tem... Acho que neste momento o melhor ponta de lança do Brasil é o Pedro. Mudaria um ou dois jogadores, mas em geral manteria o que ele fez. Depois, o que se faz no treino é que faz a diferença."
Relação com os jogadores: "Como treinador, se eu sentir que há algum problema que eu possa ter com um jogador, mas sentir que ele é fundamental para a equipa, para mim o mais importante é sempre a equipa. Não abdico de nenhum jogador por causa disso. Felizmente, não tenho na minha carreira muitos problemas dessa ordem, mas qualquer treinador tem, e quanto mais anos de treinador tens, tens de bater de frente e ter opiniões diferentes, mas isso faz parte... Eu tento sempre escolher os melhores para a equipa. O jogador não percebe isso e nunca vai aceitar. Eles só vão perceber no dia em que forem treinadores. Aí vão dizer: 'Agora, percebo como os treinadores pensavam'."
Treinou Braga, Sporting e Benfica: "Ajuda. De momento, é a minha grande vantagem. Começar a treinar com jogadores que, apesar de alguns deles não trabalharem comigo há vários anos, conhecem a minha personalidade. Claro que mudei, hoje sou muito mais tolerante, muito mais pensador. Os anos moldam-nos.